quinta-feira, 7 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 254 - Por Luiz Domingues


Passado esse show em Aguaí, estávamos novamente sem empresário, mas analisando friamente, e com todo o respeito à boa vontade da moça, estávamos na verdade, sem, mesmo com sua presença no cargo.

O próximo compromisso seria o último de 1985, e tratava-se de um contato iniciado pelo Beto Cruz, que agregava mais essa qualidade à banda, ou seja, ele tinha iniciativa e contatos.

Seria um show a ser realizado numa casa noturna e a novidade, era que o dono do estabelecimento teve a iniciativa de contratar-nos com o intuito de fazer uma experiência. Tratava-se de uma casa bem montada e localizada, mas acostumada a abrir suas portas para apresentações de bandas cover.  Claro que tal intenção era salutar e curtimos fazer parte desse balão de ensaio, torcendo para dar um público legal, e assim o dono tornar uma rotina a apresentação de bandas autorais. 


Chamava-se "Café Brasil" e a localização era excelente, na Rua Santo Antonio, quase esquina com a Rua 13 de maio, o grande local de agito noturno no bairro do Bexiga, aqui de São Paulo.

Mas nessa experiência, não estaríamos sozinhos e portanto, o Beto teve a ideia de transformar o nosso show numa festa de fim de ano, com certeza já alertando diversos colegas nossos para a oportunidade nova que a casa oferecia e ao mesmo tempo, tratando de vitaminar o interesse do público, com a presença de alguns convidados para lá de especiais.

Nesses termos, fizemos o nosso show quase normal, pois cedemos um pouco do nosso espaço para mini shows do Centúrias; Harppia, e Golpe de Estado, o que foi muito legal ! 


O Golpe de Estado, aliás, fazia um de seus primeiros shows como banda recém montada. Tinham poucas músicas compostas ainda e justiça seja feita, o Beto Cruz foi um elemento importante para que a banda fosse formada, pois indicara o guitarrista Hélcio Aguirra para Paulo Zinner e Nelson Brito, que há pouco tempo haviam retornado de Londres, onde moraram por alguns meses. E a dupla levou Catalau para pilotar os vocais, pois o conheciam desde o início dos anos oitenta, quando formaram o Fickle Pickle, ou melhor, deram continuidade ao trabalho, pois essa banda existia desde os anos setenta.

Enfim, dera super certo a junção de um guitarrista egresso do Heavy-Metal (Harppia), com forte influência de Black Sabbath, UFO e Judas Priest, com uma cozinha ultra antenada em Rolling Stones, Deep Purple e The Who e um vocalista super influenciado em Alice Cooper e Mick Jagger.

A noitada foi excelente no Café Brasil e o dono animou-se. Daí em diante, agendou shows de bandas autorais, ao menos uma vez por semana, tornando sua casa, num outro espaço legal para o Rock autoral na cidade de São Paulo.

E A Chave do Sol voltaria nessa casa no ano de 1986, por mais duas vezes, conforme comentarei no momento oportuno.

Essa primeira oportunidade no Café Brasil ocorreu no dia 22 de dezembro de 1985, e 80 pessoas assistiram o nosso show e os mini shows das bandas citadas.

Terminava o ano de 1985 e novamente estávamos cheios de esperança para o ano de 1986, e sobretudo, com a certeza de que as mudanças que estávamos promovendo, nos colocariam em condições de pleitear enfim, dias melhores para a banda. 


Permito-me fazer um balanço com poder de análise, e embasada pelo distanciamento histórico :

Chegamos ao final de 1985 com mais uma mudança radical de planejamento. Exatamente um ano antes, estávamos fechando 1984 na mesma situação, num misto de euforia pelas perspectivas, com preocupação pelas mudanças que precisávamos empreender .

Tínhamos uma carência vocal que achávamos crucial para poder aspirar um lugar no mainstream, daí demos muita sorte em achar o Fran Alves, num momento em que ele se colocara em disponibilidade, e pouco tempo depois de termos perdido o vocalista gaúcho, Chico Dias.  


