sábado, 1 de março de 2014

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 13 - Por Luiz Domingues


O Beto ficou bravo uma vez, quando flagrou a balburdia, e proibiu as brincadeiras dentro da casa dele. 

Tinha razão, claro, pois poderia quebrar alguma coisa, apesar de estar nas "regras", os arremessos serem aceitos apenas sem violência...ha ha ha...

Independente disso, essa moda espalhou-se...
 

Lembro uma vez de um ensaio que realizamos para um show tributo ao UFO, onde metade da Chave se uniu à metade do Golpe de Estado ( Golpe do Sol ou Chave de Estado ?). 

Eu, Beto, Hélcio Aguirra e Paulo Zinner, participamos de um futebol de quintal no intervalo.

E lembro-me de uma vez a bola ter caído na casa do vizinho, e um garoto da família que ali morava, ter vindo nos devolvê-la. 

Quando chegou, o Paulo Zinner lhe perguntou : 

-"Garoto, você tem irmãs mais velhas ?" 

Caímos na risada, e o moleque que devia ter uns 10 anos ainda perguntou : 

-"Por que ?..." 

E o Zinner ainda teve a paciência de lhe responder : 

-"Peça para ela trazer a bola da próxima vez..."

Hilário !!
Voltando a falar dos alunos, os garotos curtiam as palhaçadas, mas o objetivo era mesmo aprender a tocar baixo, e todos tinham sua meta de tocar profissionalmente um dia, portanto, as brincadeiras eram secundárias mesmo, e não podia ser de outra forma.

Claro, e isso foi uma constante durante os 12 anos de aulas que ministrei.

Num universo de mais de 200 alunos que tive nesse período completo, são raros os exemplos de alunos que não estivessem ali movidos por esse sonho de se tornar músico profissional, ser artista, gravar e tocar ao vivo com uma banda etc.

Sempre achei que isso por si só fosse um estímulo, mas muitas vezes eu notava uma timidez muito acentuada por parte de alguns alunos, justamente por esse fator.

Porém, eu tratava logo de quebrar o gelo e deixar a garotada à vontade comigo, rompendo qualquer barreira que pudesse haver entre nós.

Bem, cada caso era um caso. 

Cada garoto tinha o seu jeito de ser e na média, eu quebrava o gelo puxando conversa, perguntando aspectos da vida do cara, do tipo : que som que gostava; artistas prediletos; onde morava, onde estudava etc.

Em geral, dava certo, pois o garoto ia se abrindo e ganhando a confiança, vendo que eu era um cara igual a ele, e não um ET...

Mas isso acabou dando várias brechas, pois muitas vezes, os alunos passavam a me enxergar como um psicólogo, porque queriam conselhos sobre coisas pessoais, e nada a ver com as aulas. 

Não foram poucas as vezes que me ligaram em altas horas da noite, ou em domingos, para verdadeiras catarses de divã psicanalítico...

Nesses anos todos de aulas, segurei muitas barras psicológicas dos garotos. 

Fui mesmo um psicólogo pratico, ajudando-os em conflitos familiares; escolares; com suas bandas, e até nas questões pessoais, como aconselhamentos sobre relacionamentos com namoradas etc.

Acho que era inevitável isso ocorrer, pois eles me viam como um irmão mais velho, ou até pai.

Realmente o meu temperamento sereno, fala mansa de padre e calma zen budista, era um convite para que os alunos fizessem as suas catarses, e me enxergassem como um psicólogo.

Na média, a faixa etária oscilava entre 12 e 25 anos. 

Mas cheguei a ter aluno criança, e também, adultos, casados e com filhos. 

Um deles, aliás, se tornou um grande amigo, o Edil Postol, que é cientista, e trabalhava à época no Instituto Ludwig de pesquisas cancerígenas com ligação com a USP, e o Hospital do Câncer.

E como sempre tive essa característica de ser um terapeuta em potencial, acabei auxiliando diversos garotos com seus problemas existenciais.

Com os adultos a conversa era outra, claro. 

Assuntos extra-musicais, como política, futebol e acontecimentos do cotidiano.

A metodologia didática não mudava. 

O que mudava era o enfoque. 

Com adultos, geralmente (há exceções...) não existe a necessidade de convencer o aluno de que o exercício proposto é necessário, por mais chato e doloroso que seja, principalmente no início do curso.

É o que sempre disse : o aspirante tem que ter coragem para romper a dificuldade inicial. 

Vencida essa barreira inicial que é essencialmente muscular, deslancha. Se desistir, nunca tocará com desenvoltura.

Particularmente, eu tinha preferência por alunos em nível zero de aprendizado, independente de sua idade cronológica.

Isso porque era muito mais fácil para mim, ensinar um aluno estaca zero, portanto sem vícios adquiridos.

Fora o meu prazer pessoal de ver um aluno que não sabia absolutamente nada, começar a melhorar, após poucas aulas...

Era portanto, muito mais chato para mim, corrigir vícios adquiridos por quem já tocava, pois precisava convencer o cara a tocar de outra forma, até ele se conscientizar de que seria mais produtivo, haviam crises, conflitos etc.

Com garotos estaca zero, eu os moldava desde os primeiros passos, e quando venciam a barreira inicial de dificuldade, deslanchavam.

Confesso que ficava muito mais gratificado em lapidar uma pedra bruta.


Continua...

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