sábado, 24 de outubro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 206 - Por Luiz Domingues


Sempre um porto seguro para qualquer artista, tocar no Sesc representava não só uma apresentação com infraestrutura adequada para uma banda de nosso porte, história e musicalidade, mas a certeza de um bom público presente, e indo além, um aquecimento para a nova turnê que faríamos ao sul do país, desta feita sem apresentações no Paraná, mas apenas em Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Como já disse anteriormente, a produtora Sarah Reichdan havia nos ajudado muito, desde 2001, mas sua estratégia de nos introduzir no universo do circuito Sesc, baseava-se numa peregrinação de shows não exatamente confortáveis, na tentativa de ganhar a confiança primeiro dos produtores culturais dessa instituição, para depois, nos encaixar em circunstâncias mais agradáveis, artisticamente falando.

Fazer shows semiacústicos; ultra acústicos, ou ter que dividir o palco com "trocentos" convidados, não era exatamente o que desejávamos. Aliás, claro que não, se dependesse de nossa escolha.

Aceitamos suas ideias e táticas, na esperança de que viesse uma etapa mais confortável e vitoriosa a seguir, quando faríamos muitos shows em diversas unidades dessa instituição, mas dentro de nossas características normais, ou seja, nosso show habitual com eletricidade total, e sem necessidade de convidados.

Mas isso nunca ocorreu, infelizmente.

Portanto, esse show que faríamos na unidade do Sesc Ipiranga, seria dentro de nossa zona de conforto, mas não era produção dela, Sarah, mas sim do baterista/cantor, Paulo Barnabé, irmão do pianista/compositor e cantor, Arrigo Barnabé.

Sujeito zen, de conversa amena e muito gentil, diga-se de passagem, foi solícito conosco em todas as etapas da produção desse show.

No dia, lembro-me bem, a Copa do Mundo de 2002 estava a pleno vapor e como sabemos, o país para, literalmente, quando o Brasil vai jogar e nesse dia estava marcado o jogo : Brasil x China.

Por sorte nossa, o mundial de 2002, estava sendo disputado em dois países asiáticos, Japão e Coreia do Sul e por conta disso, quase todos os jogos ocorriam no fuso do fim da tarde ou noite desse dois países asiáticos, e assim, os jogos passavam aqui muito cedo, ainda madrugada, ou na parte da manhã.

Dessa maneira, o fato do Brasil jogar não prejudicaria o nosso show, independente de resultado, havendo euforia ou depressão pós-jogo.

Cheguei na unidade do Sesc em primeiro lugar, e fui me inteirando com os funcionários do equipamento de som e luz, terceirizados, sobre os primeiros procedimentos de montagem do palco.

Logo meus companheiros foram chegando também e tudo transcorreu com calma, sem atropelos.

A divulgação feita pelo Sesc Ipiranga estava a contento e nós também havíamos empreendido os nossos esforços na somatória e a expectativa era ótima, pois o boca-a-boca estava bem forte sobre uma presença boa de público.
Soundcheck bacana, luz decente de show de Rock profissional, camarim bem estruturado, cenotécnica...puxa, porque não era sempre assim ? Se fôssemos americanos ou britânicos, com a bagagem que tínhamos, a estrutura seria dali para muito melhor, e sempre, não tenho dúvida, mas no Brasil...

Ainda relaxando no camarim, a produtora da banda, Claudia Fernanda, sinalizou-nos que os ingressos estavam esgotados e que muita gente ficou sem possibilidade de entrar. Apelamos para o produtor Paulo Barnabé, para que convencesse os responsáveis pelo Sesc a liberar a entrada desse excedente para que assistissem nos corredores, mas foram inflexíveis alegando normas de segurança coadunadas com as exigências dos Bombeiros e Defesa Civil e que isso era impossível, portanto.

Uma pena, mas a segurança em primeiro lugar, isso é indiscutível.

