sábado, 22 de dezembro de 2012

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 34 - Por Luiz Domingues

Não anotei, portanto não tenho a data correta, mas foi no início de setembro de 1977, que o filme "The Song Remains the Same", do Led Zeppelin, estreou enfim no Brasil. Nem preciso descrever a excitação que isso causou-nos, pois além do Led Zeppelin ser uma banda "mega" no nosso imaginário, e campo de influências óbvias, era na prática, a única maneira de vê-los em ação, pois eram raríssimas as imagens do Led tocando ao vivo, graças à estratégia mão pesada do seu empresário, Peter Grant. Além do mais, como tupiniquins de terceiro mundo, só mesmo os muito abonados, para sair da "Terra Brasilis" e ir ver ao vivo em algum palco de país de primeiro mundo. Sendo parte da maioria esmagadora dos não pertencentes à essa camada seleta, eu e meus amigos só poderíamos ver dessa forma, numa tela de cinema. 
Uma semana antes, a distribuidora do filme em parceria com a gravadora WEA / Atlantic, promoveu uma avant-premiére, com direito a cocktail e reforço de um P.A., dentro de uma sala de cinema, para reproduzir o áudio com potência de show ao vivo. Eu quase arrumei convite para esse evento, pois meu amigo Cido Trindade, tinha um contato forte, que abriu-lhe essa possibilidade. Na hora "H", só foi possível obter convite para ele e sua namorada, e infelizmente eu perdi essa oportunidade.
Então, como pobre mortal, contentei-me em assistir a partir da exibição aberta ao público. Foi bem próximo ao feriado de 7 de setembro, provavelmente no dia 8, pois lembro-me bem que foi numa quinta-feira. De todos os amigos e companheiros da banda, só o Wilton Rentero pôde ir, pois queríamos assistir logo na primeira sessão.
Lembro-me que estava um frio intenso e com leve garoa, o que forçava-nos a andar todos encapotados e certamente mais elegantes e Rockers. Chegamos ao Cine Majestic da Rua Augusta, bem próximo do cruzamento com a Av. Paulista, por volta do meio-dia, esperando a sessão das quatorze horas e já havia um freak sentado no chão, perto da bilheteria...e rapidamente foram chegando hippies; freaks e Rockers pelos dois lados da rua. Vou te contar, meu amigo leitor : que saudade tenho dessa época, com esses ecos woodstockianos ainda vívidos. Esse clima de porta de show, era sempre mágico, como se estivéssemos na porta do “Fillmore West”; “Winterland”; “Raibow Theater” de Londres...quando a bilheteria abriu enfim, a fila já era imensa. O rapaz que já estava lá antes de nós, comprou o ingresso, e com ele em mãos, fez pose e recebeu aplausos da massa freak. Fui o segundo e também recebi aplausos...
Esse clima de fraternidade e cumplicidade num ideal, foi destruído logo a seguir, infelizmente, graças aos ventos do baixo astral que já sopravam em Londres, e com esses simpatizantes dessa causa esdrúxula, comprometendo-se a "destruir" tudo o que amávamos...que bela "atitude"...mas ainda peguei o fim dessa Era Hippie, e sinto-me feliz por ter essas lembranças preciosas na minha memória.
E quanto ao filme, as reações eram de show ao vivo. Quando o Robert Plant comia um cogumelo, na cena em que "interpreta" um cavaleiro medieval, as pessoas vibravam, soltavam gritos...
A cena do Jimmy Page, como bruxo na montanha, também provocava reações acaloradas. Fora pessoas cantando e muita gente não aguentando ficar sentado, e indo dançar pelos corredores, tocando guitarras imaginárias...Era inacreditável estar vendo o Led Zeppelin ao vivo, mesmo que numa tela de cinema, e a despeito da performance musical da banda nesse filme não estar cem por cento, honestamente analisando. E fui muitas outras vezes assistir, com outras companhias. Lembro-me de ter ido no sábado posterior, por exemplo e desta feita acompanhado do Laert e de uma série de outros amigos e conhecidos dele, Laert, também. Nesse sábado, lembro de ter sentado-me ao lado de uma amiga dele que estava viajando pelo efeito de "bolas" e não parou um segundo de contorcer-se durante o filme, com picos de euforia em canções que ela devia gostar mais. 

Continua...

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