sábado, 30 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 289 - Por Luiz Domingues


Ainda falando os números do jornalzinho, a edição número três saiu em janeiro de 1986, conforme já esclareci no capítulo anterior. 

Desta vez, a grande novidade era a mudança no line up da banda, com a saída de Fran Alves e a entrada de Beto Cruz.

E a ênfase era sobre uma mudança radical que causaria uma guinada na orientação musical da banda, praticamente descartando o repertório do EP, como se estivesse enterrando uma fase da banda, aliás, foi isso mesmo o que aconteceu.

Os itens do jornal foram :

1) Disco : A despeito de praticamente anular o EP com a nova fase, claro que o promovíamos como última novidade fonográfica da banda e não poderia ser de outra forma. Uma frase de efeito que escrevi, tem um baita de um ranço de despeito, que atribuo à falsa compreensão de que éramos "injustiçados" por não ter chances nas gravadoras majors. Não pela banda em si, que é claro que reunia condições técnicas. Aliás, por esse quesito, com todo o respeito aos maiores expoentes do BR-Rock oitentista que estouraram no mainstream, o nível baixíssimo das bandas que usufruíam dessas benesses do sucesso mainstream não tinham condições de rivalizar conosco, e essa sensação de "injustiça" acabou virando um paradigma para nós. Mas, vendo pelo lado real da indústria fonográfica/mídia e formadores de opinião, como poderíamos pleitear um espaço no mainstream com o som que fazíamos ?

Nem a fase Jazz-rock fazia sentido nesses termos, com todas aquelas firulas que fazíamos nos arranjos super anticomerciais e fora da estética do Pós-Punk, obviamente, aliás, era um contraste, se levarmos conta que tal estática que dominava (domina até hoje !!) a formação de opinião do mercado, prima pela rudeza musical acima de tudo...

E talvez pior ainda ficamos ao adotar o peso do Hard-Rock e do Heavy-Metal, afugentando ainda mais as nossas chances de ingressar nesse seleto rol de artistas que contavam com apoio de uma gravadora major e por conseguinte, de todas as suas mordomias.

Agora, a frase lapidar que proferi, onde fica claro a "síndrome de inferioridade"que nos acometia naquela época :

"O EP da Chave continua vendendo bem, mesmo sem o aparato monumental das grandes multinacionais, o disco está vingando. Dá-lhe Chave !!"    


2) Rádio : Comentamos sobre mais uma série de emissoras/programas que nos
deram força, como : "Os Rapazes da Banda" (USP FM); Globo FM Rio; "Rock 98" (98 FM Presidente Prudente/SP); Beira Mar FM (São Sebastião/SP), 89FM de São Paulo, e "Highway"(Bandeirantes FM).

3) TV :
Anunciamos a 6ª aparição na TV Gazeta de São Paulo, enaltecendo o fato de que duas dançarinas "esculturais" haviam participado da palhaçada habitual da dublagem. Foi verdade, mas meramente ocasional a participação das duas garotas, que aliás, eram razoavelmente famosas na época, por conta da suas respectivas participações em vários comerciais da TV e campanhas publicitárias em revistas, também.

Outra notícia que demos, era que a TV Cultura estava reprisando números musicais isolados da extinta "Fábrica do Som", todo dia, na faixa das 19:30 h.

E o ponto alto da nota, a meu ver, foi a advertência dada aos fãs-leitores :

"Devemos esclarecer aos fãs que todos os programas de TV que nós dissemos que a Chave iria aparecer no informativo nº2, e não vingaram, não foi por culpa nossa ou da banda, mas sim dos produtores dos referidos programas que hipocritamente fazem promessas e não as cumprem".

Ha ha ha ...que "chororô" !!

A alfinetada foi para alguns programas que davam como certo a nossa participação, só faltando acertar data e que misteriosamente
desmarcaram-nas.

4) Revista : Uma relação de matérias recém saídas em revistas importantes, como Roll, Metal, Bizz, Rock Stars, Som Três e o anúncio de que sairíamos em breve no poster da Revista Som
Três.

