quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 20 - Por Luiz Domingues

Aquela época, vista hoje em dia com o devido distanciamento histórico, era na verdade o final da feira...

Eu e a maioria das pessoas, não tínhamos essa percepção e vivíamos a euforia hippie de mudar o mundo, muito porque naquela Era pré-internet aberta ao público (já existia a internet, mas circunscrita à poucas universidades americanas e ainda em fase experimental), as mudanças demoravam mais para pulverizar-se. 



Portanto, somado à ditadura, o movimento hippie havia chegado com atraso no Brasil e em 1977, haviam ainda muitos indícios de sua força. Era de fato uma juventude que buscava música de qualidade e ligava a questão da música a outros ramos da arte.

Gostávamos de cinema; teatro; artes plásticas; literatura...eram as tais portas da percepção que buscávamos o tempo todo...



Cabe tocar num assunto diferente, agora : a questão do apelido "Tigueis" que eu ostentava foi da seguinte maneira pela qual iniciou-se : em 1974, eu estava na sétima série, e numa conversa entre amigos da escola, o assunto enveredou-se sobre origens de cada um ali. Ao indagarem-me, respondi que meus avós paternos eram portugueses. Dessa forma, começaram a chamar-me de "português". Daí em diante, sabe-se bem como funciona a cabeça de moleques de treze, quatorze anos, não é ? Começaram as brincadeiras, geralmente fazendo alusão ao fato de eu não ter muita inteligência por conta de ter sangue luso. Daí as corruptelas : "Português" virou "Tigueis", "Tiga" etc. 




Fixou-se em "Tigueis" enfim, e eu fui deixando. Esse apelido causou-me inúmeros aborrecimentos, principalmente quando eu comecei a usá-lo como nome artístico, determinação essa que jamais deveria ter feito. Rompi com isso em 1999, assim que comecei a trabalhar com a Patrulha do Espaço. Sei que gerou estranheza inicialmente, mas fico feliz por ver que hoje, muita gente nem saiba dessa particularidade de minha carreira.



Ainda em junho, assistimos mais um show multifacetado e rodeado de improvisos, no Crusp, um alojamento de estudantes da USP.

Eles sempre promoviam shows para arrecadar fundos e ter um pouco mais de qualidade de vida, visto que geralmente eram estudantes de origem simples e oriundos do interior de São Paulo ou de outros estados. 



O problema é que em 1977, a ditadura ainda rugia forte, e foi numa noite dessas em que assistíamos artistas como “Jorge Mautner”, o grupo de chorinho do bandolinista Isaías, e o “Bendengó” entre outros, que a polícia apareceu para quebrar o astral. Tinha tudo para virar um enquadro geral, com artistas e público indo parar no xilindró, quando por milagre uma mulher de um metro e meio de altura, convenceu os policiais de que ali era uma manifestação cultural inofensiva, e sem conotação política. 



Era uma atriz ainda não super famosa, mas caminhando para tal, chamada Bruna Lombardi. Ela estava ali para declamar seus poemas, que vendia em livretos mimeografados, coisa bem artesanal e hippie ao extremo.



Ainda nesse mês de junho, assistimos mais uma maratona de Rock, desta feita no ginásio do Corinthians. Lembro-me de ter ficado encantado com o som do “Humahuaca”, um grupo de Jazz-Rock afiadíssimo, onde tocavam três ex-músicos de apoio dos “Secos e Molhados” : Willie Verdarguer; John Flavin, e Emílio Carrera.


Dudu Chermont em dois momentos : nos anos 70, com a Patrulha do Espaço, e tocando com sua ex-banda em 2003, pouco antes de falecer. Dá para ver o braço do meu baixo, na foto de 2003. 

                 

E vi também a nova banda do ex-vocalista do Made in Brazil, Cornélius "Lúcifer", chamada “Santa Fé”, onde um guitarrista muito jovem chamava a atenção, chamado Dudu Chermont, futuro Patrulha do Espaço. Num mundo que dá muitas voltas, jamais imaginaria que no longínquo ano futuro de 1999, eu seria um membro da Patrulha do Espaço, e o Dudu como ex-membro, faria algumas “canjas” em nossos shows. Pior ainda, como poderia imaginar em 1977, sentado numa arquibancada de um ginásio de esportes, e vendo-o tocar, que estaria lamentavelmente no seu velório e enterro em 2003 ?



As visitas ao cine Bijou continuavam frequentes. “Mad Dogs and the English Man”; “Janis” (famoso documentário cobrindo a vida e obra de Janis Joplin); “Monterey Pop Festival'1967”... só petardos, sem contar filmes de Werner Herzog; Dario Argento etc...Assistimos “Fearless With Vampires” do Roman Polanski, imaginando como a “família” de Mason pôde matar Sharon Tate; A cinebiografia do astro Folk, Woody Guthrie e por aí aproveitávamos ao máximo a sua programação...



Em julho, surgiu a ideia de ficarmos uma semana numa casa de praia da família Vicino. Seria a nossa primeira aventura intermunicipal como banda... 

Continua...

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