quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 192 - Por Luiz Domingues


Chegamos muito atrasados em Mirassol, e conforme já havíamos solicitado, a banda de abertura passou o som para o seu set up, e estava já postada para tocar. 

Apenas deixamos o nosso equipamento perto do palco (e era um espaço considerável, ainda bem, pois se a casa tivesse espaço reduzido como muitas em que tocamos anteriormente, nem isso teria sido possível), e a banda "Lier" (era com "e" mesmo, se você pensou se tratar da palavra inglesa, "Liar"), iniciou a sua apresentação. 

Estávamos muito cansados e esgotados psicologicamente devido à soma de acontecimentos desagradáveis com os quais lidamos desde o sábado pela manhã.

A banda começou a tocar e tínhamos pouco tempo para nos arrumarmos. Os rapazes do "Lier" eram amigos do pessoal do "Hare", de São José do Rio Preto, que havia aberto o nosso show em dezembro de 2001, ali mesmo no "Planet Beer".

O "Lier" não era uma banda acintosamente retrô como o "Hare", e seu som pendia para o Pop Rock oitentista/noventista, mas sem grandes voos. Bons músicos e gente boa no trato pessoal, mas não despertou-me a atenção como o "Hare" havia feito na ocasião anterior.

Quando acabaram, uma pequena força tarefa comandada pelo baterista do "Hare", Junior Muellas iniciou-se para auxiliar os nossos roadies, e dessa forma, ganhamos alguns minutos preciosos nesse processo de troca de set ups entre as bandas.

Montamos a toque de caixa e baseado na equalização da banda anterior, conforme já expressei anteriormente, pois não pudemos fazer soundcheck, começamos a tocar. Estávamos no início da primeira música do show "Não tenha medo", quando todos os três amplificadores que usávamos para tocar o baixo e duas guitarras, pararam de funcionar bruscamente.

Fiquei com tanta raiva de passar por mais uma adversidade acumulada, que não esperei que algum roadie ou o técnico de som da casa esboçasse uma reação. Tirei a correia do baixo do meu ombro, coloquei o instrumento no cavalete de sustentação e fui voando às tomadas onde estavam ligadas as réguas de AC, mexendo em todas. 


Suprema precariedade de uma casa que não se preocupava em investir em infraestrutura para produzir shows musicais, tais instalações elétricas estavam frouxas e desconectavam-se a toa.

Apertei-as e pedi ao Samuca para passar uma fita adesiva e coibir assim novos acidentes desagradáveis no decorrer do show.

O nosso show foi morno. Diferentemente da ocasião anterior, onde havia até uma euforia decorrente do fato da casa estar absurdamente lotada, desta feita havia muito menos público, e ele parecia apático, sem estabelecer uma sincronicidade com a banda.

Isso acontece, é coisa normal na vida de qualquer artista, inclusive os mais famosos. Quando não existe tal sinergia, não adianta que não funciona, mesmo.

Talvez fosse um reflexo da nossa energia baixa, com os ânimos muito prejudicados pela somatória de todos os aborrecimentos com os quais lidamos nesses três dias, ou sendo mais específico, no sábado e no domingo.

Fomos até o final com o profissionalismo de sempre, mas estávamos com um abatimento quase indisfarçável, essa é que era a verdade.

Quando o show terminou, o clima era de cansaço e o desejo era de voltar imediatamente para São Paulo, juntar os cacos e reorganizar para seguir em frente com os próximos compromissos. Esse show ocorreu em 24 de fevereiro de 2002, e com cerca de 200 pessoas na plateia.

Mas ainda no domingo, haveria um último problema. O dono da casa, que se revelara um espalhafatoso anfitrião quando da nossa primeira visita ao seu estabelecimento, desta feita estava bem carrancudo e nem quis tratar do acerto monetário com a banda, delegando tal função para a sua filha, que mal havia saído da adolescência. 


Até aí, tudo bem, sem preconceito pela questão da pouca idade da moça, mas quando a conversa iniciou-se, havia uma reclamação por parte da casa, sobre o nosso atraso e diante disso, uma nova situação de acerto financeiro não acordada anteriormente estava sendo colocada pela mocinha.

Ora, de fato, atrasamos bastante, mas isso causara apenas a perda do soundcheck de nossa parte, pois quando estacionamos na porta do estabelecimento, a banda de abertura ainda nem estava tocando, portanto, não seria esse o fator pela frequência mais baixa do que a ocasião anterior, de dezembro de 2001.

E outra : falando especificamente dessa baixa frequência naquela noite, muito dessa situação era culpa da própria casa, pois era óbvio que não se empenhara em fazer uma divulgação adequada na cidade, aliás como a maioria das casas noturnas, que geralmente se limitam a deixar um cartaz anunciando as próximas atrações num mural e no site do estabelecimento.

Mas claro que era mais uma contrariedade e nesse caso, envolvendo dinheiro e com todas as despesas extras que tivemos com a manutenção do ônibus, era insuportável ouvir a argumentação pífia da parte da casa, tentando quebrar um acordo previamente feito em outros termos. 


Claro que os ânimos se acirraram e nesse momento o dono apareceu e instaurou um barraco, deixando o clima insustentável. Pagou-nos o que pleiteava com essa quebra de acordo compulsória e o clima só não partiu para as vias de fato porque ele usou de força, e diante de tal atitude, era melhor ir embora com a quantia de dinheiro injusta no bolso, a ter outra desgraça para contabilizar nessa história.

Eram três horas da manhã, quando paramos para um café numa loja de conveniência de um posto de gasolina, ainda dentro daquela cidade. Estávamos calados, sem forças nem para reclamar de tudo o que ocorrera, naqueles últimos dias.

Foi quando entramos no ônibus e o "Seu" Wagner nos disse uma coisa aparentemente reconfortante : -"Sei que estão todos chateados e cansados, por isso, agora deixem comigo. Durmam, e eu acordo vocês quando estivermos entrando em São Paulo".

Ninguém desejava outra coisa naquele momento, e claro que apagamos, todos.

Mas aquela era a tour do azar e ainda haveria a cereja do bolo...



Continua...

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