domingo, 19 de julho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 372 - Por Luiz Domingues


Nossa situação era dramática, por tudo o que já expus nos capítulos imediatamente anteriores, pois tínhamos uma urgência absurda em recolocar a banda nos trilhos.

Primeiro, para salvá-la da turbulência incômoda em que se encontrava nesse ano de 1987, como um todo, mas com agravantes a partir do segundo semestre.

Em segundo lugar, porque o clima interno entre os membros sobreviventes, estava péssimo.  

E em terceiro, porque a dívida que contraíramos para produzir o novo disco, era muito alta, e a única forma de sana-la, era vendendo discos, muitos...e para tal, a banda precisava voltar rápido aos trilhos, fazendo muita mídia e shows, sobretudo.  

Era certo que não poderíamos contar com Ivan Busic nesse esforço pós lançamento do disco. Ele deixara claro isso desde o início, quando aceitou gravar o nosso disco, pois estava envolvido com a criação de uma nova banda chamada "Slogan", com seu irmão, Andria, e outros componentes.

Então, para começar a organizar esse cenário caótico, era necessário que os três membros remanescentes, estivessem 100 % imbuídos da vontade de deixar para trás desavenças pessoais e voltar a ter união, internamente falando.

Mas Rubens e Beto não se entendiam mais, e as ações que o Beto tentou fazer para dar uma sacudida na banda, que parecia estar à deriva, foram pessimamente interpretadas pelo Rubens. E isso se transformou em mágoa; rancor; e ressentimento, com o qual não conseguiu mais se desvencilhar doravante, por muito tempo.  

Vendo o impasse hoje em dia, tenho certeza de que mais do que se aborrecer com as iniciativas do Beto, Rubens estava magoado comigo, interpretando o meu apoio ao Beto, como uma demonstração de traição de minha parte, como se eu desejasse que ele fosse eliminado da banda, para a entrada de um outro guitarrista.  

Não, absolutamente, não era isso o que eu desejava. Aliás, eu nem interpretava os fatos sob esse viés, jamais. Eu nunca achei que o Beto estivesse armando um motim para derrubar o Rubens de sua própria banda, e sabia que tais tentativas de talvez cogitar um quinto membro, tinham uma outra intenção.

E mesmo que houvesse essa intenção por parte do Beto, eu jamais apoiaria isso, pois era um absurdo pensar nessa hipótese.

Mas por outro lado, o Rubens sentindo-se magoado, foi se distanciando de nós, o que me magoou também, pois estávamos vivendo dias terríveis com as incertezas que rodeavam a nossa banda, e nesse momento agudo, perdemos o nosso companheiro querido, José Luiz Dinola, que era um remador exemplar. O mar estava super revolto como jamais esteve e nesse cenário, com um remador valoroso a menos, o mínimo que eu esperava é que os três remanescentes dessem um "gás" a mais, e remassem com ainda mais força, para suprir a ausência do Dinola.

Porém, e eu entendo que ele, Rubens, estivesse aborrecido, mas sua atitude foi diametralmente oposta, se afastando.  

Portanto, o frágil bote da Chave do Sol lutava contra o mar revolto, em meio à uma terrível tormenta, e só contava agora com dois remadores desesperados em não deixá-lo naufragar.

Tínhamos muita divulgação para fazer e shows marcados para janeiro de 1988, e tudo o que precisávamos era aproveitar tais chances para diminuir o efeito da tormenta, colocando a banda em evidência novamente e vendendo muitos discos, porque as dívidas eram enormes.

Mas, o pior aconteceu...

Numa reunião realizada na casa do Rubens, pouco antes do natal de 1987, tais insatisfações de lado a lado foram colocadas, mas infelizmente o clima acalorou-se e diante desse impasse de mal entendidos, e movido pela raiva momentânea em se sentir preterido em sua própria banda, Rubens declarou não querer mais prosseguir conosco, mas ao mesmo tempo proibiu-nos de continuar levando a banda adiante, usando o seu nome.

