sábado, 18 de julho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 364 - Por Luiz Domingues


Os primeiros ensaios com Ivan Busic foram tranquilos.

Um músico de alto nível técnico, grande criatividade e uma excelente pessoa, claro que com sua simpatia e espírito brincalhão, o convívio foi fácil ao extremo, e indo além, ajudou a minimizar o astral baixo com o qual estávamos lidando na ocasião.

Lembro-me de ir à residência dos irmãos Busic, onde de lá íamos eu e Ivan em seu carro, para o ensaio na casa do Beto, numa rotina que perdurou por alguns dias.

Não foram muitos ensaios, porque o repertório do disco era pequeno, com apenas oito canções, e um músico do gabarito do Ivan, as tirou com extrema facilidade e mesmo sendo respeitoso ao não mudar radicalmente os arranjos originais criados pelo Zé Luis, claro que colocou um pouco de sua criatividade em algumas sutilezas.

O Beto insistiu em colocar três músicas novas que não estavam originalmente no set list dos últimos shows, em detrimento de muitas que faziam sucesso ao vivo.

A ausência de uma música como "O que Será de Todas as Crianças (?)", que era super querida nos shows, desde 1986, acabou ocorrendo para dar espaço a tais músicas novas que foram propostas.

A explicação para tais escolhas, era o fato de que havíamos fechado com a ideia de que seria bom termos músicas em inglês, também, tornando o disco híbrido.

Tal decisão foi tomada por termos ouvido a opinião de muitas pessoas que nos convenceram de que o momento era propício para tentarmos uma expansão internacional e nesses termos, era condição sine qua non que houvesse material em inglês.

E acrescento que as três novas canções eram boas, e poderiam de fato serem incorporadas no disco, mantendo um padrão de qualidade e aposta no potencial pop, também.

Tratavam-se de "A Woman Like You"; "Sweet Caroline" e "Change my Evil Ways".

As duas primeiras que citei, eram composições muito frescas, compostas naquelas últimas semanas em meio à crise da banda, e o Zé Luis ainda as tocou em seus últimos ensaios conosco, contudo, mal deu tempo dele estabelecer seu arranjo pessoal. Portanto, quem acabou dando linhas gerais e definitivas ao desenho rítmico delas, acabou sendo o Ivan, mesmo.

Sobre "Change my Evil Ways", tratava-se de uma música engavetada do Beto, fruto de sua passagem pela banda de Hard-Rock interiorana, Zenith. Ele teve a ideia de resgata-la e de fato era uma boa canção com certos ecos "zeppelinianos", e dessa maneira, ter algo com possibilidades setentistas no repertório chegava a ser um alento.

Mas a inclusão dessas músicas novas, referindo-me a "A Woman Like You" e "Sweet Caroline", trouxe também divergências. O Rubens que nos últimos meses estava bastante contrariado com muitas coisas, simplesmente não quis saber dessas canções, mas adotou posição de neutralidade desinteressada, ou seja, não se opôs à suas inclusões no álbum em detrimento de outras músicas que deveriam ter entrado naturalmente, caso de "Saudade" que tocávamos desde 1986 nos shows, à exaustão.

Tal posição de sua parte denotava seu esgotamento emocional com a banda e isso me entristecia muito, é claro. Claro que chateei-me bastante à época com essa posição dele, mas hoje, eu entendo que suas forças haviam esgotado-se. 

Nesses termos, ele deixou claro que não tocaria nessas duas canções novas e que a responsabilidade de suprir base e solos de guitarra, ficaria a cargo exclusivamente do Beto.

Tudo bem, o Beto não era nenhum virtuose, mas poderia e de fato o fez, gravar sozinho, fazendo harmonia e solos para ambas. Nesse sentido, o Beto era mais ou menos como Sammy Hagar no Montrose, e mesmo no Van Halen, tocando esporadicamente e cumprindo bem a função.

As outras canções escolhidas eram aí sim, conhecidas do público que nos acompanhava, por estarem sendo tocadas nos shows, com regularidade.

Era o caso de : "Profecia"; "Sun City"; "Lírio de um Pantanal", e "A Chave é o Show". Já no caso de "Keep me Warm Toninght", esta também era velha conhecida do nosso público, mas repaginada, ganhara letra em inglês doravante, pois anteriormente era conhecida como "Que Falta me faz, Baby".

Sobre "A Chave é o Show", cabe destacar que a letra de tal canção, falava sobre a própria banda e a emoção que sua música e performance ao vivo, causava aos seus fãs. 

