domingo, 24 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 262 - Por Luiz Domingues


Musicalmente falando, "Sun City" não era a música mais adequada para sensibilizar os dirigentes de gravadoras, mas tinha um trunfo e tanto, no quesito letra. Acho que o Beto foi feliz em abordar o tema da segregação racial na África do Sul, pois era um assunto forte na mídia, naquele instante.

Claro que corríamos riscos e de fato, corremos, ao usar essa letra por ele escrita, com expressões que necessariamente a estigmatizaram como um verdadeiro panfleto, fora lhe carimbar na testa a data, literalmente, no verso "Em pleno 1986, sangue inglês"...

A causa era justa e humanitária, mas algumas colocações incomodavam-me e acho que ainda incomodam. A questão a meu ver, não era o fato de ter uma remota raiz britânica, tampouco um conflito de luta de classes como é insinuado na letra ("praia que só tem burguês"), mas a luta contra o segregacionismo, ainda que todos os fatores elencados, tenham alguma conexão entre si, é claro. 


O mote da letra foi uma inspiração direta àquela canção também chamada "Sun City", onde diversas estrelas da música pop oitentista cantaram em prol do fim da segregação racial na África do Sul. É bom relembrar ao leitor, que após o advento da canção "We Are the World", houve um modismo de canções engajadas por diversas causas humanitárias, e com vários artistas unindo-se para tocarem e cantarem, revertendo a renda etc etc. Essa tal "Sun City" que inspirou o Beto, não logrou grande êxito, e a canção em si não era grande coisa, mas a ideia da causa, despertou-lhe a atenção.

Sobre a nossa "Sun City", a parte musical era uma ideia do Rubens, e de certa forma repetia a fórmula de "Saudade", evocando o Hard-Rock em seu Riff. Ao contrário de "Saudade", onde exageramos propositalmente na simplicidade para soarmos o mais pop possível, "Sun City" tinha um pouco mais da sofisticação instrumental que a banda sempre imprimira em seu trabalho, costumeiramente.

Claro, de forma mais comedida do que o trabalho que desenvolvíamos anteriormente, mas ao menos pudemos "soltar um pouco o freio de mão", e ter algumas nuances da "velha" Chave do Sol, nessa canção. 


Acreditávamos na canção por três fatores básicos : 

1) O riff criado pelo Rubens, era (é) muito bom; 

2) O tema da letra tinha tudo para inflamar as pessoas pelo seu ideal humanitário e nobre; e 

3) O refrão era bem pegajoso e já projetávamos as pessoas cantando-o a plenos pulmões, nos shows ao vivo, junto com a banda.

Não tenho dúvida, falando em termos de percepção atual (quando escrevi este trecho em 2014), que foi a mais bem sucedida canção dessa demo, e se tornou um dos grandes hits da banda, doravante, ao lado de "Luz"; "18 Horas", e "Um Minuto Além". Creio que  "Sun City" foi um dois maiores trunfos da carreira da Chave do Sol, ao lado das três outras que citei.

Falando especificamente dessa gravação da demo de abril de 1986, acho que há uma falha estrutural nesta versão. Sabe quando um doce derrete na boca de tão gostoso que é ?


Pois é, para ficar ainda mais gostoso, a doceira resolve dobrar a quantidade de açúcar da receita, e quando a pessoa vai experimentá-lo, percebe que a nova versão do doce piorou...

Curtimos muito o refrão "pegajoso" quando a música ficou arranjada e o gravamos de forma dobrada, com 8 módulos de repetição. Em nossa santa ingenuidade, e na ausência de um produtor que enxergasse o exagero nocivo, nessa versão o refrão ficou muito enjoativo. Parece mesmo um disco arranhado, de tantas vezes que repete a mesma frase : "Não pode haver Sun City"...

Corrigimos esse excesso, quando a regravamos na segunda demo que produzimos em 1986 (logo mais vou contar tudo sobre a segunda demo, de outubro desse mesmo ano), e em 1987, mantivemos a versão reduzida de repetições do refrão, quando da gravação da música de forma oficial para o LP The Key.

http://www.youtube.com/watch?v=aRX9IYwMBp0

Continua...

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