quarta-feira, 8 de julho de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 107 - Por Luiz Domingues

Estávamos desde o segundo semestre de 1994, ensaiando num estúdio no bairro do Ipiranga, zona sudeste de São Paulo. Chamava-se "Spectrum" e lá, no ano de 1996, acabamos gravando o CD "Lift Off", conforme já relatei amplamente. Éramos bem tratados pelos donos e pelos funcionários, e estávamos habituados ao seu funcionamento etc etc. Mas eles tinham um problema estrutural em relação à estacionamento para clientes. Apesar de ser instalado num antigo casarão residencial bem amplo, não dava para garantir o abrigo para 15 a 20 carros de clientes que ali frequentavam-no todas as noites...

Eles tinham quatro salas de ensaios e, na parte de cima, funcionava o estúdio de gravação, ou seja, ficava um trânsito de 25 a 30 pessoas, fora os funcionários do estúdio, e possíveis convidados das bandas. A solução encontrada foi alugar o espaço de uma empresa que ficava no outro lado da avenida, e que só funcionava até as 18 horas, portanto liberava para os clientes do Spectrum, no período noturno. Acostumamo-nos com a rotina de entrar pela Av. do Estado, dar a volta no quarteirão e pegar a pista da Av. Dom Pedro I, sentido centro, para poder estacionar naquele local alternativo e depois atravessar a perigosa avenida para acessar o Spectrum, por etapas, pois são quatro pistas, separadas por ilhas com árvores grandes.
Um visão noturna da avenida Dom Pedro I, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, com suas quatro pistas separadas por ilhas arborizadas

Foi assim por bastante tempo e nunca sentimo-nos inseguros, pois mesmo tendo que atravessar a avenida por etapas e carregando instrumentos, havia um segurança armado do estacionamento alternativo, que dava um suporte etc. Mas não contávamos com um evento digno de seriados policiais americanos, justo no ensaio prévio que antecederia o show de Sorocaba...
Chris Skepis e Juan Pastor, conversando com o simpático Ítalo, um dos proprietários do Spectrum.

Era uma quarta-feira normal, chegamos para ensaiar as dez da noite, com encerramento previsto para a meia-noite, como de costume. O estúdio estava lotado e tudo correu normal, como de praxe. Na saída, o clima era ameno, estávamos tranquilos e outras bandas também estavam indo embora, simultaneamente. Eram cerca de 20 músicos saindo juntos com instrumentos na mão, e todos tendo que atravessar a avenida, e caminhar em direção aos vários carros que ali aguardavam-nos. Eu não notei (e acho que ninguém), que o guardinha do estacionamento não estava ali esperando-nos, e isso era a sua praxe, pois costumava esperar por eventuais "caixinhas" dos clientes do estúdio. Atravessamos a primeira parte da avenida e quando estávamos chegando à segunda ilha de proteção, um bando de homens vestidos de preto, com feições orientais e munidos de pistolas prateadas e reluzentes, saíram muito rapidamente de trás de nossos carros, atirando com tudo !!

Numa fração de segundos, pensei ser um assalto, mas logo percebi que nós não éramos o alvo, pois eles passaram por nós atirando em direção de onde saíramos, e alguém contra-atacava, pois balas vinham pelas nossas costas, também. Todo mundo saiu correndo em disparada, e abrigou-se nos carros. Era bala para tudo o que é lado, num tiroteio muito forte, e nós todos ali no fogo cruzado, podendo ser alvejados a qualquer momento !!
Lembro do Chris ter tido o ímpeto de jogar o estojo de sua guitarra na pista da Avenida Dom Pedro I, e sair correndo. A guitarra ficou jogada na pista interna sentido centro, onde tem fluxo pesado de ônibus e por sorte, não havia grande movimento, devido ao horário.
Mas o fato dele ter jogado a guitarra no chão não fora um caso pensado de autodefesa, para com isso ganhar mais mobilidade para correr. O fato lastimável, foi que ele foi alvejado de raspão no cotovelo e o impacto, ainda que não certeiro, deu-lhe o reflexo de soltar o estojo e na correria, depois de achar um abrigo, não haveria meios de voltar à avenida, em meio àquela saraivada de tiros.
Enquanto todos correram e abrigaram-se com muita rapidez, a minha reação foi muito estranha e preciso explicar bem para não ser interpretado mal.

