quinta-feira, 9 de julho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 358 - Por Luiz Domingues


Um novo compromisso surgiria apenas em maio de 1987.

Um circo montado em plena avenida Ana Costa, na cidade de Santos, estava promovendo shows de Rock com constância e assim, o convite da parte de tais produtores, surgiu logo para nós.

Dividiríamos a noite com o Excalibur.

Chegamos na cidade praiana com tranquilidade e rapidamente nos locomovemos ao Circo Marinho.

O soundcheck foi um pouco tenso, pois o técnico local foi grosso conosco, alegando que estávamos postergando demais o trabalho, com exigências em demasiado. Mas na minha lembrança, estávamos apenas reivindicando uma monitoração melhor, portanto, não havia nada demais de nossa parte, e ele é que estressou-se à toa. 

O show foi apenas razoável, pois nossa preocupação no soundcheck procedia, e a busca por uma equalização mais caprichada tinha mesmo sua razão de ser, pois na hora do show, sofremos com monitores rachados, prejudicando a nossa performance.

Era o dia 17 de maio de 1987, e haviam cerca de 180 pessoas na plateia, mas achamos pouco, porque seguramente o espaço comportava no mínimo o triplo dessa capacidade.

O clima entre nós quatro estava pesado devido ao últimos meses, com tantos revés, mas não era de ruptura total naquele instante.

Ao que tudo indicava, a luta prosseguia e apesar das intempéries que vivíamos, não havia motivo para se preocupar, pensando no pior.

Mas não era bem assim que as coisas estavam se encaminhando e logo, começaríamos a enveredar para um caminho sem volta.

Com ensaios dispersos, e sem grandes perspectivas de momento, tivemos apenas convites para entrevistas, e algumas notas ainda estavam saindo na imprensa escrita. Programa de TV, só voltaríamos a fazer em setembro.

Então, entre junho e julho, só nos restava ensaiar. Em outras épocas, isso seria a mais absoluta rotina, com a banda se encontrando diariamente para ensaios rigorosos, das 15 às 22 h., mas agora, com o clima pesado, isso já não era uma certeza.

Portanto, com o Rubens cada vez mais contrariado; Zé Luiz com problemas pessoais, e eu começando a me preocupar com tais sinais de desunião, passamos por momentos difíceis.

Beto, por outro lado, não havia desistido da ideia de inventar um fato novo para dar novo alento à banda e nesses termos, sugeriu mais um guitarrista para conversarmos.

Já havíamos feito isso com Daril Parisi, e o Rubens não curtiu nem um pouco tal ideia. De fato, se a ideia era mexer na sonoridade da banda, o próprio Beto era guitarrista também, e principalmente após a entrada do ano de 1987, cada vez mais usava tal recurso nos shows. E desde o segundo semestre de 1986, havia se tornado o mais prolífico compositor da banda, justamente por ser guitarrista, também, e trazer muitas ideias de riffs para trabalharmos.

Visto por esse ângulo, um quinto membro, na figura de um novo guitarrista, realmente parecia uma má estratégia, pois o Rubens era o nosso guitarrista, e Beto poderia cumprir ao vivo um apoio com bases e eventuais solos. Dessa forma, talvez a presença de um tecladista fosse mais produtiva, musicalmente falando.

Mas eu entendo bem a real intenção do Beto. Ele queria mesmo, era dar uma sacudida na banda, mexendo com os brios e criando um fato novo que pudesse espantar o baixo astral dos últimos meses, com tantos dissabores que tivéramos.

Então, não era de fato uma necessidade musical, porque o quarteto se resolvia com desenvoltura e modéstia à parte, desde a fase de trio, nós tínhamos no fator técnico, nosso principal atributo.


Tal guitarrista que o Beto chamou, era Acácio Vaz, que eu não conhecia, mas já era um representante de uma típica vertente de final de década de oitenta dentro do Hard/Heavy-Metal, que era o do extremo virtuosismo, uma semente do que viria a ser em breve a corrente do "Heavy-Metal melódico", ou seja, uma mistura de Heavy-Metal com canto lírico/ópera, e com guitarristas ultra virtuoses, fazendo às vezes de violinistas "spalla".

Rubens não estava comparecendo aos ensaios com regularidade e numa tarde dessas, eu; Beto, e Zé Luis tocamos com Acácio, com o Beto testando-o para quem sabe, ser o quinto membro da banda, mas o Rubens sabendo depois disso, ficou muito contrariado, pois interpretou como um motim de nossa parte, testando um possível substituto para ele.

Mas isso não correspondia à verdade, de forma alguma !! 

Eu e Zé Luis jamais faríamos isso, de forma alguma, e nem era a intenção do Beto.

Tanto que Acácio na verdade, queria aproximar-se de nós com outra intenção pessoal. Ele tinha um trabalho de composição pronto para gravar, em dupla com um vocalista chamado Cyrilo. Era um som totalmente calcado nesse virtuosismo de viés "malmsteeniano".
A contracapa do LP do Clavion, banda de Acácio e Cyrilo, e com meu aluno, Jameson Trezena, assumindo o baixo por minha indicação 

Acácio queria recrutar uma cozinha para gravar, e tal oportunidade de nos conhecer, tinha de fato, essa intenção. De fato, ele convidou-nos a gravar o disco, na qualidade de convidados, mas o Zé Luis não aceitou de pronto. 

Eu relutei, pois não queria piorar ainda mais o clima interno na Chave, que já estava por demais pesado, mas só gravar o álbum dessa banda, como convidado, não seria uma coisa nociva assim. 

Em setembro, após várias tentativas do Acácio e de seu vocalista, Cyrilo, acabei fazendo um ensaio na casa dos irmãos Busic, com o Ivan participando também como convidado desse disco a ser gravado. 

Mas não logou êxito, pois percebi que por mais que dissessem que eu estava ali como convidado, a intenção real de ambos, era que eu entrasse nessa banda, percebendo o momento de turbulência da Chave, e pelo contrário, tudo o que eu queria, era salvar A Chave do Sol, portanto, desisti de ajudá-los a gravar o disco, e indiquei um aluno meu, que gravou o disco, e efetivou-se na banda, que chamava-se Clavion, e o meu aluno, era Jameson Trezena, um dos primeiros que tive, quando comecei a ministrar aulas de baixo, a partir de julho de 1987.

Acácio Vaz era (é) um guitarrista bastante técnico, condizente portanto, com a vertente que desejava professar em sua banda, além de ser um cara muito legal, sem dúvida.

Mas realmente não tinha nada a ver a cogitação do Beto em recrutá-lo como segundo guitarrista da banda, e pior que isso, tal insistência dele em buscar um novo membro, revelou-se uma estratégia ainda pior, se a intenção era a de "salvar" a nossa banda.

Isso porque o Rubens, que estava se afastando de nós, gradualmente, interpretou da pior maneira possível tal ensaio com Acácio, e o clima só foi azedando daí em diante.

Para piorar as coisas, o Zé Luis estava profundamente atormentado por um dilema pessoal, e por esses dias, revelou-nos que estava decidido a dar uma guinada radical em sua vida e tal escolha da parte dele, seria algo terrível para a Chave do Sol.

Dias muito mais difíceis viriam, a partir do final de julho de 1987.

E fatidicamente, o show que realizáramos em maio, na cidade de Santos, revelou-se o último da história da Chave do Sol, com sua formação clássica.

A banda tentaria sobreviver doravante, mas aos trancos e barrancos, e sofrendo muitas derrotas, sobretudo, no seu âmago.

Continua...

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