quinta-feira, 9 de julho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 361 - Por Luiz Domingues


Então, o Beto antecipou-se, e não esperando a crise nos corroer em lamúrias, saiu à rua e achou um coelho na cartola.

Falando com o dono do estúdio Guidon, onde várias bandas independentes haviam gravado (e nesse rol, se destaca o primeiro disco da Patrulha do Espaço, sem a presença de Arnaldo Baptista, em 1980), conseguiu combinar um pacote de horas num preço bastante razoável, e com possibilidade de parcelamento.

Ok, parecia ser uma ótima oportunidade, mas como entrar no estúdio sem o Zé Luis, e também sem dinheiro ?

E depois, mesmo se entrássemos no estúdio e gravássemos um novo álbum, como pagaríamos despesas como a gráfica; a prensagem dos discos; despesas burocráticas; sessão de fotos, e outras ?

E a distribuição e divulgação ? Como colocar os discos nas lojas e como divulgá-lo de forma conveniente ?
 

Sem o apoio de uma gravadora, mesmo de pequeno porte, caso da Baratos Afins que nos apoiou parcialmente no primeiro disco e integralmente no segundo, seria extremamente difícil pensarmos em desatar tantos nós burocráticos e inerentes para termos essa total independência no gerenciamento e o pior, sem verba alguma e vivendo crise interna com perda de um braço direito, que era o Zé Luis, nossa situação era dramática nesse sentido.

Claro que procuramos o Calanca, mas ele não se mostrou interessado. E tinha seus motivos, pois ficara chateado quando nem havia lançado direito o EP de 1985, e nós anunciamos uma mudança radical na banda, com a perda do vocalista Fran Alves, e indo além, mudança no repertório da banda, praticamente suprimindo as músicas de um disco recém lançado.

Sei que justifiquei isso amplamente em capítulos anteriores, mas na visão dele, havia motivo para chatear-se, eu admito.

Sem esse apoio, buscamos outro caminho, e por indicação de nosso ex-funcionário do fã clube e roadie da banda, Eduardo Russomano, além da dica e intervenção de um renomado lojista e concorrente do próprio Calanca, chamado Walcir Chalas (dono da loja Woodstock, muito famosa principalmente entre adeptos do Heavy-Metal e seus derivados), uma luz surgiu. 

Segundo Russomano e Walcyr, nós deveríamos pedir apoio ao pessoal da revista Rock Brigade, que estava com um selo oficialmente aberto, e poderia se interessar em lançar o nosso novo álbum.
Antonio D. Pirani e Eduardo de Souza Bonadia, diretores da Rock Brigade na ocasião

Fomos conversar e apesar de seu diretor (Antonio D. Pirani), ser um rapaz extremamente educado e ponderado, não tínhamos muita afinidade com aquela revista e seu staff. Não por haver alguma animosidade, mas simplesmente por não sermos daquele mundo.

Tanto que sentimos uma certa mágoa da parte deles, por nunca os termos procurado, em toda a existência da banda, e por conta dessa aproximação tardia, no limiar de 1987, só aí a revista publicar algo a nosso respeito, depois desse contato.

Analisando friamente, de nossa parte, havia uma tendência nossa em não procurar ninguém, e tudo o que tínhamos conquistado na mídia, havia sido pela via natural dos órgãos de imprensa nos procurando como artistas emergentes e não o contrário. Confesso que visitei muitas redações de jornais e revistas, e até presenteando jornalistas com souvenirs, mas depois de termos sido publicados em suas páginas.

Mas também entendendo o ponto de vista deles, a dinâmica que esperavam, na via inversa, tinha a ver com suas origens como um fanzine. Portanto, dentro dessa prerrogativa, mesmo quando cresceram e se tornaram uma equipe profissional a gerir uma publicação oficial vendida em bancas, mantiveram essa maneira de agir, ou seja, esperando serem abordados por artistas, não importando se já estavam no circuito e com notoriedade.

Desfeito esse mal estar, iniciamos uma relação de amizade, e de fato me afeiçoei pessoalmente ao Toninho Pirani, que reputo ser um gentleman que admiro e tenho bom relacionamento até hoje, e também ao Eduardo Bonadia, que é gente boa ao extremo, mas nunca nos sentimos inteiramente integrados ao "universo Rock Brigade", e por um motivo muito simples : tratava-se de uma egrégora fechada no Heavy-Metal, apesar da revista se declarar aberta ao Rock clássico também.

Na prática, o Rock tinha ínfima parcela nessa publicação, e o gênero Heavy-Metal dominava 90 % ou mais de suas páginas, e as bolas da vez naquele momento para eles eram : Viper e Sepultura.

Além da extrema simpatia do Toninho Pirani, e também de Eduardo de Souza Bonadia, outro dirigente da revista, e que apesar de ser um entusiasta do Heavy-Metal, gostava e respeitava muito a nossa banda, tínhamos mais um apoio de peso dentro daquela redação, que era o nosso roadie, e ex-funcionário do fã-clube, Eduardo Russomano. 

Com Russomano trabalhando ali, e ele era muito querido por todos, claro que um apoio à Chave do Sol foi mais fácil de ser alinhavado.

Interesse em bancar nossa gravação eles não tinham porque seu foco naquele momento era o Viper, aliás uma banda de amigos nossos de longa data.

Com o Sepultura, não havia vínculo profissional algum, mas como a banda dos irmãos Cavalera estava estourando naquele justo instante, a Rock Brigade "grudou" literalmente neles, e praticamente em todas as suas edições doravante, se não estavam na capa anunciados como matéria principal, ao menos alguma nota ou resenha de show não faltava.

Então, num dia de setembro, o Toninho fechou com a Chave do Sol um acordo de cooperação, e mediante uma cota de álbuns a serem cedidas ao selo, nos cederiam o seu selo para cuidar da parte burocrática, mas nada mais. Não era uma grande oferta, mas era melhor que nada, portanto, fechamos.

Tudo correria por nossa conta, e a única atribuição da Rock Brigade, seria a parte burocrática do disco.

Sobre a capa, Beto tinha guardado uma prova que nos fora sugerida por um artista gráfico, numa intervenção do Studio V, ainda no final de 1986.

Fora uma sugestão do marqueteiro Arnaldo Trindade, que indicara um amigo seu, que fez tal raf, já com arranjo de lay-out.  Mas como dera tudo errado posteriormente no Studio V, tal arte ficara engavetada.

Mas Beto lembrou-se disso e havia guardado o cartão do rapaz que tinha um atelier na Rua Augusta. Sem perder tempo, ligou e constatou que o rapaz ainda tinha guardado o raf, e aceitava preparar a arte-final por um preço que não era exatamente barato, mas que também não era nenhuma exorbitância.

Portanto, tínhamos um estúdio em vista; um selo pronto a assumir a papelada burocrática, e uma possível arte final de capa em mãos. 

Vamos gravar um novo disco, então ?

Bem, não tínhamos mais o nosso baterista...

Mais uma vez o Beto agiu rápido, e veio com a notícia : -"vamos escolher um repertório base para gravar e começar a ensaiar imediatamente" !

Ivan Busic (ex-Platina), aceitara gravar o disco como convidado...


Continua...

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