sábado, 5 de abril de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 113 - Por Luiz Domingues


Chegamos à danceteria para o soundcheck, no horário combinado. 

Não me lembro se 3 ou 4 da tarde. O equipamento era peso pesado, um P.A. para shows em estádios de futebol. 

O galpão era imenso, e segundo os produtores que nos receberam, a expectativa era a de 4 mil pessoas para aquela noite.

O técnico de som era um sujeito conhecido no meio, apelidado de "Castor". Gente boa, nos deixou à vontade e equalizou um ótimo monitor de palco, ao qual não estávamos acostumados, diga-se de passagem.


Em conversa informal, nos contou que operara a Patrulha do Espaço em ocasiões passadas, quebrando o clima, e assim ganhando a nossa confiança.

Depois da passagem, desistimos de voltar para a casa e ficamos no próprio local. A espera seria enorme e entediante, mas voltar mais tarde seria arriscado, com um tumulto generalizado na porta, e dificuldades para estacionar carros.

A casa abriu no início da noite, e foi lotando numa velocidade incrível. 


A maioria era a juventude burguesa, mas via-se ali e aqui, figurinhas de tribos oitentistas. 

Entre tais tribos, predominavam os "New Wavers". 

Esses ao menos eram pacíficos, e sua postura social era a de se vestir com aquela estética e curtir seu som, sem incomodar ninguém, a despeito de outras tribos oitentistas, extremamente agressivas. 

Haviam muitas meninas entre eles, com aqueles cabelos pintados com cores cítricas, imitando as garotas do B52's, Cindy Lauper etc.

O que nos encheu o saco, foi o som mecânico muito alto saindo daquele P.A. pesado. Mesmo no camarim, era quase impossível conversar com aquela zoeira, e tocando todo o repertório pop oitentista possível e imaginário, portanto, o nosso saco foi à lua e voltou por muitas vezes, tamanha a quantidade de ar que os fez inflar...



Um pouco antes do nosso show iniciar-se, duas pessoas da produção da casa convidaram-nos a "turbinar a cabeça", debaixo do palco, sob a estrutura metálica de sustentação. Só o Zé Luis topou ir, e esse ato nos causaria uma dificuldade durante o show...

Começou o nosso show, e a pressão do som era muito forte. 


Víamos que o público reagia bem, aplaudindo e dançando, mas se fôssemos mais uma banda famosa do mainstream, estariam delirando, tenho certeza.

Não desagradamos, fomos aplaudidos, mas não houve um entusiasmo muito exaltado, digamos assim. 


Todavia, esperávamos até um clima meio hostil e no máximo, uma educada frieza, portanto, saímos contentes com os aplausos educados daquele público nada a ver conosco, ou vice-versa como queiram...

O problema do Zé Luis ter aceito o convite gentil que mencionei, foi que os andamentos das músicas foram à Marte, Plutão e Vênus...


Músicas normalmente rápidas e que exigiam atenção na execução de convenções mais técnicas, ficaram dificílimas de serem executadas, fora a dificuldade do Rubens para cantar, nessa circunstância super acelerada.

Claro, o público em sua maioria não percebeu esse desconforto e mesmo assim, driblamos a dificuldade e tocamos tudo, errando muito pouco, mesmo com esse beat absurdo. 


E convenhamos, o Zé Luis era (é) um demônio, e mesmo numa velocidade estonteante, fazia suas viradas mirabolantes, rindo, como se aquilo fosse fácil, e de certa forma, era mesmo...para ele !!

Claro, tirando "Luz", que por ser Rock'n Roll, passava fácil por plateias não acostumadas ao nosso som, e os covers de Rocks cinquentistas que executamos, nas outras músicas o ânimo do público baixou um pouco, o que era compreensível.

A Chave do Sol em julho de 1984, e essa sessão de fotos foi realizada na semana do show do Radar Tantã

Acabou o show, e no camarim recebemos pessoas. 

Para a nossa surpresa, haviam sim fãs da Chave do Sol no recinto, e fomos visitados por alguns.

Nessa noite, lembro-me que um de nossos amigos que nos auxiliaram como roadies, foi o Wagner "Sabbath", eterno postulante a vocalista da banda. 


Como era um cara alto e muito forte, pedi que me acompanhasse até à sala da diretoria da casa, onde o gerente faria o pagamento do cachet. 

