sábado, 1 de novembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 184 - Por Luiz Domingues


Para quem não conhece a cidade de São Paulo, deixo aqui  uma explicação rápida sobre uma tradição típica da cidade, que são os jornais de bairro. 

Pelo fato de existirem centenas de bairros, e muitos serem gigantescos, com proporção e infraestrutura de verdadeiras cidades, comportam muitos jornais de bairro, que noticiam fatos do cotidiano de sua esfera etc.

Poucos dias depois dos shows do Teatro Arthur Azevedo, o empresário Mário Ronco nos avisou que uma carta de uma leitora fora publicada, num desses jornais, no caso de um que circulava na Mooca, bairro da zona leste de São Paulo, e onde localiza-se o teatro citado, onde tocamos. 


Claro, ele guardou exemplares, e eu guardei esse recorte, como uma peça curiosa de memorabilia, mais que portfólio, pois pelo fato de ser uma carta de leitor, não caracteriza exatamente um material de imprensa, portanto, não considero como portfólio.

Mas o curioso, é que a carta dessa moça, tinha o teor de uma reclamação indignada, como se o show da Chave do Sol tivesse lhe causado algum tipo de prejuízo pessoal, o que não deixa de ser hilário por esse tipo de abordagem histriônica.

Eis a íntegra da missiva da garota mooquense :

"Sou assídua leitora deste jornal, entregue todas as semanas em minha residência, aqui no Alto da Mooca. Gostaria que publicassem minha opinião a respeito do show realizado durante a semana passada, no Teatro Arthur Azevedo, lá na avenida Paes de Barros, chamado 'Tendências do Rock'. Gostaria de saber o que acham esses artistas, ou pseudo-artistas- músicos brasileiros sobre as suas atuações nos shows.

Na sexta-feira, assistimos o conjunto A Chave do Sol. Acho que eles pensam que estão em qualquer lugar, menos no Brasil.

Tocaram tanto que nem perceberam que ninguém estava gostando, nem vibrando com tanto Jazz. Enfim, eles tocam para si próprios, o público que se dane"...


Essa carta com tal "reclamação", saiu na edição de 15 a 21 de março de 1985, do jornal semanal, "A Voz do Bairro", que circulava pelo bairro da Mooca, zona leste de São Paulo.

Não vou divulgar o nome da moça, mesmo porque, muito provavelmente ela nem se lembra de que perdeu seu tempo escrevendo uma missiva com tal teor, para o jornal.

Bem, ninguém é obrigado a gostar de nada. Isso é um princípio básico da vida. 


Segundo ponto, a minha lembrança pessoal do show é bem diferente, pois o artista em cima do palco sabe exatamente se o show está reverberando ou não. Quando não existe sinergia com o público, isso fica claro, límpido e sem dúvida alguma, nos chateando, claro.

Todavia, não foi o caso dessa apresentação. Se ela ou seu acompanhante não gostaram, foram certamente manifestações isoladas e todos estamos sujeitos a isso, mesmo se a maioria esmagadora esteja adorando. 


O direito dela expressar sua opinião, eu não contesto, de forma alguma. Claro que tem esse direito de falar o que pensa.

Mas convenhamos, precisava ? 


Eu jamais escreveria uma carta para um jornal, para dizer o que ela disse, mesmo que tivesse razão, pois esse tipo de opinião é pessoal e nada acrescenta.

Outro ponto, para que ser agressiva ? 


Qual a motivação para usar de colocações desdenhosas tais como : "Pseudo-músicos" ? "Quem pensamos que somos" ? 

Ora, realmente não me lembro de termos sido arrogantes; altivos; presunçosos; prepotentes; ou agido com soberba, de forma alguma, em alguma fala no microfone.

E se ela identificou o Jazz em nossa música, sim, tínhamos tais elementos, mas o que poderíamos fazer se ela não aprecia tal gênero musical ?

Bem, é claro que não mudou nada, mas não podia deixar de registrar um fato muito inusitado, já que nesta autobiografia, proponho-me a trazer todos os elementos dos quais me lembrar, inclusive aspectos negativos e/ou curiosos, como esse...

Na mesma edição, uma mini matéria, enaltecia os shows, e trazia o contraste, com a opinião de vários leitores que foram assistir e haviam curtido. 


Só mesmo essa moça parece ter estragado sua sexta-feira, 8 de março de 1985. Devia ter ficado em casa e assistido mais um capítulo de "Roque Santeiro", onde o "Sinhozinho Malta" não a irritaria com tanto Jazz... 

Como já antecipei, os ventos animadores vindos da cooperativa, mas principalmente da parte do empresário Mário Ronco, que mostrava-se dinâmico, estavam frutificando, mas outro produtor começava a despontar no meio do Rock paulistano, mostrando-se também bastante dinâmico.

Dessa forma, alguns dias depois dessa empreitada no Teatro Arthur Azevedo, estávamos no palco do Teatro Lira Paulistana, num desses esforços promovidos pelo produtor Antonio Celso Barbieri.


Incrível como o Teatro Lira Paulistana funcionava num ritmo frenético, com shows de segunda a segunda, abrindo espaço para artistas independentes, o tempo todo.

Nesses dois shows em específico, tratavam-se de duas datas arrumadas de última hora, para suprir a lacuna ocasionada por desistência de outro artista. Portanto, não houve tempo hábil para uma divulgação mais robusta.

Os shows aconteceram nos dias 13 e 14 de março de 1985. Não me lembro de nenhuma ocorrência digna de nota. Foram apresentações normais, sem surpresas, nem positivas, tampouco, negativas.

A frequência, contudo, não foi das melhores, pois além de não termos tido tempo hábil para uma divulgação melhor, tratavam-se de dias úteis, sempre mais difíceis para atrair um público maior.

No dia 13, 50 pessoas estiveram presentes e no dia 14, 35 pagantes.

Não houve banda de abertura.

Mas o Barbieri estava com uma nova perspectiva na manga, que renderia frutos melhores, ali mesmo no Lira Paulistana, em abril de 1985, cujos planos de divulgação seriam mais bem executados, sem dúvida.



Continua...

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