quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 203 - Por Luiz Domingues


O outro fato desse mês, antes de falar dos dois shows e comentar o andamento das gravações do novo disco, se deu em relação à capa do álbum.

Como já comentei anteriormente, estávamos muito críticos em relação aos rafs que o ilustrador Líbero, estava nos trazendo. 


Não tínhamos dúvidas de que ele era um bom desenhista, mas não estávamos curtindo os rafs, simplesmente.

Mas é o tal negócio : vendo hoje, 28 anos depois (quando escrevi este trecho em 2013), e com a experiência acumulada, tenho a certeza de que nós tivemos muita culpa nesse processo, senão, culpa total.

Nós alimentamos uma ideia para o Líbero, e ele trabalhou o tempo todo nela. 


Os traços que eram modernosos, portanto oitentistas, eram fruto de nosso próprio pedido, pois queríamos uma imagem coadunada com a época, só que, paradoxo total, a época era o supra-sumo do baixo astral estético, sob qualquer ponto-de-vista !!

Portanto, como ele poderia trazer um traço diferente, se havíamos pedido contemporaneidade ?? 


Outro fator preponderante : o mote que lhe pedimos, era de um extremo mau gosto. Tremendo de um clichê , essa história de "sensualidade & agressividade", expressas através de uma mulher seminua, e um animal feroz, é vergonhosa, a meu ver...

Não sei o que o Rubens e o Zé Luis pensam sobre isso hoje em dia, e o Fran não está mais entre nós, mas de minha parte, acho um horror...

Bem, voltando à cronologia, o Líbero era solícito e demonstrava ter uma paciência enorme conosco, mas chegou num ponto onde não dava para postergar mais, e além do mais, o Luiz Calanca pressionava por uma resolução final desse lay-out, pois já tinha prazo definido para entregar a arte-final, à gráfica. 


Naquela época, demorava dias para a gráfica preparar um fotolito e daí, algumas correções de cores precisavam ser corrigidas para o cliente dar aval, e só então, a produção ser tocada. 

Portanto, para ter capa e encarte em mãos, o produtor fonográfico precisava de um bom tempo e muita paciência, com várias visitas ao parque gráfico, para finalmente ter o produto em mãos.

Dessa forma, uma reunião foi marcada no atelier do Líbero, e uma coisa constrangedora ocorreu...

O Líbero era gente boa e sempre nos tratou muito bem, apesar de termos sido tão "chatos" com ele, mas naquele dia em específico, acho que foi a cereja do bolo...

Ocorreu que ele anunciou que veríamos a capa finalizada, e para tanto, criou um suspense, deixando a arte final escondida, encoberta por um pano. Quando entramos, ele desligou a luz do atelier e deixando apenas algumas luminárias sobre o tablado de trabalho, tirou o pano, fazendo desse instante, quase um ato de
inauguração de uma obra...

E era, afinal de contas, claro que sim  !!

Mas a nossa reação foi a pior coisa da noite, pois os quatro componentes da banda em uníssono, fizeram uma expressão de decepção, indisfarçável...

O clima ficou chato, e ele só resmungou, algo do tipo : -"É...vocês não gostaram"...

De fato, a sensualidade da garota estava ali; a agressividade de um animal feroz, idem; e a música representada pela guitarra, também.


Mas os traços oitentistas não deixavam de nos incomodar. A garota, praticamente uma "punkzinha" de boutique, daquelas que frequentavam o "Madame Satã"; a guitarra modernosa; o bicho "feroz" mais parecendo um desenho do "Balão Mágico", francamente...como gostar disso ?

E mais uma vez realço : o Líbero não teve culpa alguma nesse processo.
 

Todas as ideias e diretrizes que lhe demos, foram seguidas à risca. Se os traços eram modernosos, foi um pedido nosso, sem dúvida.

A contracapa, mais razoável pela simplicidade, com as quatro fotos dos membros, amenizou a decepção geral. 

 


Essas três fotos acima são inéditas, e extraídas da sessão de onde escolhemos as fotos de Zé Luis e Rubens

As  fotos de Rubens e Zé Luis, foram feitas de forma emergencial, num estúdio fotográfico de bairro, perto da residência do Rubens. Usávamos esse estúdio para mandar revelar fotos de shows e promocionais, desde 1983.

A minha foto era ao vivo, de fato, foi extraída do show que fizéramos no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em 1984; e a foto do Fran, era do show do Buso Palace, muito recente,embora tenhamos tentado uma alternativa de estúdio, como no caso de Rubens e Zé Luis.

Para amenizar o clima constrangedor que cometemos naquela noite, o Líbero nos convidou a vermos a finalização do encarte, último item que faltava. 


Com o recorte da ficha técnica impressa em mãos, ele fez a colagem, e foi criativo ao borrifar tinta nanquim, obtendo as manchas que fazem o fundo. 

O texto da ficha técnica foi criado por mim, e o Luiz Calanca providenciou a sua impressão, pré-Lay-Out.

Assim foi a história da capa do EP de 1985...


Continua...

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