sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 209 - Por Luiz Domingues


Bem, descansados após boas horas de sono embalados pelo reconfortante som natural do riacho que passava atrás do apart-hotel, e também pelo frio intenso que valorizou o uso dos edredons e cobertores, recebemos a visita de pessoas ligadas à produção local.

Estava tudo sobre controle e a hospitalidade estava excelente, aliás um padrão em cidades interioranas em geral, independente de que estado for da federação.

Cidade de porte mediano, e muito bonitinha, Concórdia tinha uma casa noturna que tinha tradição em abrir suas portas para artistas autorais. E assim que chegamos ao estabelecimento para o soundcheck vespertino, vimos murais espalhados pela casa, com fotos e shows pregressos, e verificamos então que muita gente boa já havia passado por lá.

Claro, eram predominantemente artistas do patamar underground como nós, mas tinha também gente do mainstream, pois vimos fotos do Erasmo Carlos, Guilherme Arantes, Marcelo Nova; e Engenheiros da Havaí, por exemplo.

A casa se chamava Tulipa Bar e era bem montada. Não era luxuosa, mas mostrava-se aconchegante. Suas donas, eram duas mulheres simpáticas que nos receberam muito bem e tudo prometia para a noite, principalmente quando nos disseram que a expectativa gerada na cidade era grande e que haviam indícios que uma caravana vinda de outra cidade próxima, Chapecó, estava organizada com gente muito a fim de nos ver. Claro que nos motivamos com tal perspectiva de casa cheia, e com público rocker.

Voltamos caminhando para o apart-hotel, visto que optamos por deixar o nosso ônibus estacionado ali e a distância era mínima. O frio estava apertando no entardecer, prenunciando uma noite gelada e de fato, ali era uma das regiões mais frias do Brasil, tradicionalmente, com temperaturas que chegavam aos graus abaixo de zero com costumeira facilidade, no rigor do inverno sulista.

Antes de voltamos à casa, tivemos um compromisso radiofônico e já noturno, onde numa micro entrevista, reforçamos o convite para os rockers locais enfrentarem o forte frio das ruas, e irem se aquecer ao nosso som Chronophágico...    

Mas uma grande surpresa nos aguardava mesmo, foi quando entramos no estabelecimento, que já tinha um bom contingente de pessoas.

Assim que entramos, aquela turma de Chapecó que fretara um ônibus para vir nos assistir, nos envolveu aos berros, nos ovacionando de uma forma tão contundente e emocionante que um clima de comoção se instaurou no local. Munidos de capas de vinis antigos da Patrulha, mas também várias capas do CD Chronophagia em mãos, puseram-se a cantar em coro, a música "O Novo Sim", desse referido CD de nossa discografia e claro que nos emocionamos.

Concomitantemente, uma equipe de jornalismo da TV local estava ali pronta para fazer uma micro entrevista conosco, e claro, foram rápidos e filmaram essa chegada triunfal da banda em meio aos seus fãs, cantando uma música do novo disco que sabiam de cor e mais do que isso, demonstravam adorá-la.

Bem, claro que nesse torpor todo gerado pela comoção ali instaurada, deu-me a oportunidade de fazer reminiscência e reflexão imediata...

Passou um filminho na minha cabeça, pensando em todo o esforço para fazer o sonho do resgate energético 60/70 pulsar novamente, através dos primórdios do projeto Sidharta. Pensei bastante nos meninos Hid e Schevano, mal saídos da adolescência; nos ensaios para a composição daquelas canções; o sonho movimentando todo aquele esforço...e aquela garotada cantando aos berros, sob intensa emoção a música "O Novo Sim", era a concretização de tudo aquilo que começara no final de 1997.

Claro, pensei até no José Luiz Dinola, que mesmo não vibrando com a mesma intensidade o sonho do resgate aquariano, era, curiosamente, o autor dessa letra, que aqueles jovens Rockers catarinenses cantavam a plenos pulmões.

Bem, em termos de proximidade com o meu sonho primordial acalentado nos anos setenta, a Patrulha do Espaço provavelmente foi a banda onde atuei que mais me proporcionou a chance de experimentá-lo concretizado, acredito.

Claro que A Chave do Sol também me proporcionou muitas alegrias nesse sentido, contudo, naquela conjuntura onde se inseria, em meio à década de oitenta, era muito difícil exercer tais experimentações, portanto, não foi culpa da banda, mas das circunstâncias.

