sábado, 18 de julho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 367 - Por Luiz Domingues


Chegando ao estúdio Guidon, numa primeira inspeção prévia de pré-produção, verificamos que a bateria que havia disponível no estúdio, não estava em condições ideais para a gravação de um álbum. Nem mesmo trocando todas as peles, isso seria minimizado, pois algumas "canoas" (pequenas peças que tem função de presilhas para fixar a pele no instrumento, e feitas de latão, geralmente, mas muitas vezes de outros materiais como plástico, ferro etc), não estavam em boas condições.

Dessa forma, com canoas em mau estado de conservação, a possibilidade de ruídos estranhos se somarem ao som do instrumento na sua captura básica de gravação, era grande. Por outro lado, o Ivan não tinha uma bateria importada de alto padrão nessa época e aí, resolvemos fazer um empréstimo, muito inusitado !!  

Sem pudor algum, fomos à casa do Dinola, e de forma direta, sem rodeios, lhe pedimos seu instrumento emprestado para a gravação do disco. Situação absolutamente bizarra, estávamos pedindo o instrumento de nosso ex-baterista para que um convidado o usasse em seu lugar no disco, em que ele obviamente deveria estar participando conosco...

Que situação mais estranha da qual jamais poderíamos supor passar um dia, mas estava acontecendo...

Bem, nessa altura, o Dinola não nos disse oficialmente, mas na prática, seus esforços para tentar fazer vestibular para odontologia, já estavam descartados, mas ainda chateado, não esboçava sinais de que pudesse voltar para a banda, infelizmente.

Todavia solidário como sempre, aceitou na hora a inglória tarefa de emprestar sua bateria para outro músico gravar o disco de sua própria banda.

Então, mais que isso, prontificou-se a levá-la ao estúdio, numa demonstração de sangue frio, enorme, eu diria.

Quando o dia do início desse trabalho chegou, lá estava ele montando a sua Tama, e aquele óbvio sentimento de que o certo seria sentar-se no banquinho e gravar todas as faixas, instaurou-se no estúdio.

Bem, quando os primeiros trabalhos de levantar o som da equalização básica da bateria começaram, ele já estava tão naturalmente inserido naquele espírito de gravação, que ajudou decisivamente o Ivan, dando-lhe todo o apoio para timbrar o instrumento da melhor forma possível.

Então, quando achamos uma equalização primordial e o produtor Bianchi anunciou que começaríamos a gravar, propriamente dito, o Ivan, sentindo o clima subliminar de constrangimento entre nós quatro, membros da velha Chave do Sol, foi direto ao ponto e disse ao Zé, que ele é que deveria gravar o disco inteiro...

Claro que sim, mas naquela altura, com o hiato de quase dois meses de sua saída, dentro de um estúdio com os ponteiros do relógio voando e a cada giro desses, arrancando-nos o couro, nem dava para perder tempo ali com uma catarse interna da banda, tentando demover o Zé Luis de sua decisão maluca feita meses antes...uma imensa pena, enfim !!

Diante desse impasse, na base da pressão emocional que instaurou-se com tal proposta vinda do próprio Ivan, Dinola acabou aceitando gravar algumas faixas e isso minimizou e muito a nossa frustração imensa de que nosso baterista não tivesse uma participação, mesmo que pequena, em mais um álbum da banda.

E mesmo com a falta de ensaios naqueles meses em que havia deixado a banda, claro que conhecia aquelas canções, como ninguém...  

Então sob comoção, e confesso, ficamos todos muito emocionados com essa ação inesperada, o Dinola gravou duas faixas do disco :  "Keep me Warm Tonight" e "Lírio de um Pantanal", com Ivan Busic gravando as demais.

E também fez algumas intervenções de percussão na faixa "Change my Evil Ways"

Isso estava longe do ideal, pois o correto seria ele ter gravado tudo, e saído normalmente nas fotos da capa e encarte do LP, mas a vida nos pregou essa peça...


Continua...  

3 comentários:

  1. Olá, Luiz. Sou fãzasso da Chave do Sol e quando conheci pessoalmente o Ivan Busic num show do Dr. Sin, comentei que a performance dele nesse álbum me influenciou muito como baterista. Aí ele me contou que quando gravou a música "Profecia", talvez pela pressa em gravar pra não perder tempo, ele esqueceu de acionar a esteira da caixa, resultando naquele timbre de lata que só ficou nessa música. Estava aguardando ansiosamente esse capítulo de sua autobiografia pra ler você contando esse episódio mas parece que você esqueceu!

    Abraço

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  2. Olá, Luiz. Sou fãzasso da Chave do Sol e quando conheci pessoalmente o Ivan Busic num show do Dr. Sin, comentei que a performance dele nesse álbum me influenciou muito como baterista. Aí ele me contou que quando gravou a música "Profecia", talvez pela pressa em gravar pra não perder tempo, ele esqueceu de acionar a esteira da caixa, resultando naquele timbre de lata que só ficou nessa música. Estava aguardando ansiosamente esse capítulo de sua autobiografia pra ler você contando esse episódio mas parece que você esqueceu!

    Abraço

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    1. Grande Takeo !

      Antes de mais nada, quero agradecer-lhe por estar acompanhando essa narrativa com real interesse, e com predisposição para comentar e trazer um ótimo adendo.

      Sobre sua observação, sinto muito tê-lo frustrado, mas realmente não me lembrava dessa particularidade revelada pelo Ivan Busic.

      Como você deve ter notado, não esmiucei muito a parte técnica da gravação do LP The Key, porque realmente não me recordo de muitas particularidades. Minha lembrança foi simplesmente mais calcada em valores emocionais, sobre a questão da aparição do Zé Luis Dinola em circunstâncias insólitas no estúdio e claro, a pressa em gravar e mixar, por conta da verba muito curta.

      Portanto, peço-lhe desculpas por esse esquecimento, e ao mesmo tempo, lhe agradeço por trazer o adendo ao texto. Você enriqueceu a narrativa com esse detalhe, pode ter certeza.

      Abração !

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