Essa sala, ficava no lado oposto e para acessá-la, não havia outro caminho a não ser passar pelo meio do público. 

Temendo voltar com maços de dinheiro nos bolsos, sozinho numa multidão de 4000 pessoas (aliás, o borderaux oficial acusou 4500 !!), pedi ao Wagner "Sabbath" que fosse comigo, como "segurança" nessa missão temerosa.

Atravessamos a multidão e fomos bem recebidos pelo gerente, apesar do clima tenso, com seguranças mal encarados, mas era compreensível com o volume de dinheiro que estavam contando do movimento da bilheteria.


O sujeito pediu então para eu contar o valor. 

Eu pedi ao Wagner que me auxiliasse, e dividindo em dois montes iguais no "olhômetro", comecei a contar junto com ele.

Comecei a estranhar, contudo, quando eu estava quase chegando à quantia de 2 milhões de cruzeiros, e ainda havia muito dinheiro a ser contado. 


Teoricamente, se havia dividido o bolo de dinheiro, deveria ter parado na casa de 2 milhões mais ou menos, com o Wagner tendo de chegar nesse mesmo valor, com seu monte.

Mas eu continuei contando e para a minha surpresa, cheguei à casa dos 4 milhões de cruzeiros, enquanto o Wagner ainda finalizava o seu monte.

Quando ele terminou e me disse que estava certo, 4 milhões de cruzeiros também, eu entendi finalmente a questão.

O gerente perguntou-me se estava correta a quantia de ...8 milhões de cruzeiros !!!

Caramba !!! 


A moça havia nos dito que havia vendido o nosso show por 4 milhões, quando na verdade eram 8 milhões !! 

Seu azar foi ter ficado doente no dia e seu "contato" também ter furado nesse esquema, pois o gerente não sabia de nada, e nos pagou regiamente pelo cachet justo e combinado... 

Então, disse-lhe que sim, estava correto, e  assinei o recibo. 

Nos despedimos cordialmente e eu e o Wagner voltamos ao camarim, com receio, mas naquela euforia de som alto e iluminação, e levando-se em conta que dos 4500 presentes, 99% estavam muito loucos, bêbados ou ansiosos para arrumarem parceiros sexuais, ninguém notou que estávamos com os bolsos das calças com volumes indisfarçáveis de notas de dinheiro.

E tentei ser o mais discreto possível para transmitir a notícia ao Rubens e Zé Luis, pois o camarim ainda tinha a presença de estranhos etc.


Na casa do Rubens, em clima de euforia, guardamos nosso equipamento e instrumentos, e fizemos chuva de dinheiro, como se tivéssemos ganhado na loteria. Foi hilário...

Encerrando, na segunda-feira, depositamos os 20% combinados da comissão da moça, sobre os 4 milhões que nos dissera ser o cachet total, e nem um centavo a mais.

Naturalmente ela foi buscar a parte gorda que omitira e levou um baita susto. 


Bem, nunca mais ela nos abordou para propor nenhum outro show. 

Claro que ela tinha outros contatos, poderia vender outros etc etc. 

Contudo, persistir num tipo de relação dessas seria muito desagradável, certamente. 

Existe no mundo artístico inúmeras histórias desagradáveis com empresários exploradores. Mas esse chapéu que pretendia nos dar, extrapolava qualquer parâmetro.

Para nós, portanto, que estávamos radiantes por receber um cachet muito acima dos nossos padrões, constatar que era na verdade o dobro disso, foi uma surpresa enorme e esse dinheiro, serviu para investirmos em produção e divulgação dos shows que faríamos no Teatro Lira Paulistana, doravante, além de render uma divisão pessoal gorda, para cada um. 


Eu por exemplo, investi em roupas, melhorando o meu guarda-roupa cênico, o que é nítido pelas fotos e vídeos dessa época em diante.

Encerrando essa história, tudo isso ocorreu no dia 14 de julho de 1984, na danceteria "Radar Tantã", sob a visão de 4500 pessoas, que tocamos e voltamos para a casa de bolsos literalmente cheios.

E para a tal moça, como era a data de aniversário da queda da Bastilha, só posso dizer que a guilhotina lhe ceifou uma pequena fortuna, que achou que ganharia fácil em nossas costas...



Continua...

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