sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 177 - Por Luiz Domingues


A negociação para decretar a dissolução da parceria entre a banda e o sócio/motorista não foi fácil, pois ele endureceu na sua pretensão, misturando as coisas, no sentido de que não era só o dinheiro que lhe interessava. 

Realmente, na sua concepção, nós o havíamos "ofendido" por atitudes de "falta de companheirismo" e turrão, foi se fechando nessa falsa compreensão dos fatos, levando portanto tal disputa para o lado pessoal.

Aqui cabe destacar que não distorcendo de forma alguma os fatos, mas sendo absolutamente realista, o fato é que nada fizemos para justificar essa interpretação errônea da parte dele, e a relação azedou sem uma razão concreta para tal.

Todavia, por ter azedado, tornou-se irreversível pela incompatibilidade total entre as partes, e assim, não cabia uma boa conversa de reconciliação e lavagem de roupa suja, mas o melhor a ser feito para todos, era desfazer a sociedade e cada um tocar a vida longe do outro.

De nossa parte, o ônibus era um mal necessário, pois não obstante ser um poço de problemas permanente por conta de sua cara manutenção e nossa total inexperiência para lidar com isso, era também o fator facilitador para fazermos turnês constantes, um luxo para uma banda que a despeito de sua dignidade histórica, estava no underground da música. 

Por isso, com a posse do veículo, poderíamos seguir na estratégia das turnês, minimizando custos, antes impossível de se obter pelo fato de ter que incluir o preço altíssimo do aluguel de vans ou micro-ônibus no cachet, e afugentando contratantes, como consequência.

Nas primeiras rondas de negociação, quando percebeu que queríamos o carro a todo custo, o ex-sócio endureceu e fez de tudo para nos atrapalhar. Pediu um preço absurdo, mais para sabotar a negociação do que para tentar obter um lucro real nessa história.

Mas nós insistimos, e acabamos fechando o negócio, mesmo com ele se contrariando.

No dia em selamos o negócio, ele ameaçou cancelar tudo, quando exigimos que a entrega dos cheques de nossa parte fosse realizada num cartório de notas, com ele transferindo o documento de posse, de forma oficial para nós.

Ele enervou-se, alegando que só um louco faria isso, pois o correto era quitar o último centavo, para depois efetuar a transferência. Isso não era um conceito errado, sob o ponto de visto da legalidade de uma negócio. Considerando que vivemos num mundo de golpistas e velhacos por todos os lados, e que ninguém confia em ninguém, ele tinha razão em sentir-se inseguro com a nossa exigência. 

Contudo, nossa intenção era honesta e claro que os cheques seriam honrados. Nem passava pela nossa cabeça qualquer outro tipo de atitude do que a da lisura no compromisso, mas vendo pelo nosso lado, não é que desconfiássemos dele, embora também teríamos o direito de desconfiar, seguindo o mesmo raciocínio moral. 

Contudo, nossa real necessidade era a de que precisávamos do ônibus com documentação legalizada em nosso nome urgentemente, para podermos viajar com tranquilidade, e não corrermos riscos em eventuais blitz nas estradas, com o documento registrado no nome de uma pessoa que não fazia parte de nossa comitiva, e todo problema inerente que tal situação poderia gerar e nos atrapalhar muito.

Foi um clima e tanto, num cartório localizado no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Ele chegou a gesticular e se exaltar, mas não de forma hostil, mas apenas demonstrando seu inconformismo com nossa posição.

Após alguns minutos e vendo que eu e Marcello estávamos irredutíveis na condução da negociação, finalmente sentou-se na frente do tabelião, e assinou a documentação, apanhou seus cheques e assim, selamos a dissolução da nossa parceria.

Estávamos felizes pelo desfecho dessa etapa, e aliviados por termos assegurado o ônibus como patrimônio da banda, mas sobretudo como alavanca importante de nossa possibilidade de excursionar.

Nos livrarmos do ex-sócio também era um alívio, e aqui cabe dizer que meu objetivo não é demonizá-lo de forma alguma, mas deixo claro que não era a pessoa ideal para termos como parceiro e certamente ele devia achar o mesmo em relação à nós.

O primeiro desafio era premente...ele viera com o ônibus para a entrega oficial sendo assim, pegou suas folhas de cheques e nos deixou os documentos e a chave do carro...

Nenhum de nós se aventurava a pilotar o carro, ainda que no meu caso, tenha a licença classe "D", que me permite dirigir ônibus, mas nunca me aventurei a fazer isso. Não tenho experiência alguma com ônibus e caminhões, só conduzo carros de passeio.

Sendo assim, arrumamos um estacionamento adequado, próximo à casa do Junior, na Aclimação, bairro onde eu e o Rodrigo também morávamos, e nesse dia, um motorista da empresa do pai do Marcello, fez o favor de levar o nosso carro para lá.

Mas isso era só um quebra-galho emergencial. Não poderíamos contar com esse motorista, mesmo com ele se interessando pessoalmente, conforme nos confidenciou, mas impedido pelas suas funções na empresa, não poderia viajar conosco em hipótese alguma.

Arrumamos um lugar para estacionar o carro, mas precisávamos urgentemente contratar um motorista, e fazer uma revisão no veículo, que agora estava por nossa conta...

Continua...

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