segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 74 - Por Luiz Domingues

 

Nesse ínterim, a chuva foi diminuindo o seu ímpeto violento, e a boataria dava conta de que os shows recomeçariam. 

Foi quando a movimentação de técnicos alvoroçou-se, tentando diminuir o tempo perdido. 

A tempestade no entanto, já havia provocado um atraso de duas horas entre o nosso show, e o início do show do Raul Seixas. 


Então, um produtor do Raul nos abordou em nossa mesa, e perguntou se um de nossos guitarristas poderia fazer a gentileza de emprestar uma guitarra para ele, Raul. 

O fato é que ele tinha chegado ao local do show, sem guitarra e dessa forma, mesmo não sendo imprescindível para o show, visto existir um guitarrista na banda, ele insistia que queria iniciar o show tocando junto com a banda. 

Bem, o Sergio Gama, um de nossos guitarristas, animou-se de pronto. Seria uma honra ter a sua guitarra na mão do Raul, quiçá fotografado e filmado... 

O outro guitarrista, Lizoel Costa, aconselhou o Sergio a não fazer isso, pois poderia se arrepender. Não me lembro quem, mas outras pessoas também aconselharam-no a não emprestar. 

Era uma guitarra Giannini, tudo bem, mas mesmo não sendo uma Gibson, era temerário o empréstimo.
Então, o Sergio nem quis saber e emprestou sua SG vermelha. O produtor levou-a ao Raul e nós ficamos na coxia vendo a movimentação para o início do show dele. 

Mesmo com o palco cheio de vestígios da lamaceira e faltando vários spots de luz que foram perdidos, o show estava pronto para começar, e o público delirava com a perspectiva do Raul aparecer, esquecendo-se completamente que a lama os deixara em petição de miséria. 

Então, o Raul entrou no palco e dirigindo-se cambaleando ao microfone central com a Gianinni SG do Sergio Gama, pendurada no ombro, mal começou a tocar com a banda, e caiu de frente, espatifando-se com a guitarra no chão. 

Rapidamente, roadies entraram e o retiraram, levando-o à Bauru , num Pronto-Socorro.  O produtor que havia pedido a guitarra emprestada veio devolvê-la e pedindo mil desculpas, a entregou com um tremendo arranhão produzido pelo impacto no chão. 

Ficou aquele clima de "eu avisei", mas o Sergio, apesar de chateado, resignou-se com o prejuízo. 

Pois é...após duas horas de atraso, o Raul não cantou nem uma música, e estava encerrada a sua participação. 

Por sorte, ao anunciarem que ele fora levado ao hospital, não houve tumulto. O público estava resignado, mesmo porque, todo mundo viu a queda assustadora e ficou preocupado com ele. 

Mais um pequeno atraso e muito bate-boca nos bastidores por conta de cachet, Hermeto Paschoal enfim entrou e alegrou a noite com seu free-Jazz , cheio de experimentalismos e brasilidades.

A seguir, João Gilberto apaziguou todo o nervosismo anterior, com sua Bossa-Nova intimista e quase aos sussurros.

O céu abriu, e embora o público estivesse encharcado e enlameado, todo mundo curtiu, minimizando as agruras de um sábado tumultuado. 

E ainda tem mais um pouco de histórias sobre o Língua de Trapo em Águas Claras '1984...
 
Continua...  

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