segunda-feira, 20 de julho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 378 - Por Luiz Domingues


Agora, falo sobre dois ex-membros, que tiveram passagens mais longas pela banda, e deixaram um legado eternizado em discos.

Fran Alves

 

Quando perdemos o vocalista Chico Dias, de forma totalmente inesperada, nossa estratégia de nos prepararmos para uma possível nova onda estética que se aproximaria, e que possivelmente nos abriria portas no mundo mainstream das gravadoras majors, e da mídia, se viu muito ameaçada, e nós não poderíamos perder tempo, e marcar passo nesse sentido.

Foi quando soubemos que um vocalista de voz muito potente e interpretação dramática, estava prestes a ficar sem sua banda que anunciava término de suas atividades.  

Tratava-se de Fran Alves, um vocalista de timbre rouco, e uma emissão que era impressionante. Era o vocalista ideal num momento que achávamos que nossas chances residiam no peso do Hard / Heavy Metal oitentista. Não era a nossa predileção, longe disso, aliás, mas o peso que imprimimos nas novas músicas, tinha essa deliberada intenção de adequação à uma estética que supúnhamos ser a próxima a se aproximar da praia...mas ela não veio...

E quem pagou o pato dessa estratégia malograda, foi Fran Alves, lamentavelmente. Muito criticado pelos fãs antigos da nossa banda, que preferiam a sonoridade antiga de nosso trabalho, e também pela sua voz rouca e sua presença de palco que para muitos, parecia inadequada para a nossa banda, tais opiniões foram minando suas forças pessoais e infelizmente, ele chegou num ponto onde se viu acuado.

Sem saída, anunciou sua saída de nossa banda, para o nosso próprio bem e o dele, numa análise muito fria.  

Uma grande pena, pois o Fran era um cantor sensacional e sua entrega no palco era a de um grande artista focado no momento mágico que só os grandes conseguem absorver e expressar sobre a ribalta. Sua voz era impressionante e a rouquidão, totalmente natural no ato de cantar.

Como pessoa, era um sujeito sensível; calmo; sensato; ponderado, e muito humilde. Com um caráter excepcional, era um grande amigo, leal etc etc.

Por volta de 1988, soube que havia desistido da música e trabalhava como gerente de um famoso magazine da cidade.

No meio dos anos noventa, ele me ligou e veio visitar-me em minha residência, para formular uma proposta de nova banda que queria formar. Eu estava firme no Pitbulls on Crack na ocasião e mesmo que estivesse livre, declinaria do convite por uma única razão: tratava-se de Heavy-Metal o que queria fazer com essa banda, e tal gênero nunca foi do meu agrado.

Muitos anos se passaram e ele me ligou, mas desta feita para falar de uma banda de garotos que estava apadrinhando e dessa forma, ele cogitou que eu os indicasse para abrir shows da Patrulha do Espaço, banda onde eu estava nessa fase. Isso nunca ocorreu, mas chamou-me a atenção sua voz, que parecia cansada e ele realmente me disse que estava passando por problemas de saúde, fazendo tratamento etc.

No final de 2008, recebi com atraso a notícia de que ele havia falecido. Portanto, nem tive meios de prestigiar seu velório e enterro, para dar minhas condolências à esposa e seu casal de filhos.

Por volta de 2011, recebo solicitação de amizade de sua viúva na extinta Rede Social, Orkut, e conversando, ela me disse que conhecera um jovem fã da Chave do Sol que estava procurando os ex-membros da banda para nos pedir permissão para colocar no ar um Blog sobre A Chave do Sol.

Ora, claro que da minha parte esse pedido foi aceito de pronto, pelo motivo óbvio de que alguém nos ajudando nessa altura dos acontecimentos, e mesmo com a banda inativa, era super bem vindo.

E nesse embalo, fiz cópias de material fotográfico; peças de portfólio e vídeos com a participação do saudoso Fran Alves e entreguei à Sandra Alves, viúva de Fran, quando pude finalmente conhecer seus filhos que já eram adolescentes e ambos muito parecidos com ele, sendo o menino, quase um sósia de seu pai.

Fran Alves vive !!

Está representado no legado que deixou no disco que gravou conosco e através de seus filhos.

Deixo aqui meu agradecimento por sua participação; contribuição e amizade no convívio de pouco mais de dez meses em que foi componente oficial da Chave do Sol.

Fico com a lembrança de um grande artista, e um amigo dos mais bacanas que fiz na minha vida.
Um minuto além, e nos encontramos de novo em algum lugar onde houver uma aurora boreal !!




Beto Cruz



Quando perdemos o vocalista Fran Alves, na verdade já estávamos planejando mudanças estruturais na estética e sonoridade da banda.