De fato, a concepção do nome da banda, era dele, e o registro oficial do INPI estava em seu nome. Pelo lado emocional, claro que ele era o criador do nome, mas pelo lado oficial, o registro em seu nome decorrera do simples fato de que não havendo pessoa jurídica constituída, somente uma pessoa física poderia assumir a propriedade da patente, e quando decidimos por ele, Rubens, assumir isso, foi de comum acordo entre eu e Zé Luis, cofundadores da banda, numa noite de 1982, no escritório de um despachante de marcas e patentes que contratáramos e ajudamos a pagar. Portanto, moralmente, éramos também "donos" da marca.

Tal situação nos desnorteou completamente...particularmente fiquei arrasado, pois toda essa indisposição estava não só acabando com a banda, mas minando minha amizade fraternal com o Rubens e de fato, depois dessa noite lastimável, ficamos anos sem nos falar, magoados um com o outro.

Eu demorei anos para entender o que realmente acontecera e sobretudo, porque havíamos chegado nesse ponto de nos desentendermos dessa forma.

Se fosse para romper, o ideal, teria sido encerrarmos as atividades da banda de comum acordo, de forma amigável e cada um partir para outros projetos, sem brigas, mágoas e ressentimentos.

Todavia, eu e Beto não podíamos nem pensar em encerrar por um motivo muito simples : se a banda acabasse ali, as vendas despencariam e o novo LP que mal saíra do forno, encalharia de uma forma absurda, inviabilizando completamente o pagamento das dívidas contraídas, e que eram muito pesadas.

Nesse contexto, tudo o que eu queria, era que o Rubens prosseguisse conosco e interiormente, eu tinha esperanças de demover o Dinola de sua decisão, pois nessa altura, já sabia que ele desistira do plano de estudar odontologia. O que eu queria mesmo, era reagrupar a banda, sacudir a poeira e dar a volta por cima, retomando a trajetória de sucesso que construíramos, desde 1982.

Portanto, não tivemos outra alternativa a não ser criar uma banda dissidente e que mesmo sendo outra banda, se alimentasse do legado da Chave do Sol, para não confundir a cabeça dos fãs, e dessa forma, continuar trabalhando ao máximo para estar de novo em evidência na mídia e vender discos, desesperadamente, para levantar fundos e pagar as dívidas.

Então, foi assim que o natal e o reveillon de 1987, se apresentaram para A Chave do Sol : com um sabor amargo de derrota na boca; amizades fraternais abaladas por ressentimentos mútuos por conta de mal entendidos, e o pior de tudo, um racha irreversível.

Ainda falarei de algumas ações de mídia que pertenciam ao espectro da Chave do Sol, e concluirei com capítulos de agradecimentos e análise geral da história da banda, mas a rigor, foi assim que a nossa querida banda desintegrou-se, infelizmente.

Para muita gente, a banda formada em janeiro de 1988 sob um novo nome, "A Chave", foi a continuação pura e simples da velha Chave do Sol, mas eu não considero assim.

Minha visão da história é outra, e nesses termos, considero tal banda como um outro trabalho, embora nos seus momentos iniciais, ela se justificasse para cumprir compromissos inadiáveis, que eram na verdade da agenda da Chave do Sol e que por sua vez, com seu final abrupto, tornaram-se impossíveis de serem cumpridos. Dessa forma, a nova banda criada, ocupou tal lacuna, emergencialmente.

Dessa maneira, abro um novo capítulo para contar a história dessa outra banda, separadamente, tratando-a como a um outro trabalho onde fiz parte.

Estou escrevendo este trecho em julho de 2015, portanto, com quase 28 anos de distanciamento histórico. 

Nove dias atrás (10 de julho de 2015), fui ao show de lançamento da nova banda do Rubens ( Gióia; Sucata & MusicMan), para prestigia-lo, e aos seus novos companheiros.

