quinta-feira, 3 de abril de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 108 - Por Luiz Domingues


O próximo evento da Chave do Sol, foi absolutamente inesperado e inusitado para nós. 

Nós havíamos sido convidados para assistir a gravação de mais um programa " A Fábrica do Som", mas na condição de convidados tão somente. 

Era o dia 19 de junho de 1984, e estávamos agendados para participar gravando, somente na semana seguinte, dia 26. 

Fomos assistir a gravação e colocados num lugar estratégico do mezanino sobre o palco, fomos reconhecidos pela plateia, e muitos gritinhos ecoaram no teatro, dando-nos a sensação boa de que a banda crescia a olhos vistos. 

Então, um pouco antes de iniciarem-se as filmagens, vimos que o clima estava tenso entre os produtores do programa e técnicos da TV Cultura. 

Um bate-boca começou e de-repente os técnicos do P.A. começaram a desmontar o equipamento, gerando um alvoroço na plateia.  

Não sabíamos o que estava acontecendo ao certo, mas sentíamos a tensão aumentar a cada segundo. 

Foi quando um produtor da TV Cultura nos abordou, e nos pediu para fazermos um micro show relâmpago, pois eles temiam que o público se revoltasse com o cancelamento das filmagens do programa naquela noite, e iniciasse um quebra-quebra. 

De fato, haviam mais de 1000 pessoas dentro do Teatro do Sesc Pompeia naquela noite, e seria muito perigoso cancelar pura e simplesmente. 

Sobre o acontecimento, a explicação que nos deram foi a seguinte : Durante o soundcheck, no período da tarde, um músico de uma banda, "bateu boca" com um câmera man da TV. 

A discussão acalorou-se, e chegou às vias de fato. 

Em meio à pancadaria, alguém pegou um pedestal de microfone para utilizá-lo como arma, e o quebrou, causando a revolta dos responsáveis pelo PA., que também entraram na confusão. 

Mesmo com a turma do deixa disso separando os brigões, o clima azedou, naturalmente. 

Até aquele instante, os produtores do programa tentavam convencer os turrões a relevarem, e filmarem normalmente o programa. 

Contudo, os técnicos do P.A.se solidarizaram com os da TV, e todos se recusaram a trabalhar.
Com essa situação criada, os produtores do programa, e os responsáveis pelo Teatro do Sesc Pompeia, ficaram muito preocupados com o desfecho desse imbróglio, visto que faltava dar a notícia às mil pessoas que estavam nas dependências, a maioria jovens com a adrenalina a todo vapor. 

Então, em consideração aos produtores do programa que sempre foram muito bacanas conosco, topamos fazer uma apresentação de emergência.

Mas não seria nada fácil !! 

Sem o apoio do P.A, só teríamos o som dos amplificadores e sem meios de ter um som de bateria minimamente condizente com o espaço, e com a agravante de mil pessoas berrando. 

E mais um problema : o equipamento de palco também seria levado embora pela equipe técnica e sendo assim, antes que começassem a desligar, um produtor da TV ainda usou o microfone no PA e deu o recado à plateia que um show da Chave do Sol seria feito de emergência para entretê-los, e que precisaria de dois favores do público : 

1) Que esperassem mais uns minutos enquanto o equipamento da banda fosse buscado e;

2) Que entendessem que seria sem P.A., ou seja a banda tocaria em condições insalubres. 

Claro que a maioria não entendeu nada, mas pelo menos evitou-se uma tragédia que seria difícil de conter, inevitavelmente sendo encerrada com a tropa de choque da Polícia Militar descendo a borracha em vândalos ensandecidos. 

O Rubens e o Zé Luis foram voando ao nosso local de ensaio, e trouxeram nossos instrumentos e equipamento. 

Sem roadies, nós mesmo montamos tudo na frente do público sob gritos, porém positivos de incentivo, e os produtores da TV se entreolhavam aliviados, pois estavam temendo algo muito pior.
Claro, sem PA, ficamos com um alcance muito inadequado para aquela situação, e mesmo dando tudo de nós para entreter o público, tecnicamente falando, nosso som reduziu-se à um radinho de pilhas, e só podia ser ouvido timidamente, muito perto do palco. 

Não era um show propriamente dito, e nem nos preocupamos com qualquer possibilidade de agradar ou não o público naquelas condições. 

Víamos as pessoas indo embora sossegadamente e ao longo de uns 45 minutos, onde tocamos heroicamente sob condições sonoras terríveis, agradamos quem se dispôs a ficar bem perto do palco, e entender as limitações sonoras ali delineadas. 

E como era algo excepcional, tanto o pessoal da TV, quanto do SESC, permitiram que pessoas assistissem sob o palco, sentados à nossa volta. 

Foi um exercício hercúleo, mas fico contente em lembrar que ajudamos, numa hora muito periclitante para todos.


Continua...

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