quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 117 - Por Luiz Domingues


Na quinta-feira posterior, fomos à Santos, no litoral de São Paulo, com o objetivo de fazermos um show de choque numa casa noturna. Era na verdade um micro-festival onde bandas locais tocariam, e o dono do estabelecimento nos pediu para nos apresentarmos também, para dar um verniz à noitada, em meio à tantas bandas de jovens, sem muito apelo pelo fato de serem bandas iniciantes.

Bem, como já havíamos nos apresentado nessa casa algumas vezes, tal pedido soou como mais um favor, e camaradagem de nossa parte, do que uma data propriamente dita.


Todavia, por ter público e pelo fato de terem sido cobrados ingressos, claro que considero como uma apresentação oficial e entrou para as minhas anotações, e sei que o Junior também a computou, pois também tem o salutar costume de anotar tudo para os registros oficiais da banda.

Contudo, não anotei os nomes das bandas que se apresentaram. Com todo o respeito, eram bandas novas e se houvesse alguém com relevância artística à época, eu teria anotado.

O show foi curto, no formato típico do "show de choque". Tocamos apenas cinco músicas e as escolhidas foram apenas as de duas guitarras, eliminando assim a operação logística de montar a tecladeira para Rodrigo e Marcello usarem.

Ocorreu no dia 27 de setembro de 2001, no Praia Sport Bar, localizado na avenida da praia do Gonzaga.

Passados esses dois shows que relatei anteriormente, o ônibus finalmente foi para a sua fase de pintura. O azul "universo" que escolhêramos, era realmente bastante escuro. Parecia bonito por sua sobriedade e discrição, mas não havíamos pensado num detalhe crucial, que só a experiência da estrada nos faria entender : em viagens noturnas, essa cor tão escura seria um fator de risco e tanto.

Só percebemos isso quando começaram as viagens para valer, no final de 2001 e ao longo de 2002 e 2003, principalmente, mas são histórias que contarei na cronologia correta, certamente.

Por enquanto, prefiro recordar-me que o Brasil entrara num colapso energético sem precedentes naquela fase de 2001, e o "progressista" governo federal de então, decretara racionamento de energia elétrica que nem na segunda guerra mundial com seus blackouts, fora tão radical.

Todo mundo ficou apreensivo, pois cairia vertiginosamente como uma bomba no mundo do show business em geral. E caiu mesmo...

Sendo assim, com teatros e casas de shows cancelando eventos por conta dessa vergonhosa situação, temíamos também por uma queda de oportunidades, mas uma surpresa apareceria, e justamente motivada pela situação e dessa forma, realizando um verdadeiro contraponto à falta de energia.

Ocorreu que a produtora Sarah Reichdan nos contactou com uma proposta exatamente que ia de encontro com essa perspectiva de andar na contramão da crise energética, e assim, pelo contrário, nos aproveitarmos dela...

Como isso seria possível para uma banda ultra elétrica e rocker como a Patrulha do Espaço era normalmente, e ainda mais nessa fase onde evocávamos valores sessenta-setentistas ao extremo em nossa música ?

Bem, a proposta dela era bastante bizarra em princípio, mas no alto de sua loucura proposital, havia uma possibilidade de dar certo, exatamente por esse exotismo, e claro que nós paramos para ouvir e logo embarcamos na aventura umplugged...

A Sarah era uma produtora que estava no mercado que vinha de experiências nesse setor, há quase dez anos naquela altura. Portanto, tinha seus contatos e apesar da ideia parecer maluca em princípio, havia fundamento.

Para entender a proposta desse show acústico, é preciso retroagir um pouco para o leitor ver que ela era uma produtora não só de contatos, mas suas ações eram pautadas por ideias e muita determinação em fazê-las "acontecer".

O Júnior já a conhecia há tempos, mas eu a conheci em 1999, mais ou menos quando a Patrulha dava seus primeiros passos com a nossa formação. Sabia que ela havia sido tradutora oficial de artistas famosos do Rock internacional, principalmente os ditos "dinossauros" setentistas que aqui apareceram nos anos noventa. 

Graças ao seu bom inglês e sua simpatia natural, logo ganhou a confiança de muitos artistas e produtores gringos e dessa forma, foi emendando trabalhos bons, assessorando bandas como o Jethro Tull, Deep Purple, Page & Plant e muitos outros artistas internacionais que vieram ao Brasil na década de noventa.

Logo foi travando contatos e se envolvendo com produção musical, se apaixonando pela profissão e com grande vontade de crescer nessa carreira e se tornar um dia, uma empresária, de fato.

Seu talento para a produção era nato e como "road manager", ela demonstrava desenvoltura, que me lembrava a Cida Ayres, a ótima produtora que trabalhou com o Língua de Trapo e deu muita força para A Chave do Sol nos anos oitenta.

Em 1999, quando a conheci, estava agendando shows para a banda alternativa que o baterista Paulo Zinner tinha formado, chamada "Paulo Zinner Orchestra", que basicamente tinha o objetivo de tocar covers de Hard-Rock setentista pela noite de São Paulo.

Mas ela ambicionava passos maiores na carreira e logo se aproximou da Patrulha. Num primeiro instante, no início de 2000, ela tentou alguns agendamentos, mas não logou êxito imediato.

Sendo assim, em 2001, numa nova abordagem, conseguiu uma data no Sesc Pompeia, que muito nos animou. Contudo, na negociação, algo deu errado, pois a produção daquela unidade mudou de opinião repentinamente e fez uma exigência de última hora, denotando que não acreditava que a Patrulha pudesse levar um grande público ao teatro.

Dessa forma, cogitaram a presença de um outro "dinossauro" setentista para dividir a noite conosco, como condição sine qua non...


Continua...

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