sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 216 - Por Luiz Domingues


Ainda torpe pelo foguetório comemorando os gols da seleção brasileira, mas não querendo sair daquela cama quente de jeito nenhum, até pelo menos o meio-dia, fui massacrado pelo toque intermitente do telefone do hotel.

Não havia pedido para me chamarem da recepção, despertando-me, pois a ideia era realmente sair na hora limite da diária, visto que a distância entre Blumenau e a capital, Florianópolis, era mediana e mesmo saindo com prudente margem de vantagem para prevenir eventuais problemas na estrada, não haveríamos de nos atrasar.

Todavia, não foi o que aconteceu, pois quebrando todo o planejamento, era o Junior do outro lado do fone, comunicando-me de forma agoniada que deveríamos partir de forma acelerada, pois olhando o Cafu levantando a Taça de campeão na mão, e ouvindo a gritaria e foguetório nas ruas, deu-lhe o insight que ficaríamos presos nas comemorações de rua e assim, ficara desesperado, temendo um atraso mastodôntico...

Enfim, todo mundo saiu com a cara amassada dos quartos, lamentando muito estar deixando o conforto de um Hotel 5 estrelas e naquele frio do sul, assim, às pressas, como se estivéssemos perdendo o último trem para Clarkesville ou Jaçanã, como queiram...

Entramos no ônibus e realmente havia uma movimentação popular intensa, mas longe de uma interdição completa das ruas. Além do mais, era uma cidade interiorana, e mesmo que isso ocorresse, não seria muito difícil desvencilhar-se da multidão de torcedores ufanistas, e de fato, foi o que ocorreu.

Rapidamente já estávamos na estrada, e a adrenalina absolutamente desnecessária já havia devidamente abaixada no organismo de todos da comitiva...

Bem, chegamos em Florianópolis muitas horas antes da previsão da casa onde nos apresentaríamos, abrir para a montagem do palco e soundcheck.

Nos apresentaríamos numa casa noturna de ambientação Rocker, chamada "Underground".

Ficava na avenida que margeia a Lagoa da Conceição, um lugar de uma beleza incrível e recheada de turistas, com imensa maioria de argentinos, tanto que muitas placas de informações são bilíngues ali, com português e espanhol grafados lado a lado.

Almoçamos nas imediações da referida casa, num restaurante decorado com motivações náuticas, e após uma longa espera, finalmente fomos aguardar a abertura da casa onde nos apresentaríamos.

A cidade de Florianópolis estava festiva pela vitória da seleção brasileira, mas também havia a notícia da morte de uma personalidade religiosa famosa e querida, o Chico Xavier.

Dias antes já havíamos amargado a notícia da morte do lendário baixista do The Who, John Entwistle, que nos chocara profundamente, visto ser um dos grandes ícones da história do Rock, evidentemente.

Bem, mortes de celebridades e ufanismo futebolístico a parte, estávamos prestes a encerrar essa mini tour pelo sul. 

Florianópolis era a última etapa para nós e podíamos já comemorar antecipadamente o sucesso dessa turnê, independente de como seria o show no "Underground".

Como uma praxe, sempre que sentíamos uma vibe legal do local, e das pessoas envolvidas na produção, a infraestrutura deixava a desejar...

Tratava-se de uma casa rústica, parecendo um mini centro cultural aberto para artistas do underground e daí o nome do estabelecimento ser coadunado com esse espírito, mas o equipamento de som e luz eram precários.

Na base da boa vontade, o pessoal responsável se desdobrou para providenciar ajustes de improviso, e assim o som melhorou um pouco, mas mesmo assim, seria sofrido tocar com um P.A. tão tímido.

Quando a noite chegou, compensamos toda a precariedade do equipamento e fizemos um dos mais energéticos shows não só dessa turnê, mas creio que do ano inteiro até ali.

Foi um clima de show de Rock de outrora que contagiou o público presente, que era inteiramente antenado nessa vibe e tal sinergia nos fez levantar voo naquele palco escuro, carente de uma iluminação alucinante e condizente com a vibe estabelecida.

Aquela plateia de Rockers merecia nos ver no auditório Fillmore West, com aquela vibe de 1970...