Com a possibilidade cênica de começar o show de cortinas fechadas, combinamos com os técnicos tal recurso, e foi muito legal começar a tocar com a cortina sendo aberta vagarosamente e ao nos depararmos com o público, vermos em vários semblantes de pessoas, que haviam curtido tal efeito cênico.

Existe uma gravação caseira nossa de bastidores, feita pelo próprio Rodrigo com uma câmera Mini-VHS, que nos filmou de costas pela perspectiva da câmera que ele posicionou em cima de uma cabeça de amplificador. Dá para ver a banda se preparando segundos antes do show começar e está nos planos, lançar tal material no You Tube um dia. Infelizmente tem poucos momentos de show em si.

Ali, tocamos no volume compatível com o ambiente do teatro, mas agradável para uma banda de nossa sonoridade, e não aquela tortura que vivemos na casa noturna "Venice", que descrevi em capítulo anterior.

Na primeira fileira, notei a presença de um senhor que era  vizinho de quarteirão do Junior. Esse senhor que já era veterano na época, era um saxofonista que trabalhara a vida inteira tocando na noite paulistana e que vivia dizendo que queria nos ver ao vivo etc e tal.

Mas claro, seu espectro musical era outro, e mesmo nos vendo cabeludos e sabedor que éramos uma banda de Rock, não demonstrava contrariedade com essa diferença, mas o fato é que ele não devia mensurar direito o que era um show normal em nossas características.

Pois assim que o vi, sua expressão facial era de pânico, nos primeiros compassos da primeira música. Imaginei imediatamente que ele não aguentaria a massa sonora, ainda mais sentado na primeira fileira e recebendo o impacto direto dos amplificadores no palco, somado à potência do P.A.

Só não poderia supor que seu martírio fosse tão grande, pois ainda estávamos no começo da segunda música, "Festa do Rock", quando o vi se levantando incontinenti, para se retirar do recinto...

Claro que não fiquei chateado e pelo contrário, tenho consciência de que mesmo sendo um músico experiente com tantos anos de carreira, seu espectro musical habitual, além da extrema leveza sonora, deve ter sido praticado em quase 99 % das oportunidades, em situações acústicas, com pequenos combos de samba de Roda, chorinho, ou no máximo, numa mini orquestra de gafieira.

Portanto, qualquer coisa minimamente mais pesada que um conjunto de Rock no padrão da Jovem Guarda, que ele devia achar "barulhento" em 1966, não se comparava à nossa volúpia ali naquele palco.

Não faz muito tempo, ainda em 2015, o vi andando pelas ruas do bairro da Aclimação, mas ele não me viu. Está muito envelhecido e demonstrava sinais de embriagues bem acentuados, lamentavelmente.

Fora essa ocorrência exótica, foi um show excelente, que nos deixou muito felizes, pois a resposta do público foi muito calorosa.

Aconteceu no dia 8 de junho de 2002, um sábado. Lotação máxima com 300 cadeiras ocupadas ou 299 contando com a saída desse senhor saxofonista e pelo menos 80 pessoas do lado de fora frustradas por não terem conseguido o ingresso.

E o Brasil da dupla dinâmica, Felipão & Murtosa, venceu a China...4x0...
Resenha desse show publicada na Revista Rock Brigade, um mês depois. O resenhista, cujas iniciais não consegui identificar, falou com propriedade e foi bastante elogioso à nossa performance, mas não consigo deixar passar em branco uma sutileza. Fazendo jus ao fato de se tratar de uma revista dedicada ao mundo do Heavy-Metal, apesar de ostentar a palavra "Rock" em seu título, é incrível constatar o elogio que fez para as músicas "Robot" e "Olho Animal", que aos ouvidos dos que professam o Heavy-Metal, são mais agradáveis. Até elogio com ênfase para "Olho Animal", o rapaz salientou, qualificando-a como "ótima". Indiscutível o gosto pessoal dele, mas é incrível como tal canção que considerávamos uma peça antagônica ao conceito pós-Chronophagia, era querida por outra faixa de público que aprovava a fase mais pesada da Patrulha.



Continua...  

Nenhum comentário:

Postar um comentário