Porém, com a Patrulha, pelo fato da banda ter se imbuído desse resgate, explicitamente falando, os resultados concretos eram muito mais visíveis, e assim, manifestações como essa de Rockers de Chapecó se mobilizando para nos assistir na cidade vizinha, Concórdia, e nos recepcionar na casa noturna onde nos apresentaríamos, dessa forma esfuziante, era uma prova cabal de que nossos esforços logravam êxito, e em particular, eu me sentia muito gratificado, por tudo o que expus.

Com essa comoção toda, é claro que o show foi muito quente, e esse público respondeu cantando e vibrando do início ao final.

Mas, tenho que registrar que a euforia e comoção ficou a cargo desses 40 e poucos fãs ardorosos da Patrulha que vieram de Chapecó, pois tirante poucos rockers de Concórdia, o grande grosso do público do Tulipa Bar, reagia ao nosso show de forma muito mais comedida.

Fácil de se explicar, o público habitue da casa era da jovem burguesia da cidade, fenômeno comum em muitas casa de outras cidades onde já havíamos tocado anteriormente, portanto, não nos aborrecemos, tampouco nos surpreendemos com essa apatia.

Por sorte, a euforia dos Rockers de Chapecó tornou o show sensacional para nós e assim, saímos muito contentes daquele palco, e a satisfação da parte das donas do estabelecimento era visível, certamente abrindo portas para que voltássemos a tocar em seu estabelecimento, e foi o que ocorreu posteriormente, em outras ocasiões.

Foi assim a noite no Tulipa Bar de Concórdia-SC, em 22 de junho de 2002, com cerca de 250 pessoas no estabelecimento. 

Como última ocorrência dessa madrugada, vimos que um casal de namorados muito jovens e freaks, estavam desolados no canto, quando o público já havia saído da casa, quase completamente.

Os interpelamos e descobrimos que eram de Chapecó, mas deviam ter se distraído namorando em algum cantinho escuro e não perceberam que seu ônibus fretado havia partido. E naturalmente que naquela adrenalina toda, seus amigos nem notaram sua falta no ônibus.

Aquela cena pungente remeteu-me aos anos sessenta e setenta, naturalmente, lembrando-me de jovens hippies em porta de teatros, sacrificando-se para ver grandes concertos de Rock e /ou MPB e tendo que amargar horas de espera para poder voltar para a casa.

Sem dinheiro no entanto para tomarem um ônibus comercial para a sua cidade, não era só a questão das horas de espera e do frio que estava intenso até para eles catarinenses, e acostumados com o rigor do frio num padrão europeu.

Lembro-me portanto do Junior lhes dando um dinheiro para voltarem, assim que o primeiro ônibus para Chapecó surgisse na rodoviária de Concórdia.

A garota se chamava Gabriela e o namorado, Lucas.


No dia seguinte, antes de sairmos da cidade, ainda tivemos o cuidado de mandar instalar faróis de milha que não tínhamos no nosso ônibus. A experiência de ficarmos sob uma neblina intensa na noite retrasada, passando muito perigo numa estrada íngreme, sobre encostas e sendo ultrapassados por caminhões e ônibus munidos de motor turbo, coisa que não tínhamos, nos deixou apreensivos e o mínimo nesse caso era instalar faróis de milha específicos para enfrentar situação de neblina, e colocar adesivos refletivos na parte traseira do bólido.

Com bastante tempo, saímos de Concórdia no meio da tarde com destino à Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Nossa meta era viajar com tranquilidade, sabedores que havia um longo trecho de serra a ser enfrentado, e assim, com nosso ônibus possuindo um motor convencional e não turbo, a lentidão seria certa.

Paramos para jantar num simpático restaurante de posto de gasolina na altura de Passo Fundo, já no Rio Grande do Sul. Cabe explicar que tínhamos um show marcado para essa cidade naquele domingo, mas ele havia sido cancelado, daí termos descansado em Concórdia até a metade da tarde. No posto, a comida farta, bem feita e saborosa e num preço absurdamente baixo, nos deixou satisfeitos, apesar do show de Passo Fundo não ter se consumado e havia um certo ar de chateação por isso.

Mas ter um carro velho é um problema, pois mesmo fazendo checagens básicas, sempre podemos ser surpreendidos...

Já eram mais de dez da noite, quando um barulho forte perto do motor, nos deixou apreensivos. "Seu" Walter parou no acostamento, e ao se levantar do banco de motorista, só nos disse: -"Foi a caixa de câmbio, e é grave"...

Continua...     

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