domingo, 27 de setembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 38 - Por Luiz Domingues


Então o dia chegou, e foi naturalmente uma reunião tensa.  

Nossos argumentos eram difíceis de engolir na concepção dele, eu admito. 

Mas por mais incrível que pareça, eram sinceros, e nada havia de pessoal na nossa decisão de eliminar a canção dele do disco. Não se tratava de uma música ruim, mas destoava completamente do bojo do nosso trabalho, analisando friamente e como estávamos investindo muito seriamente nesse projeto, não poderíamos tocar a vida adiante jogando um problema desse porte para debaixo do tapete. 

Sem saída, percebendo que estávamos irredutíveis nessa decisão, o Alex comunicou sua decisão de sair da banda, evidentemente sentindo-se tolhido pelos demais. 

Naturalmente, apesar de o consideramos uma pessoa bem legal, e um excelente baterista, tínhamos no nosso íntimo, a certeza também que nossa incompatibilidade artística era enorme. 

Esperar uma mudança interna da parte dele seria utópico. E por outro lado, seria um fardo tocar a banda adiante com um membro desmotivado, sem fé no trabalho e por que não dizer, com o perdão pelo termo chulo empregado : sem tesão. 

Esse era outro ponto que nos incomodava a reboque, pois o Alex sentia-se desconfortável toda vez que tocávamos no assunto de tocar ao vivo, e assim, todos terem que fazer sacrifícios iniciais inevitáveis etc. Isso certamente era outro sinal de falta de fé no projeto, pois lamentava perder uma data, deixando alguma de suas bandas cover sem tocar, ou no mínimo tocando com um baterista substituto que poderia ser um concorrente em potencial ao seu emprego. 

Não acho nada disso descabido, sob o ponto de vista pessoal dele. 

Contudo, para o trabalho que estávamos construindo ali, era necessário uma cota mínima de sacrifício pessoal naquele instante inicial, e sobretudo ter uma conduta mental focada no mesmo objetivo. E no caso do Alex, ficou claro por suas atitudes desconectadas com os princípios do trabalho que construíamos. 

Ele ficou chateado, com toda a razão, mas nós também, evidentemente. O ideal seria ter formado uma banda com membros 100% antenados no mesmo ideal, mas o Xando, que foi o catalizador inicial do projeto, e mentor do movimento inicial recrutador, fez o melhor que pôde.

Ao escolher o Alex, tinha a lembrança do ótimo baterista que tocara com ele no Big Balls, durante os anos 1990, é claro, mas não ponderou se seria o nome ideal para uma banda de proposta tão diferente. 

O mesmo raciocínio se deu em relação ao Tadeu Dias; Marcelo Mancha, e um primeiro baixista que escolheu, Fábio Mulan, que ficou pouquíssimos ensaios no projeto, e debandou. 

Eu mesmo fui então a segunda opção para o baixo, e tanto Marcelo Mancha quanto o Tadeu Dias, também saíram relativamente cedo. 

Conclusão : não é fácil formar uma banda !!

Se levar só em conta a condição técnica de um músico, você pode se surpreender negativamente com outros aspectos. O caráter da pessoa pesa muito e seus objetivos pessoais também. 

Neste caso, sobre a parte técnica e o caráter do Alex, não haviam dúvidas, mas quanto aos ideais, havia um conflito.

O ideal seria ter uma mentalidade artística 100% afinada com o objetivo do trabalho. 

Portanto, são muitas as variantes e inevitavelmente deixamos a desejar em um ou outro aspecto, porque os seres humanos são complexos e não robots com "configurações" prontas da fábrica.

Todas as fotos são de Grace Lagôa

Continua...

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ahhh,Luiz, não aposente nunca,continue a nos brindar com as belas sonoridades dos seus baixos!!

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    1. Fala, Rogério !

      Que legal a sua visita no meu Blog !

      Já pensei em fazer isso, mas apesar das adversidades, sabemos, eu e você que o vírus que nos contaminou lá atrás, causa um estrago eterno...difícil largar a música, tem razão !!

      Vamos levando, na medida do possível, suportando as dificuldades e tentando dar ao mundo, um pouco de beleza através da música.

      Grato, por ler e comentar !!

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  3. Que coisa...eu conheci o Alex no início dos anos 90(bem antes do Big Balls)quando ele tocava em uma banda chamada Steel Blazon(onde o vocalista era o bom Conrado Ledesma,vulgo 'Bonzo')
    Ele era bem jovem e já tocava bem,inclusive toquei algumas vezes em sua bateria revolution drums numas canjas em bares.
    É bem baixinho(também tenho 1,65m)
    Mas um cara muito bacana,foi bom relembrar dele,fiquei feliz em saber que fez parte dessa otima banda Pedra. E igualmente triste em saber que não deu certo.
    Luiz, essa sua autobiografia é simplesmente fantástica, dificil parar de ler,interessante demais,maravilhoso saber da sua trajetória na música!
    Grande abraço!!

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    1. Prosseguindo...

      Então, muito bacana o adendo que trouxe ao meu texto e que enriquece-o com informações sobre o Alex. Sabia desse trabalho dele, mas muito vagamente, através do Paulão Thomaz, que havia me contado, muitos anos atrás.

      O Alex é um cara bacana, de caráter, e como músico não tem o que dizer, é um excelente baterista.

      Ele só não se encaixava com a meta que o Pedra quis traçar logo no início, pois sonhava com um direcionamento muito mais pop, que nos colocasse em condições de brigar pelo mainstream das emissoras FM's; colocar músicas em trilhas de novelas da Globo etc etc.

      Para tal, mesmo que quiséssemos esse caminho, não bastaria fazer músicas preparadas para agradar a cabeça de produtores com esse tipo de mentalidade, mas sobretudo, seria preciso termos contatos forte dentro do sistema, coisas que não tínhamos.

      Uma pena mesmo que ele não se encaixasse 100 % no espírito da banda.

      Sobre a minha autobio, rapaz, que elogio bacana de sua parte !

      Como fico contente por saber que esteja acompanhando e curtindo as histórias e nesta altura, quase chegando aos 40 anos de carreira, são muitas, acumuladas...

      Muito obrigado por estar lendo, curtindo e também pelos comentários postados !!

      Continue acompanhando !!

      Abração, Rogério !

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