terça-feira, 7 de julho de 2015

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 83 - Por Luiz Domingues


O segundo semestre de 1997 chegou, portanto, com uma pequena reação no meu quadro de alunos, dando-me a falsa impressão de que as coisas voltariam à normalidade de outrora, mas olhando hoje em dia, está claro que tal movimentação não caracterizou isso, infelizmente.

E por não ter essa percepção clara na época, animei-me, logicamente, quando logo em agosto, no pós-férias escolares, notei a presença de três ou quatro novos alunos. Mas com o passar do tempo, ficou claro ter sido uma movimentação meramente efêmera.

Um fato curioso ocorreu logo nos primeiros dias de agosto, que reputo ser digno de nota. Estava dando aulas normalmente num dia útil qualquer quando a campainha tocou. O entra e sai da minha casa era constante, e dentro da normalidade, pois não se limitava à chegada e saída de alunos, mas com a presença de muitos agregados no sentido que minha sala de aulas era aglutinadora de amigos, e um "ponto", há anos.

Mas desta vez, não era nada disso. Quando abri a porta de minha residência, dei de cara com um casal de adolescentes, sendo o rapaz, bem mais novo que a moça. A garota, que apresentava 16 anos de idade, mais ou menos, perguntou-me se ali era o ensaio de uma banda, e em se confirmando, se poderiam entrar para assistir. 

Eram irmãos e haviam recém se mudado para um sobrado no mesmo quarteirão da minha rua, alguns metros acima, na numeração, mas abaixo no sentido que minha rua ficava numa ladeira íngreme.


Alegando gostarem de Rock e pelo fato do rapaz, que aparentava ter 12 anos de idade, tocar violão e estar muito interessado em desenvolver-se na guitarra, viram o movimento de cabeludos com instrumentos na minha porta, além do som das aulas, e estavam interessados em conhecer-me.

Bem, minhas aulas não eram sisudas, e pelo contrário, deixei claro nesta narrativa o quanto  havia um clima festivo em que as aulas transcorriam, normalmente, portanto, não vi problemas em que entrassem e não só assistissem, mas interagissem, doravante.

Logo me tornei amigo de ambos e também do pai deles, o "seu" Osvaldo, que era um entusiasta em ver o seu filho se desenvolver na música.

Eles tornaram-se "habitues" da minha sala de aulas e muitas vezes trouxeram também seus irmãos menores, trigêmeos (dois garotos e uma garota), que eram crianças e deviam ter 7 ou 8 anos de idade na época, mas não pareciam se interessar mais vividamente por música, pelo menos naquela época.
Marcello Schevano em foto de 1999, portanto, um pouco além desta parte da narrativa, em que cito fatos de agosto de 1997

Esse rapaz, prestava atenção nas aulas e notando o seu entusiasmo, pedi ao Marcello Schevano, que na época ainda não tocava comigo, mas numa questão de meses estaria envolvido no projeto Sidharta, para dar uns toques de guitarra para o rapaz. 

Em princípio, o Marcello se assustou com a ideia de dar aulas, mas não seria exatamente uma aula formal, mas umas dicas, dando uma força para o rapaz que não dispunha de recursos para estudar numa escola de música, ou ter aulas particulares naquele momento, mas tinha vontade e talento, pelo que pude observar.

O pai dele me agradeceu efusivamente e eu fiquei contente por dar uma pequena ajuda ao rapaz. E serviu também para o Marcello, como experiência legal, apesar dele nunca ter se interessado pelo nicho didático, doravante.

Esse rapaz acabou progredindo muito. Mesmo depois que eu encerrei minhas atividades como professor, acompanhei sua trajetória, com bastante alegria. 


Já adolescente, o Victor, seu nome, havia passado no exame de admissão da Escola Municipal de Música, e estava estudando viola, instrumento parecido e geralmente confundido com o violino, mas de outro alcance cromático. Para explicar rapidamente aos leigos, diria ser um violino menos agudo, fazendo parte dos instrumentos de corda de uma orquestra erudita tradicional. Ao lado do violino; cello, e contrabaixo.

O Victor foi crescendo no aprendizado do instrumento, e logo estava tocando na Orquestra Sinfônica Juvenil, ganhando bolsas para se aperfeiçoar com cursos no exterior, viajando, e se tornando um grande músico no mundo da música erudita.

Nada mau para aquele menino imberbe, tímido, e que se não fosse pela ousadia de sua irmã, Samantha, talvez não tivesse tido a coragem de tocar a campainha da minha casa, e começar a interagir com jovens bem mais maduros que ele, o que lhe deu impulso para mergulhar nos estudos de música.

Agora, o talento e o ouvido bom que tinha em 1997, quando o conheci, ele já tinha.

Perdi o contato com ele e a sua família, desde que mudei-me daquele bairro, em 2007. 

Só me lembro que a Samantha já tinha um filho, e uma das irmãs menores, gêmea de outros dois garotos, tinha se tornado jogadora de vôlei de um clube renomado desse circuito (Pinheiros ou Paulistano, não me lembro com exatidão).

Era muito bonita e estava altíssima, com porte de jogadora, mas certamente também preparada para ser modelo, graças ao porte e beleza.

Mais uma bela história protagonizada pelo convívio de minha sala de aulas. Torço para que o Victor tenha uma longa e vitoriosa carreira na música erudita.
Continua...

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