Eu continuei caminhando calmamente, segurando o estojo do meu baixo e só quando cheguei à calçada, fui buscar com calma, um abrigo atrás de um carro. Ouvi os gritos do Juan Pastor e do Deca, chamando-me pelo nome e cobrando-me mais agilidade, mas não sei dizer o motivo exato, porém não senti medo algum, apesar de ser um cenário de massacre, literalmente. Uma vez atrás dos carros, o cenário era de front. Senti-me numa trincheira literalmente, pois víamos a cena da guerra, agora de frente e as pessoas ali entrincheiradas comunicavam-se com certo desespero. Cada banda parecia procurar por seus membros e ouvíamos gritos chamando por nomes, todos preocupados com todos.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff200611.htm
 

Matéria na Folha de São Paulo, na época,cobrindo tal evento criminoso.

Havia um temor óbvio de que aqueles pistoleiros voltassem para liquidar ou assaltar-nos sei lá, mas depois ficamos sabendo que aquilo era um acerto de contas de uma organização mafiosa de orientais e nada tinha a ver conosco. Só estávamos na hora errada, e no lugar errado para correr o risco de morrer gratuitamente, pela briga de estranhos. Ainda com o tiroteio pegando fogo, eu vi um dos homens que os pistoleiros estavam atacando, morrer, caindo lentamente escorado numa árvore na ilha da avenida. Foi muito parecido com cenas de filmes policiais americanos, mas era estranho ver algo acontecendo assim, na vida real. Era um sujeito também oriental e morreu sentado, escorado na árvore, com o revolver na mão. De longe, parecia um convencional "38", mas os matadores profissionais usavam armas automáticas modernas que reluziam de tão prateadas, e naturalmente eram mais precisas e de maior calibre. Por sorte, no auge do tiroteio, uma viatura virou a esquina da Rua Independência e entrou na Avenida Dom Pedro I. Claro que dois policiais com revólveres 38 não tinham como enfrentar e dominar pistoleiros hábeis e fortemente armados, e convenhamos, naquele fogo cruzado, quem deveriam defender ou confrontar ?  Mas chamaram reforços que começaram a aparecer e alguns minutos depois, muitas outras viaturas apareceram, ambulâncias etc.
Quando amenizou, o Deca levou o Chris ao Pronto-Socorro e por sorte foi só raspão, mesmo, mas o médico imobilizou o braço dele. Ficamos dois dias pensando em cancelar a nossa participação em Sorocaba, mas o Chris não abria mão de fazer o espetáculo e na última hora, convenceu-nos a fazer o show só com a guitarra do Deca, e ele cantando como frontman, coisa que aliás ele cumpria bem, também, mas seria com o braço na tipoia. Quanto ao massacre da Avenida Dom Pedro I, a explicação fora essa : tal avenida, era extremamente residencial, muitas décadas atrás. Muitos casarões de grande porte compunham-na, alguns, até eram suntuosas mansões. Com o tempo, as famílias foram alugando seus casarões para comércio, caso do próprio Spectrum. Então, nós nunca havíamos percebido, mas a casa ao lado era um prostíbulo de garotas coreanas. Com muita discrição, ninguém percebia o que acontecia ali e nesse dia demos o azar de haver um acerto de contas com o dono do estabelecimento. Portanto, os tiros que vieram pelas nossas costas e um deles passou perto do cotovelo do Chris, eram dos seguranças do dono do prostíbulo que tentaram defendê-lo. Bem, teve mortes, prisões, vimos as prostitutas coreanas sendo presas, alguns feridos para a ambulância e o Chris ficou mais pelo susto, ainda bem...

Continua...

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