quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 83 - Por Luiz Domingues

Uma dessas sessões de domingo foi filmada por uma equipe da TV Abril Cultural.  

A TV Abril (ligada ao grupo Abril Cultural, da família Civita), batalhava para conseguir uma concessão do governo, para abrir seu canal próprio, mas enquanto isso não acontecia, estabeleceu uma parceria com a TV Gazeta de São Paulo, e passou a ocupar um espaço de 4 horas diárias na sua grade desde o final de 1983. 

E sendo assim, oportunidades surgiram para o Língua de Trapo, uma banda oriunda de uma faculdade de jornalismo, e com simpatizantes na mídia. 

No caso dessa equipe de filmagem, o objetivo era um realizar um especial, intercalando cenas de show com entrevistas. 
Lembro-me dessa equipe filmar mais de um show, e realizar diversas entrevistas no camarim do Teatro Lira Paulistana. 

E mais ou menos nessa época, entre março e abril de 1984, esse especial do Língua foi exibido na TV Abril/Gazeta. 

Ainda falando de TV Abril, lembro-me que também nessa época fomos participar de um programa que utilizava os estúdios da TV Gazeta, na Av. Paulista.
Era uma espécie de programa de variedades, misturando cultura, política e atualidades sociais em geral. Era apresentado por um casal de jornalistas já famosos na época, Silvia Poppovic e Paulo Markun, que nos anos vindouros ficariam ainda mais famosos na TV.

Nesse dia específico, a ideia seria dublar a música "Romance em Angra", mas a produção insistiu,  e nós fomos preparados para tocar ao vivo, só que num formato acústico. 

Como se tratava de um bolero, lembro-me que ao invés de tocar baixo, fui convocado a tocar "clave", um exótico instrumento de percussão, praticamente só usado nesse tipo de música.
São dois objetos de madeira cilíndricos, que são executados na base do atrito entre um e outro, produzindo um som de timbre incrivelmente agudo. É bastante fácil o seu manuseio e para tal finalidade, basta o músico ter uma mínima noção rítmica, mesmo não sendo um percussionista, portanto instrumentista especialista.

E o desenho rítmico típico do bolero é bastante fácil de ser executado, portanto, fui confiante para o estúdio da TV Gazeta/Abril Cultural.

Uma particularidade exótica nos aguardava, contudo... 

Justamente naquela noite, duas personalidades midiáticas estavam no estúdio, prontas para serem entrevistadas, e foram convidadas a nos assistir. 

O governador de São Paulo, Franco Montoro, e o jogador do Corinthians/Seleção Brasileira, Sócrates. 

Foi hilário nos apresentarmos com ambos nos vendo e fazendo cara de "paisagem", pois sabiam que as câmeras os focalizavam o tempo todo à cata de expressões faciais. 

E como sempre acontecia com o Língua de Trapo, pelo fato de nem todo mundo ter o conhecimento de que o nosso trabalho era satírico, era óbvio que causava estranheza nessas circunstâncias.  

No caso específico dessa performance, será que o governador Franco Montoro, e o Dr. Sócrates se ligaram que aquele bolero cafonérrimo era uma gozação, ou acharam que nós éramos representantes da fina flor da cafonália ?? 


Continua...

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