Os boatos que cercavam a proximidade do Festival Rock in Rio, davam conta de que uma nova onda de Rock chegaria, e nela, ao contrário da onda em voga e oriunda do Pós-Punk, nós teríamos uma chance.

Não era nada confortável para nós, mas era menos invasivo e doloroso do que o Pós-Punk, esse sim, intragável para nós, por motivos óbvios.

Contudo, o Festival Rock In Rio passou, e nenhum indício muito claro surgiu, dando a entender que as gravadoras majors, abririam cast de Rock pesado em seus quadros. Pelo contrário, continuou sua toada em prol do pop, com a estética do Pós-Punk dando as cartas.

Com isso, nossos esforços em mudar nosso trabalho, imprimindo peso extra, fracassaram e nos trouxe alguns prejuízos. Não agradamos fãs nossos antigos, que nos curtiam com a vestimenta do Jazz-Rock setentista. E esse mal-estar explodiu com maior truculência nas mãos do novo vocalista, Fran Alves.

Este por sua vez, era um tremendo vocalista, e pagou o pato dessa incompreensão generalizada.

Como saldo, ficou a necessidade de uma nova e radical mudança, e no bojo, perdemos Fran Alves, o que não era parte do plano de novas mudanças.

E novamente trocamos de vocalista e roupagem estética, repetindo o padrão da mesma época do ano, em 1984.

Claro, assim como estávamos esperançosos no final de 1984 com as providências que estávamos adotando, chegávamos ao final de 1985 na mesma situação, o que era sintomático. 


Vendo hoje em dia (2015), está claro que nos faltou um direcionamento orientado por alguém que realmente conhecesse o mercado. Empreender tantas trocas de membros e orientação artística da banda, só nos prejudicou em todos os sentidos.

Como consolo, fico com a consciência tranquila de que fizemos o que achamos melhor na época. Faltou-nos apoio de algum consultor realmente de visão, e não posso me penitenciar por isso.

Analisando friamente, talvez jamais teríamos que correr tanto atrás de um vocalista. Pense bem, leitor, que cantor do BR-Rock oitentista, era realmente um grande vocalista ? 


Nós sonhávamos com um frontman de nível internacional, baseado em nossas percepções sessenta-setentistas, mas duas perguntas me ocorrem hoje em dia  : 

1) Para que ? e; 
2) Onde achá-los ?

O "para que" é emblemático por si só, pois sendo práticos, o vocal do Rubens teria sido suficiente para suprir necessidades pop de mercado. O próprio Zé Luis tinha potencial vocal, e nós três fazíamos back (ainda que no meu caso, eu reconheça que só fui melhorar depois do Sidharta, em 1997, e aprimorar ao vivo com a Patrulha do Espaço, a partir de 1999).

Isso é uma análise fria e calculista. Que fique bem claro que não estou chorando sob o leite derramado. E jamais pense o leitor que lamento a presença de Fran Alves no line-up da banda, pois foi importante demais para a história da banda e onde deixou sua respectiva marca, de forma indelével.


Até a tentativa com Chico Dias foi válida e no início da narrativa, deixei claro que lamentei que Verônica Luhr não tivesse prosseguido como vocalista de banda, pois seu potencial era o de uma estrela, e em condições, com produção e apoio, ela teria suplantado em milhas, vocalistas femininas muito inferiores a ela, e que tornaram-se estrelas do BR-Rock oitentista.

Por conseguinte, a entrada de Beto Cruz também jamais poderá ser questionada, tanto pela tentativa em si de mudança de estratégia da banda, quanto pelas qualidades artísticas dele, pessoalmente, e o quanto agregou como vocalista; frontman; compositor, e sobretudo pela força de trabalho que trouxe para a banda.

Encerrando, chama-me a atenção que num espaço de apenas um ano de distância, estivéssemos repetindo o mesmo padrão de expectativas e de providências.

Assim encerrou-se 1985...


Todas as fotos ao vivo são do Show de Aguaí. Clicks de Rodofo Tedeschi "Barba", e com a devida ressalva de que foram extraídas de um contato, daí a falta de qualidade técnica

Continua... 

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