domingo, 24 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 265 - Por Luiz Domingues


Depois de gravada a fita no referido estúdio, nos movimentamos para preparar o material de divulgação. Não queríamos incluir o EP de 1985 no pacote de tal material, por motivos óbvios, e amplamente já comentados anteriormente.

Mas a não inclusão do EP de 85 no pacote, praticamente inviabilizava a presença do compacto de 84, e explico o porque : por nossa própria culpa, tantas mudanças de formação e sonoridade em tão curto espaço de tempo, poderiam denotar aos executivos de gravadoras, um aura de instabilidade emocional e dessa forma, a má impressão decorrente de tal comportamento, poderia prejudicar nossa imagem.

Portanto, a ideia seria a de centrar o áudio sobre as músicas novas da demo, e as menções aos discos oficiais lançados, se dariam através das matérias e resenhas do portfólio em anexo, além do release e histórico, tão somente.

Além dessas peças básicas, seriam incluídas algumas fotos da banda em caráter promocional, e estava pronto assim, o material que seria entregue às gravadoras. 


Tínhamos pressa e segundo o Charles Gavin, ele só poderia nos ajudar intercedendo pessoalmente a nosso favor, dali há algumas semanas, graças à sua agenda de compromissos muito cheia, com os Titãs.

Então, burlando a prudência, decidimos fazer o pior tipo de abordagem possível, ou seja, nós mesmos tomarmos a dianteira.

Essa é de fato, a pior maneira de tentar uma abordagem profissional, porque é bastante nociva a ideia do próprio artista tentar fazer um contato desse nível. 


O bom tom nesse tipo de negociação, é que alguém faça a abordagem sem a presença do artista em questão, ao menos nos primeiros contatos. O ideal é a presença de um empresário, manager ou agente. Numa segunda instância, um produtor, pelo menos, mas nunca o artista em pessoa, pois denota amadorismo.

Ignorando tal praxe do metiér, combinamos de levar tal material ao Rio, assim que o material estivesse pronto. Tínhamos a pressa, pois o tempo urgia e desde 1984, a obsessão em entrar numa gravadora major nos assolava psicologicamente, digamos assim.

Tínhamos na cabeça o objetivo de ter enfim a infraestrutura que uma gravadora major oferecia aos artistas, e naquela época (e desde décadas passadas), realmente, estar no cast de uma gravadora major era o sonho de consumo de qualquer artista. O nível de investimentos e mordomia que se desfrutava numa situação dessas era muito grande, e indo além, determinante para catapultar carreiras. 

Estar numa gravadora grande era ter o respaldo de um plano de divulgação complexo. Era a certeza de estar agendado nos mais populares programas de TV; ter execução radiofônica maciça; estar nos principais jornais e revistas; e daí, poder ter uma agenda de shows poderosa. 

Fora a óbvia possibilidade de ter uma distribuição competente de seu disco nas melhores lojas, e por todo o país. E nesse tempo, não ter uma distribuição competente era quase um estrangulamento para a carreira do artista. Daí o drama em ficar independente por muito tempo, e amargar ter que habitar a segunda, ou terceira divisão da música profissional...

Víamos amigos nossos que estavam no mainstream e as histórias que contavam de suas mordomias, nos fascinavam a imaginação. Ter a estrutura que eles tinham ao nosso dispor também, era a nossa meta. 


Então, quando o material ficou pronto, o Zé Luis prontificou-se a ir ao Rio, levar tal material diretamente nas mãos do Liminha. 

Como ele tinha uma de suas irmãs morando em Ipanema (Eliana Dinola), tinha infraestrutura para hospedar-se, fora o apoio logístico e emocional que teria, e de fato, a irmã dele torcia para nós com bastante entusiasmo, e nos ajudaria outras vezes além dessa.

Com a mochila contendo dois materiais completos, lá foi o Zé Luis para o Rio em abril de 1986, rumo à WEA, e também à BMG-Ariola, onde de última hora surgira uma pessoa que tinha um contato bacana em tal gravadora.

Continua...

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