Bem, suando aos píncaros, deixamos o palco mega satisfeitos com a energia do show, e o assédio foi grande embora não fosse um grande contingente presente.  
Com o amigo Paulo Valério Silva, no camarim do "Underground", que foi nos ver naquela noite. Foto rara dessa noite, e do acervo dele mesmo.


Aconteceu no dia 30 de junho de 2002, no Underground de Florianópolis.

Bem, fechada com chave de ouro essa etapa da tour, voltamos para São Paulo extenuados pela somatória dos 11 dias longe de casa.

Não tivemos grandes problemas com o ônibus (troca da caixa de câmbio em Passo Fundo, além de um pneu furado em São Leopoldo), e poucos aborrecimentos com coisas corriqueiras extra musicais, apenas.

Nos despedimos do pessoal do Underground e entramos no ônibus ainda no fim da noite de domingo, com vontade de voltar para São Paulo, sem escalas.

Relaxados dentro do ônibus, e curtindo a paisagem noturna belíssima de Florianópolis, o astral quebrou-se como por encanto, quando alguém notou que o banner da venda de discos e souvenirs não estava dentro do carro.

Um dos roadies havia esquecido o banner na casa noturna...

"Seu" Walter sugeriu voltarmos, mas o Junior pediu para ele seguir em frente, pois provavelmente a casa já estaria fechada e seria um aborrecimento ter que ligar para o responsável voltar e abrir etc e tal...

Paciência, mais um prejuízo de última hora, desta feita de pequena monta.

A viagem seguiu tranquila e já na alta madrugada, todo mundo dormia, menos eu que ficava ligado o tempo todo e conversando com o "seu" Walter.

Então, do nada, perdemos a luz externa do nosso ônibus. Walter me disse que provavelmente perderíamos a ignição se parássemos para verificar o ocorrido e assim, sugeriu que parássemos num posto onde houvesse certeza de haver um eletricista, para não corrermos riscos.

Já estávamos adiante de Curitiba, nos aproximando da fronteira de estados entre Paraná e São Paulo, quando achamos um posto com um auto-elétrico aberto.

Quando o ônibus desacelerou e fez manobra de entrada no posto, os demais foram acordando e perguntando o que ocorria e seu Walter foi explicando, mas daquele seu jeito enigmático, dando a entender que teríamos problemas...

Como quase todo mecânico de beira de estrada, o sujeito fez suas verificações e foi dando indiretas que seria difícil achar um dínamo novo naquela hora em seu estoque etc e tal. Nossa sorte era que o "seu" Walter falava a linguagem dessa gente e ficou em cima do sujeito barganhando e a peça "miraculosamente" apareceu numa embalagem lacrada em algum compartimento secreto daquele barracão insalubre, e nos foi vendida por um preço pouco acima do normal de mercado. Se estivéssemos sozinhos, o cara teria arrancado o dinheiro absurdo que pedira inicialmente.

Enquanto instalava, ouvimos um barulho incrível na estrada, e de-repente, surgindo da curva, um caminhão apareceu capotando e parando com violento estrondo na encosta de rochas. 

Pior que ver um acidente desse porte, ali a menos de 50 metros de distância de onde estávamos, foi ver que em meio a pessoas que socorriam o caminhoneiro todo ensanguentado e atordoado, uma multidão de maloqueiros apareceu sabe-se de lá de onde, e iniciaram um saque que parecia um ataque de gafanhotos na carga do caminhão. Eram caixas de bolachas (entenda "biscoitos", se você que estiver lendo não for paulista ou gaúcho).

Fiquei chocado com a cena, mas muita gente que estava no posto, portava-se como se estivesse acostumado com uma barbaridade dessas e...bem, é o povo brasileiro e depois se surpreendem que os políticos sejam gatunos, ora, de onde eles vem, se não é do seio desse mesmo povo com essa índole ?? 

Sem meios para ajudar, ficamos chocados, e temerosos com todo o nosso equipamento no ônibus. Se roubam caixas de bolachas com aquela volúpia animalesca...

Consertado o nosso carro, voltamos para a estrada e vimos que a Polícia Rodoviária e ambulâncias de paramédicos estavam chegando para socorrer o caminhoneiro. Quanto à sua carga...

Chegamos em São Paulo já na metade da manhã, extenuados, mas felizes pelo cômputo geral da turnê.

Nosso próximo compromisso formal, seria só no mês de julho, com mais três shows no Centro Cultural São Paulo.
Continua...

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