segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Autobiografia na Música - Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada - Capítulo 18 - Por Luiz Domingues


Após a primeira apresentação, estávamos animados com a perspectiva de uma nova data bem próxima, pois era a oportunidade de entrosar ainda mais a banda e assim, prepará-la para apresentações de maior envergadura.

Todavia, o Ciro nos advertiu que a próxima apresentação ainda seria difícil, nos mesmos moldes da primeira. Como estávamos animados com o trabalho, e o sucesso artístico da primeira apresentação, claro que aceitamos, e assim, foi marcado.

O local era uma dessas associações que "pipocam" pelas cidades brasileiras, beneficiadas pela Lei Rouanet, onde a contrapartida é difundir cultura. Tudo muito legal na teoria, mas na prática, é estranho verificar que não há repasse dessas verbas generosas que recebem para os artistas que se apresentam nos espaços, tampouco investimentos em infraestrutura, pois os equipamentos de som e luz; e os palcos são nivelados aos de casas noturnas de baixo nível, geralmente.

Enfim, não cabe aqui nenhum discurso reprovando tal prática, pois era um "pegar ou largar", pura e simplesmente e o Ciro nos consultou previamente expondo as condições e nós aceitamos, pelas razões já elencadas.

Sendo assim, fomos nos apresentar num mini centro cultural, chamado "Coletivo Galeria", que tinha uma pequena galeria de arte no andar superior, e na parte inferior da casa, produzia shows musicais de pequeno porte. Pelas condições estruturais ali presentes, o ideal seria usar o espaço só para apresentações intimistas, com artistas de voz e violão tão somente, mas bandas se espremiam ali e até shows de Punk Rock e Heavy-Metal ali aconteciam, normalmente.

Enfim, topado uma vez, topado sem restrições posteriores...

Haveria uma presença a mais nessa noite, que o Ciro convidara para tocar conosco em duas músicas. Tratava-se de Miguel Barela, guitarrista que era famoso nos anos 1980 por ter sido componente da banda "Voluntários da Pátria".

Apesar de ser uma banda inserida entre a turma do Pós-Punk, eu me lembro bem que era diferenciada, pois seus membros eram músicos de alto gabarito musical, e que mesmo estando acomodados naquela estética, tinham raízes setentistas de ótimo nivel, em meio ao Jazz-Rock; Prog-Rock; música experimental; Jazz etc.

Parecia até contraditório estarem naquela turma, cujo paradigma era o niilismo de caráter revanchista contra os valores setentistas, mas na verdade, eles transitavam sem indisposições com seus pares, espelhando-se principalmente no King Crimson reformulado dos anos 1980, que se apresentava todo "modernoso" e aparentemente se coadunando com tribos oriundas da mentalidade do Pós-Punk, mas na verdade, eram admiradores de música de qualidade.

As aparências enganam e se por um lado eu demorei a perceber tais sutis diferenças em bandas e músicos nesses termos que descrevi acima, ainda nos 1980 (que fique bem explicado), creio que da parte dele também havia margem para enganos.

Em conversa muito agradável que travamos durante o soundcheck, ele demonstrou se lembrar de mim, por causa da minha atuação na Chave do Sol, naquela década e surpreendeu-se positivamente por ver que eu curtia King Crimson, quando nos ajustes de seu equipamento, tocou alguns riffs do grande Rei Escarlate, e eu elogiei-o pela execução preciosa do mestre Fripp, que ambos admiramos.

É o tal negócio, ele deve ter passado a década de oitenta achando que eu gostava do "Iron Maiden", pelas fotos que deve ter visto nas revistas de música da época, e em contrapartida, eu posso ter achado que ele compactuava com aquela "fascistada" niilista do Pós-Punk, num ledo engano de via dupla.

Tremendo músico, foi um baita prazer tocar com ele naquela noite, ainda que numa participação curta de apenas duas músicas. 


Continua...

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