Como fiquei contente em vê-lo buscando um recomeço, e o clima de amizade entre nós restabelecido amplamente. Vi sua mãe; a irmã mais velha; seu filho e muitos sobrinhos seus que eu nem conhecia, e me senti imensamente feliz por estar junto à eles, como se estivéssemos naquela noite de 25 de setembro de 1982, vivenciando o primeiro show da Chave do Sol, no Café Teatro Deixa Falar...

Eu lastimo muito que o desânimo que nos acometeu em 1987, nos tenha minado completamente, aflorando uma série de mal entendidos que tornou a convivência, e sobretudo a continuidade do trabalho, impossível.

Esse começo do fim iniciou-se no limiar de 1987, ou até um pouco antes, no final de 1986, quando nos desapontamos com a inoperância do escritório Studio V. Concomitante à constatação de que não fariam nada conosco, conforme o prometido em termos de expansão, não só amargamos tal frustração, mas também perdemos tempo precioso em não capitalizar o "momentum" excepcional que vivíamos em 1986.

Quando nos demos conta, já havíamos perdido boa parte do embalo e pior que isso, o nosso emocional já era outro, bem debilitado. Claro que com tal fator emocional abalado, afloraram-se insatisfações pessoais, e isso também contribuiu para minar a banda internamente.

Com o embalo sendo perdido, vislumbramos saídas, mas como já relatei, ainda amargamos alguns "Nãos", e com requintes de crueldade por parte de gravadoras.  Isso foi a gota d'água para Zé Luis, que vivia pressão pessoal por conta de suas indefinições sobre o seu futuro pessoal.  

Sua saída da banda, alegando estar abandonando a música, foi um duro golpe.

Beto por sua vez sempre foi pragmático. Sua reação não era a de choramingar as perdas pelos cantos, mas sair à rua e tentar achar coelhos em cartolas. Mas tais ações de sua parte minaram o emocional do Rubens, que ficou muitíssimo contrariado, e se achando preterido dentro de sua própria banda.

A ideia de lançar um disco, seria a salvação, mas ao mesmo tempo, foi uma loucura completa, pelo fator da falta de apoio externo, mas também pelo clima pesado no interno da banda. Se os três remanescentes estivessem unidos e imbuídos da vontade de salvar a banda a todo custo, talvez fosse amortizada essa carga, mas com o Rubens ressentido e afastado de nós, a banda estava inteiramente sem forças.

Tínhamos os fãs e o respeito da mídia pelo trabalho construído, e nesses termos, apostamos todas as fichas numa rodada kamicaze de poker, com cartas fraquinhas em mãos...será que o nosso poder de blefar assustaria os adversários ? 

Mas no frigir dos ovos, com o Rubens interpretando tudo da pior forma possível, o racha definitivo foi inevitável.

Hoje em dia, eu considero a carreira da Chave do Sol, vitoriosa ao extremo. Conseguimos muitas coisas, e eu me orgulho muito de fazer parte dessa história.

Nunca chegamos ao mainstream, mas o legado artístico que deixamos foi imenso.

Influenciamos bandas que se seguiram; muitos músicos, e deixamos saudade entre os fãs.

O simples fato da banda ser muito citada até hoje em fóruns de discussão sobre o Rock brasileiro, e constantemente ser objeto de postagens e comentários acalorados e positivos em diversas redes sociais da Internet, prova o que estou afirmando, e não acho que estou exagerando, nem usando bravatas tolas e egóicas, ou tendo rompantes de soberba. Mas falo sobre fatos e me orgulho desse legado deixado.

Assim acabou oficialmente a Chave do Sol...

O próximo capítulo fala sobre a repercussão do LP The Key, inclusive avançando sobre o ano de 1988, quando A Chave do Sol simplesmente não existia mais. Depois, farei a última análise a seguir e também comentarei sobre as tentativas de volta que a banda teve ao longo dos anos posteriores.  

Continua...

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