5) Shows : Uma descrição de como foram os shows de
lançamento do EP, algo que deveria ser o ponto mais alto do jornal, mas soava anacrônico com apenas três meses de defasagem do fato anunciado, pois falava do lançamento de um disco que agora rejeitávamos veladamente e com a presença de um outro vocalista que nem era membro mais da banda....

6) Uma micro propaganda sobre souvenirs reforçava a ideia de que estávamos valorizando tal expediente.

7) Inauguramos uma nova coluna denominada "Perfil de Chave", dando a oportunidade para falar diretamente dos componentes da banda e mesmo tropeçando na ética, por que eu era o redator do jornal, rasguei elogios ao companheiro Zé Luis ,que aliás, era o diagramador do mesmo...

Assassinamos a ética com requintes de crueldade, mas o jornal era "chapa branca" assumido e havia uma atenuante, pois não assumíamos publicamente a autoria do trabalho, mas usávamos o nome de duas pessoas : Eliane Daic e Claudio T. de Carvalho.

Tais pessoas existiam de fato, não eram meros nomes inventados como pseudônimos. Eliane era namorada do Zé Luis e verdadeiramente, trabalhou como produtora da banda, principalmente entre 1984 e 1987, apesar de não ter qualificação pregressa para a função. 

Verdade seja dita, é que ela foi aprendendo com o tempo, e já em 1986, estava bastante funcional no cargo, nos ajudando muito.

E o Claudio, era o popular "Capetóide", amigo do Rubens desde o início dos anos oitenta, e que acompanhou a banda desde os primórdios.
Eliane Daic preparando uma explosão a ser realizada num show ao ar livre da Chave do Sol, em foto de 1986


A Lili (Eliane), ajudou muitas vezes nas tarefas do fã clube, principalmente quando de envelopagens de filipetas para o mailing. 

E o "Capetóide" muito nos ajudou em muitas circunstâncias, inclusive atuando como "ator" nas intervenções cênicas malucas que criamos para os shows de lançamento do compacto e do EP, respectivamente (1984 e 1985).

8) Equipamento : A novidade deste número era a nova guitarra do Rubens, uma Jackson. Essa guitarra era considerada sensacional nos anos oitenta, principalmente no nicho do Rock pesado, portanto causou furor quando o Rubens passou a usá-la ao vivo, pois nessa época só dois guitarristas a possuíam em SP e quiçá no Brasil : ele e Fernando Costa, o guitarrista do Inox.

9) "Fofoca" era uma outra coluna nova, onde eu imitava acintosamente a papagaiada que o Ezequiel Neves tinha em sua saudosa coluna na revista "Rock, a História e a Glória", nos anos setenta, falando de aspectos extramusicais dos músicos de Rock, como se vivessem num mundo de Jet set hollywoodiano. Era a minha maneira de homenagear o velho mestre fanfarrão do jornalismo musical brasuca...

Não inventei nenhuma mentira, mas valorizei coisas banais do cotidiano extramusical nosso, como por exemplo : "Rubens agora dedica-se à um esporte exótico, o arco e flecha". Era verdade, pois ainda no fim do 1985, ele passara a frequentar um Bar-Arqueria, que oferecia aos frequentadores a possibilidade de usar o arco e flecha, com direito à orientação de técnicos especializados, da Federação Paulista de Arco e Flecha. 

E na determinação de falar de dois membros a cada edição, falei que eu mesmo (ah, a quebra da ética, da modéstia e da falta de noção...), fora visto circulando pelas dependências do Pavilhão da Bienal, prestigiando a Bienal de Artes de SP, recentemente. Era verdade também, e fui mesmo, como vou em toda edição da Bienal, desde 1977...

10) Repertório : Demos nota que logo que o Beto entrara na banda, sua contribuição como compositor enriqueceu as possibilidades de composição e dessa forma, produziu muito rapidamente, uma série de músicas novas, e que isso realmente propiciou que déssemos uma guinada, abandonando o repertório base de 1985. Citamos "O Cometa"; "O Que será de Todas as Crianças", e "O Rock me fez assim", esta, aliás, uma música que foi rapidamente descartada, pois outras que consideramos mais fortes logo surgiram e ela foi suplantada.

Falo sobre o jornal nº 4 a seguir, e volto à cronologia, em seguida.

Continua...

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