E nesse contexto de uma nova guinada que queríamos dar, surgiu o Beto Cruz, que era o cara certo, na hora certa. 

Beto tinha a mesma vontade de buscar uma maior aproximação da banda com os padrões vigentes do mundo mainstream, e nesse sentido, nos auxiliou demais nessa empreitada.

Pelo fato de tocar guitarra, tinha facilidade para compor e sua participação tornou-se portanto, decisiva nessa tarefa de renovar o repertório da banda, quase que inteiramente, e dentro desses novos parâmetros que buscávamos.

Sua entrada na banda foi outra ideia do Rubens, e o leitor mais atento, já deve ter percebido que o Rubens quase sempre foi o responsável por indicar e abordar diretamente um candidato à vaga, com exceção do Fran Alves que ocorreu de uma forma diferente.

Por isso, novamente foi o Rubens, o responsável pela entrada de mais um vocalista.

Sobre o Beto, quando entrou, sabíamos que ele tinha tido uma experiência anterior com uma boa banda chamada "Zenith", e antes, ainda nos anos setenta, tinha tocado no "Zona Franca", com seu irmão, Claudio Cruz no baixo, e Charles Gavin, na bateria.  

Pairavam boatos sobre ele no métier, como por exemplo o de que costumava andar de carro conversível e com uma guitarra Gibson Les Paul no banco do passageiro, como forma de ostentação rocker.

Quando entrou na banda, ele desmentiu a lenda, dizendo que sim, tivera uma Puma conversível, mas jamais andaria com uma guitarra cara dessas, exposta nessas condições...

Sua voz era potente, e de timbre límpido, bem diferente da rouquidão dramática do Fran Alves.

Sua postura de palco, muito boa, se movimentando bem, e sua comunicação com o público era muito boa.

Tinha ótima aparência, e isso ajudou a capitalizar a presença maciça do público feminino, mesmo que a posição de "galã oficial" da banda sempre fosse do Rubens, desde o início das nossas atividades.

Aos poucos, foi tocando guitarra nos shows, também, e claro que isso encorpava o som da banda. Ele tocava bem, sem virtuosismos, mas tal predisposição foi comedida, pois a ideia era permanecermos como um quarteto onde o vocalista só cantasse.

Beto tinha um carisma, certamente e na minha análise, creio que de todas as fases que a banda teve em sua trajetória, duas se destacam com maior protuberância no imaginário dos fãs : a fase do trio, investindo bastante no Jazz-Rock setentista; e a fase Hard-Rock, com o Beto no vocal. Por isso, acho que o Beto tem grande mérito em sua participação na banda.

Como pessoa, era (é) um cara extremamente brincalhão, sempre pronto a ajudar e com muita iniciativa.

Sou-lhe muito grato pela força de trabalho que trouxe para a banda, em vários aspectos, e na fase mais aguda da crise que entramos no segundo semestre de 1987, ele foi um guerreiro, literalmente, pois saiu correndo na nossa frente com um facão a cortar a mata selvagem que nos envolvia e abrindo clarões na floresta, para nos salvarmos.  

Jamais me esquecerei disso e tenho que enaltecer sua garra nesse sentido, pois se existe o LP The Key, creio que pelo menos 95 % por cento dessa concretização, veio da parte de seus esforços para tal.

Também foi fundamental quando a banda rachou definitivamente e em questão de dias, armou um novo cenário para que uma nova banda dissidente fosse formada às pressas, para suprir necessidades e compromissos da velha Chave do Sol, que eram inadiáveis.

Foi um grande companheiro, amigo leal e incansável batalhador.

Sobre a dissidência da Chave do Sol, falo com detalhes nos seus capítulos exclusivos.

Após minha saída dessa banda dissidente, em meados de 1989, ele a reformulou completamente mais uma vez, e a liderou por mais algum tempo, até fechar as portas definitivamente, no início de 1991.

A seguir, mudou-se para os Estados Unidos, onde estabeleceu-se para sempre, abrindo um negócio e constituindo família.

Mora atualmente em Fort Lauderdale, perto de Miami, no estado da Florida.

Mas não largou a música, pois já se envolveu com bandas americanas, e cerca de três anos atrás lançou música na internet, tocando guitarra e cantando.

A canção "Winds of Change", que ele lançou nos Estados Unidos, com link abaixo para escutar no portal bandcamp :


http://merkana.bandcamp.com/track/winds-of-change

Nos conectamos nas redes sociais desde o saudoso Orkut, e nos falamos com regularidade no Facebook, hoje em dia (2015).

"O Sol só brilha para quem luta até o final" é um pedaço de letra que ele escreveu e lhe cai bem, com seu espírito guerreiro para enfrentar os obstáculos da vida.

Continua...

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