sexta-feira, 4 de abril de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 109 - Por Luiz Domingues

De fato, como espetáculo, um show improvisado e sem condições técnicas mínimas, não rendeu grandes frutos para nós, mas politicamente foi importante, pois ganhamos pontos com a produção do programa A Fábrica do Som. 

O nosso sacrifício em tentar entreter mil pessoas sem um P.A., serviu mesmo só para o público dispersar, sem causar tumulto nas dependências do Sesc Pompeia.

Já na semana seguinte, estávamos lá mais uma vez e nesta oportunidade, com uma grande novidade em mãos : finalmente o disco chegara da fábrica, e nós o lançaríamos na TV.

Desta vez, tínhamos muito o que comemorar, pois tínhamos em mãos finalmente, o nosso primeiro registro fonográfico oficial. 

Estava lançado o primeiro compacto, e a missão principal nessa aparição na TV, seria mesmo divulgá-lo e imbuídos dessa tarefa, fomos muito confiantes para a gravação da TV. 

Tocamos "Luz" e "Anjo Rebelde", música nova que estava ingressando no repertório da banda. 

https://www.youtube.com/watch?v=lYRnfhGGG6g
O link acima direciona para a performance de "Anjo Rebelde", nesse dia na Fábrica do Som.


"Anjo Rebelde" foi uma das primeiras músicas compostas numa nova fase da banda, onde passamos a ter a preocupação de imprimir mais peso, tentando trazer mais elementos de Hard-Rock, visando uma adequação ao mercado, que sinalizava (via "rede de boataria"), que as gravadoras abririam uma nova leva de contratações, abrindo um nicho de Hard-Rock e Heavy-Metal. 


A música foi composta por mim e Rubens, e a letra, foi uma oportunidade que aproveitamos, quando adaptamos um poema do Edgard Puccinelli Filho, vulgo "Pulgão". 

Então, não abandonando nossas características tradicionais de usarmos elementos do Jazz-Rock setentista, nosso arranjo privilegiava diversas convenções rítmicas ousadas. 

Na TV, contudo, traídos pela adrenalina toda da ocasião, iniciamos a música além do seu andamento normal, tornando-a mais difícil para execução. 

Ainda mais pelo fator ao vivo, com a banda esforçando-se para fazer um mise-en-scené agressivo.

Porém, nossa performance foi muito boa, conforme pode-se notar no vídeo. 

Eu tive a incumbência de falar sobre o compacto recém lançado, e aí, um fato curioso ocorreu. Aliás, dois... 

O primeiro, foi que assim que a música encerrou-se, eu estava muito ofegante pois exagerara na minha performance individual. 

Mesmo sendo um jovem de 24 anos de idade (incompletos naquela ocasião), fiquei esbaforido, e como tinha muitas coisas a dizer, fui perdendo a voz, e as últimas palavras que pronunciei, foram quase incompreensíveis, com a emissão falhando. 

 https://www.youtube.com/watch?v=G4d0AZu2VPg

O link acima direciona para o vídeo do You Tube, onde o voo do disco é mostrado. Um literal "lançamento de disco"...

Outro aspecto que hoje em dia considero absolutamente prosaico, se deu no recado em si. 

Querendo ser objetivo, expus, ainda que ingenuamente, a fragilidade empresarial da banda, pois insisti em dizer que o compacto só estaria à venda na loja Baratos Afins, de São Paulo. 

Fornecendo o seu endereço completo e conclamando fãs a adquiri-lo por esse endereço, via correio, decretei essa fragilidade. 

OK, faço essa "mea culpa", mas ao mesmo tempo, relevo, pois era uma outra época, e mesmo sendo uma manifestação ingênua, era a nossa realidade naquela ocasião, e tratava-se de uma informação vital para a banda, no sentido de que a distribuição era precária, portanto muito diferente de uma distribuição de gravadora multinacional.

Mas o mais inusitado aconteceu posteriormente... 

Enquanto eu falava, ouvia gritos da plateia, pedindo o disco que estava em minhas mãos. Quando eu estava quase concluindo o recado, lembro-me de dois rapazes mais ousados, que invadiram o palco, avançando sobre mim, para arrancá-lo de minha mão, quando num rompante, decidi jogá-lo à plateia do outro lado do teatro. 

Mas ele subiu e ganhou um efeito aerodinâmico insólito no ar, e tal qual um aviãozinho, planou... 

E nesse impulso inusitado, foi alojar-se numa fresta da estrutura metálica do teatro do Sesc Pompeia, muito próximo ao teto !!

Quando o disco fez esse voo e parou nesse lugar improvável, o público vibrou, pois realmente foi algo muito inesperado. 

Os dois garotos que quase arrancaram-no de minhas mãos, saíram resmungando, e numa fração de segundos cheguei a pensar no quanto o artista passa de uma situação de veneração à de repúdio, num piscar de olhos... 

Num impulso, ainda fui ao microfone e exclamei : -"Foi Deus que quis assim", referindo-me ao fato do compacto ter ficado quase no teto, portanto perdido. 

Começamos a tocar a próxima música e quando a encerramos, fui surpreendido, pois um sujeito abordou-me com o compacto na mão, pedindo-me um autógrafo. 

Fiquei estupefato e lhe perguntei onde arrumara-o, pois não havíamos levado mais cópias para sorteio ou ações desse tipo. 

Aí ele me deixou atônito, dizendo-me que escalara a estrutura do teatro, e o buscara naquele lugar inóspito !! 

Sua justificativa deixou clara a facilidade de sua façanha atlética : ele era do Corpo de Bombeiros...
O vídeo de nossa performance tocando "Luz", nesse dia

E assim foi a nossa última participação no programa "A Fábrica do Som". 

Infelizmente o programa saiu do ar pouco tempo depois, por uma mudança de mentalidade na cúpula da TV Cultura, e nunca mais houve outro programa tão democrático para exibir bandas novas de trabalho autoral, na TV, sem o famigerado jabá das cartas marcadas. 

Houve a tentativa de reviver a fórmula com o "Musikaos", na mesma TV Cultura, no início dos anos 2000, mas apesar de seguir mais ou menos a linha da velha Fábrica do Som, não tinha o mesmo élan e saiu do ar, rapidamente. 

A Chave do Sol deve à Fábrica do Som, o seu primeiro impulso de grande público. 

Mesmo sendo uma emissora estatal e educativa, a TV Cultura chegou a cravar 4 pontos de audiência nas tardes de sábado, fora a procura maciça de público para assistir as gravações ao vivo, no Teatro do Sesc Pompeia. 



Continua... 

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