quarta-feira, 8 de julho de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 112 - Por Luiz Domingues


Acordamos com um quase susto. 

Recebemos a informação de que um roadie nosso, o nosso amigo Toni Rodrigues Peres (guitarrista do Essex, e irmão do meu aluno, Alexandre), tivera um problema ao tentar passear num teleférico que ali existia. De fato, era uma atração muito bonita para turistas, tratando-se de um passeio com uma vista fantástica das montanhas de Minas. Mas por azar, deu um problema na cadeira que ele usava, e por alguns minutos, uma tensão fora instaurada, porque a altura era muito grande.

São e salvo no chão, novamente, mas bastante assustado com o perigo que vivenciara, tal notícia nos deixou apreensivos.

Bem, com a calma restabelecida, tínhamos ainda muitas horas antes de irmos ao palco do festival para o soundcheck. Nesse ínterim, fomos, eu e Chris Skepis ao centro da cidade, e resolvemos tomar um suco, numa lanchonete.
Impressionante, estávamos em 1997, o festival já existia há anos e todo o sul de Minas é frequentado por freaks; hippies; rockers, e doidos em geral, desde o final dos anos sessenta, contudo, sofremos um bullying !!

Pessoas da lanchonete estavam nos olhando como se fôssemos alienígenas !! Quando saímos, e estávamos caminhando de volta ao hotel, um grupo de crianças veio andando atrás de nós e uma nos perguntou : -"por que tínhamos "cabelo de mulher"...?

Ha ha ha...O Chris adorou, me dizendo estar se sentindo em 1962, com esse tipo de questionamento social ocorrendo conosco em pleno 1997...

Achei muito estranho esse comportamento, por todos os motivos que já expus acima.

Enfim, fomos passar o som, e como era de se esperar, o soundcheck foi tenso e bastante superficial. Mas como o POC era uma banda tranquila e sem grandes exigências no seu imput list e rider técnico, tudo se encaixava rapidamente. Só tínhamos um vocalista e todo o instrumental se resolvia de forma muito simples.

O ponto negativo se deu com o contato agressivo e arrogante de uma banda do Rio, chamada "Os Theobaldos", que estava fazendo um pequeno barulho na mídia, seguindo o vácuo de bandas de trogloditas como Raimundos e Tihuana, por exemplo.

Sendo bastante arrogantes, pressionaram os organizadores para que a nossa passagem fosse encurtada, visto que queriam realizar a sua. Sua empáfia era absurda, e de certa forma coerente com a droga de música que faziam, com suas péssimas influências e intenções. Enfim, uma cambada de moleques de bermudas, sem educação e se achando o máximo, por terem uma musiquinha mequetrefe tocando no rádio.

Voltamos ao hotel e após o jantar, nos dirigimos ao local do show, onde já havia começado o evento. A banda que nos antecedia era o "Soul 4 Everybody", que surpreendeu-me positivamente. Era de fato, uma banda de soul music; com ótimas influências 60/70 dentro da Black Music; bons músicos e vocalistas, e bastante swing. Um verdadeiro oásis dentro de um festival, onde a maioria era indie, ou peso pesado das cavernas habitadas por seres cro-magnon, como a banda que citei acima.

Menção honrosa, gostei também do "The Charts", que nitidamente fazia um som de Bubblegum sixtie, na onda do Supergrass e outras bandas similares, e oriundas do "Britpop" noventista.

Chegou a nossa vez de tocar. Nosso show foi morno, devo dizer. Não empolgou, mas tampouco despertou contrariedades no público presente.

Tocamos o nosso set, sem sustos, e a receptividade do público não passou do "respeitoso". Se fosse para dar uma nota, seria um show nota 5...ou seja, muito pouco para uma banda com estrada e que recém havia lançado um novo CD, com repercussão em mídia mainstream etc.


Era o dia 26 de julho de 1997, e 2000 pessoas estavam nessa praça pública, aproximadamente.

Mais um sinal de que a sua vitalidade como banda nesse instante, era bem baixa... 

Voltando ao hotel, uma viagem instaurou-se coletivamente. Alta madrugada e com um frio de rachar, o Chris estava bem animado pela trip que experimentava e quis esquentar os pés numa lareira que o hotel possuía. Curtindo o calor nos pés, e sabe-se lá onde estava sua cabeça nessa viagem, só percebeu que corria perigo quando o porteiro do estabelecimento lhe contou que as respectivas solas de borracha de seus dois pés de tênis, haviam se descolado dos calçados, e estavam se colando uma na outra, o que era bizarro.

Foi quando o porteiro passou a contar histórias sobre discos voadores e alienígenas, um assunto bastante recorrente naquelas cidades do sul de Minas com tantas ocorrências nesse sentido ufológico, e também pela forte tradição de cultura hippie que existe por ali.

Minutos depois, no quarto, vendo desenhos animados sem som na TV, e naquele estado lisérgico, um estranho barulho começou a incomodar. Influenciados pelas histórias do porteiro, alguém aventou a possibilidade de haver um "chupa cabras" ali dentro, e isso gerou uma paranoia digna de filme de Cheech & Chong.

Foi quando o Chris abriu a janela para a rua e descobriu a origem do ruído seco e contínuo que julgáramos ser o de um alienígena...

Era um funcionário da prefeitura, um varredor de rua, varrendo a sarjeta usando uma exótica vassoura de piaçaba...

O que a lisergia é capaz de promover na mente humana...

A viagem de volta foi longa e cansativa. Saímos por volta das 15:00 h. da bela Caxambu, mas quando atingimos a via Dutra, estrada que liga São Paulo ao Rio, o tráfego era muito intenso naquele horário (17:00 h. aproximadamente), e isso nos retardou bastante.

Para piorar as coisas, o ônibus quebrou, retardando ainda mais nossa volta. O lado ameno disso, foi que muita gente estava viajando de ácido nesse ônibus e uma daquelas bandas que viajavam (nos dois sentidos...), conosco, levara um som portátil e que tocou no percurso inteiro uma coletânea contendo bandas obscuras dos anos sessenta, com trabalhos gravitando entre o Bubblegum; Garage Rock; Acid Rock, e Psychedelic ao extremo, portanto num dado instante, muita gente flutuava, literalmente dentro desse verdadeiro "magic carpet ride"em que se transformou o ônibus...

Chegamos extenuados em São Paulo, já passando das 21:00 h., e com a certeza de que se tocar no festival não mudaria nada na nossa carreira, ao menos tínhamos nos divertido bastante.

Mas como eu tinha 37 anos de idade recém completados naquele instante, minha tolerância com esse tipo de situação estava bem baixa.

Nessa altura do campeonato, fazer shows de "investimento de carreira", ainda que bem tratado, com direito à um bom hotel, comida farta de qualidade e tudo mais, não parecia-me condizente com minha idade, tempo de carreira, curriculum acumulado etc.

Portanto, isso só corroborava a minha visão de que o POC era para mim, um bagaço de laranja sem mais nenhuma gota a ser explorada, e falo isso com todo o respeito aos companheiros, e ao trabalho da banda, mas sendo apenas muito realista.

Nessa altura, já estava então, formatado o desejo de sair e formar uma nova banda, em busca de meu sonho primordial, sem concessões e radical em seus propósitos, pois isso refletia o meu saco cheio de lutar dentro das regras dos inimigos.

Se nem assim conseguia um espaço, mínimo que fosse, estava disposto a largar mão dessa busca frenética e despreocupado, fazer apenas o que gostava, sem me importar em ser anacrônico.

Faltava muito pouco para a minha história com o POC, encerrar-se...
Continua...

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