Achava e ainda acho uma bela sacada do Beto, e na época, tal canção causava uma comoção à parte nos shows. Mas também tinha o seu lado duvidoso, pois estava sujeita a ficar "datada", tal como "Sun City". 

E não deu outra...ao olharmos os comentários de jovens hoje em dia (2015), na postagem de uma versão ao vivo dessa canção no You Tube, muitos ironizam e debocham da letra, pelo fato da banda não ter alcançado o mainstream e dessa forma, nas suas cabeças feitas por paradigmas imediatistas, a letra soa ridícula, pelo fato da banda não ter o sucesso que justificasse tal autoelogio. 

Voltando ao repertório, era um boa compilação a retratar de forma sucinta a mudança de direcionamento no trabalho após o EP de 1985. Mas com a ressalva de que outras canções que tínhamos à disposição, poderiam tranquilamente ter feito parte do álbum, e em alguns casos, como já citei, acho que deveriam ter feito mesmo, pois eram queridas do público, ao vivo.

Poucos ensaios portanto, e estávamos prontos para entrar no estúdio.

Mas antes, um novo compromisso de TV se apresentou para nós, e não tínhamos condições de recusá-lo, apesar do clima pesado que a banda vivia internamente.

Falamos então com o Ivan Busic, e ele aceitou a ideia de tocar ao vivo no tal programa, e assim confirmamos presença.

Tratava-se de um programa novo da TV Cultura, que era apresentado pelo Kid Vinil, chamado "Boca Livre". Era filmado nas dependências do Teatro Franco Zampari, um teatro de propriedade da própria Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, e onde há décadas são produzidos programas dessa emissora.

Fomos tranquilos, pois sabíamos que o Ivan, apesar de poucos ensaios, tinha uma competência absurda, e não havia motivo para preocupações, naturalmente.

Bem recebidos pelo Kid Vinil, que apesar de ser um entusiasta do Punk/ Pós-Punk, assumido, nem de longe tinha o comportamento detestável da maioria esmagadora de seus pares no jornalismo da época, portanto, o fato de não curtir a nossa estética com nítidos signos de estéticas retrô e portanto antagônicas ao que essa gente professava, nos tratou muitíssimo bem ao vivo, diante das câmeras e também nos bastidores. 

Eu e Beto já o conhecíamos na verdade. Certa vez fomos os dois à casa do guitarrista André Christovam, e ele, Kid Vinil estava lá, pois tocavam juntos. Aliás, fomos convidados e fomos assistir um show deles no auditório do Masp, como "Kid Vinil & Os Heróis do Brasil" num outro dia. Nessa tarde de um domingo de 1986, passamos momentos agradáveis ouvindo discos, e tenho na lembrança ouvir o Kid Vinil tecendo elogios sobre o LP Physical Graffiti do Led Zeppelin, causando-me a boa impressão de que ele era um jornalista diferenciado nesse sentido, pois se assumidamente gostava da turma de 1977, não assumia o detestável comprometimento de adotar o niilismo em forma de ódio ao passado, como modus operandi em suas funções como comunicador. Talvez se todos os seus pares agissem assim, o estrago punk não teria sido tão grande. 

Voltando ao palco do teatro Franco Zampari, tocamos ao vivo, embora fosse um programa gravado para ser exibido depois, ou seja, nos moldes da antiga "A Fábrica do Som".

Havia um bom público presente, e mesmo não sendo exatamente um público rocker, portanto acostumado a tais sonoridades, foi respeitoso. 

Nossa performance foi tecnicamente boa, mas dava para ver nos semblantes dos três sobreviventes da banda, que o clima estava pesado para nós e entre nós. Apenas Ivan Busic que não tinha nada a ver com tais desavenças, estava imune e tranquilo nesse sentido.

Tocamos "Sun City" e "Que Falta me faz, Baby", que ainda não havia sido repaginada para o idioma inglês. Mas somente a segunda tem cópia postada no You Tube.

O link para assistir tal performance da banda nesse referido programa de TV :


https://www.youtube.com/watch?v=QcVOUJKxNJE


O solo vocal que era típico da música e evocava ídolos do Beto como Robert Plant; David Coverdale e Glenn Hughes, sobretudo, causou uma estranheza normal para um público popular e não familiarizado com signos do Rock e do Blues, nesse caso em específico, mas não chegou a ser constrangedor como se é de esperar numa circunstância adversa dessas.

Foi o nosso último programa de TV em 1987, e também o derradeiro como A Chave do Sol, encerrando o nosso ciclo de aparições na TV.

Mas claro que não dimensionamos isso à época. 

Continua...

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