sábado, 24 de outubro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 205 - Por Luiz Domingues


Já antevendo que aquilo não acabaria bem, ficamos bastante desconfiados da continuidade do projeto em si, pois se antes mesmo da realização do primeiro espetáculo da temporada, o rapaz já nos advertira com essa conversa sobre "volume de som", era de fato um sinal de mau agouro.

A noite chegou e nós fomos tocar...

O público presente era muito tímido, com cerca de 20 pessoas, mas para nós, em termos de ânimo, tocar num lugar vazio ou no palco do Festival de Woodstock, não mudava a nossa determinação de entrega artística absoluta. 

Fomos determinados a fazer nosso set tradicional e com a performance habitual, sem reservas, a despeito das observações vespertinas do técnico de som da casa.

Quem estava ali era fã da banda e estava curtindo a nossa tradicional entrada com a música "Não Tenho Medo", quando o técnico sinalizava insistentemente para abaixarmos o volume.

Se há algo que irrita um artista em pleno momento de performance, é alguém insistindo em querer tirá-lo das nuvens onde está, quando exerce sua interpretação no palco, para trazê-lo abruptamente para o solo, mediante quebra total da magia da ribalta.

Ninguém tolera essa falta de sensibilidade da parte de alguém que não percebe que ali, naquele momento, o artista está quase que num transe shamânico, fora da realidade telúrica, e isso vale para atores, músicos ou poetas em ato de declamação. Ali em cima é uma outra realidade imersa em magia, e assim, voltar para o chão é uma quebra energética visceralmente ruim, e que quase sempre causa um dano irreversível ao artista, pois perdida essa sinergia mágica, o espetáculo está arruinado, mesmo que ele o leve até ao seu final e a grande massa não perceba o desconforto enorme ali causado.

Sinalizamos que abaixaríamos os amplificadores e para que ele ficasse calmo, quando fomos para a terceira música, visto que a segunda, "Festa do Rock", era emendada na primeira, e não dava para interromper ao bel prazer do elemento.

Mesmo segurando e abaixando bastante, assim que começamos a tocar "Ser", o sujeito não notou a nítida amenizada que déramos e ficou ainda mais contrariado, como se tivéssemos aumentado, ou seja, ele estava transtornado e mesmo que desligássemos os amplificadores, ainda pediria para abaixar mais, caracterizando que estava predisposto a nos incomodar a noite inteira.
Ouça "Ser" enquanto lê, amigo leitor, e medite sobre a possibilidade dessa música ser executada com o volume de uma canção ao estilo Bossa Nova, com voz e violão...

"Ser", como todo fã da Patrulha sabe, é um Hard-Rock vigoroso e tocá-la num patamar de volume baixo daqueles, era uma tortura para nós e o sujeito ainda querendo menos volume.

Prosseguimos, tentando fazer ainda mais dinâmica na música seguinte, "O Pote de Pokst", abaixamos a canção num patamar hiper desconfortável para a banda, ao ponto do Junior ficar muito irritado em ter que tocar sua bateria "pisando em ovos", comprometendo completamente sua performance, sem pegada alguma.

Diante de tal pastiche sonoro, a banda estava muito prejudicada e mesmo assim, o rapaz mostrava-se indignado, gesticulando de forma a mostrar que não se conformava, e que possivelmente nós não o "obedecíamos" por rebeldia ou coisa que o valha.

Mas a realidade, era que estávamos tentando atender a orientação da casa, mas o patamar sonoro em que nos encontrávamos, era muito abaixo do padrão de um ensaio, portanto, aquilo estava arruinando a nossa performance.

Pavio curto ao extremo, claro que o Junior se indignou, jogou as baquetas longe e pôs-se a andar contrariado para o camarim. A noite estava estragada e a tal continuidade da temporada alardeada, seriamente comprometida.

O gerente da casa chegou a pedir desculpas, mas ainda insistindo na tese de que o "Psiu" estava pegando no pé deles etc etc.

Ora, se estavam com problemas dessa natureza com a fiscalização sonora da prefeitura, porque insistiam em programar shows de Rock ali ??

E como se não bastasse isso, toda essa conversa era muito suspeita, pois sabíamos que na noite anterior, haviam tocado duas bandas muito barulhentas, uma de Heavy-Metal, e outra de Punk-Rock, ali mesmo, e que fizeram portanto dois shows longos e na íntegra.

Não quero alimentar teoria da conspiração, mas o que realmente ocorreu ali, foi um mistério para nós.

A produtora Sarah Reichdan não esteve presente, mas mandou um representante seu, o baterista Carlinhos Machado, que eu já conhecia desde 1995, aproximadamente, pelo fato dele ser uma figura super conhecida no Rock paulistano, tendo tocado em inúmeras bandas. Curiosamente, 9 anos depois desse ocorrido, eu entraria na banda do guitarrista Kim Kehl, "Kim Kehl & Os Kurandeiros", e toco com ele, Carlinhos, desde 2011, portanto, por ele ser o baterista dessa banda.
                   Meu amigo, o baterista Carlinhos Machado

Um gentleman no trato pessoal, Carlinhos estava ali representando a produtora Sarah, e foi conversar com o gerente sobre o ocorrido e este lhe garantiu que a temporada continuaria normalmente, e que na próxima quinta-feira deveríamos voltar ali para dar continuidade na temporada.

Mas no dia seguinte, Sarah nos ligou e comunicou-nos que a temporada estava cancelada...

Difícil mesmo de entender esse episódio, por tudo o que já expliquei. O que pretendiam essas pessoas, está na consciência delas, muito provavelmente jamais saberemos.

Ainda no decorrer de maio, a Sarah nos comunicou que nas quintas posteriores, fãs da banda apareceram na tal casa e surpreenderam-se com nossa ausência, visto que muitos cartazes e filipetas foram para a rua anunciando temporada de cinco shows.

Bola para frente, não foi a primeira, nem seria a última vez que um espetáculo nos causaria dissabor.

Para compensar, tínhamos uma boa data para cumprir, mas aí sim num teatro bem estruturado, e com promessa de bom público.
Continua...

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