quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Autobiografia na Música - A Chave / The Key - Capítulo 34 - Por Luiz Domingues


Entramos em processo de gravação do álbum, em julho de 1989.

O Chicão, produtor, fechou acordo com um estúdio de bom nível, mas que não era badalado no meio. E exatamente por estar iniciando-se no mercado, praticava precificação mais acessível.

Contudo, tinha uma maquinário de primeira qualidade e suas instalações cheiravam a tinta, com tudo novinho em folha e instalado num belo e amplo sobrado no bairro do Alto de Pinheiros, que é um quadrante extremamente residencial do bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, e com a maioria das casas sendo de alto padrão, ou mesmo mansões.

Tal estúdio chamava-se : "Big Bang".

Um dos sócios era Marcelo Galbetti, membro do Premeditando o Breque, banda contemporânea do Língua de Trapo, egressa portanto daquela cena da "Vanguarda Paulista", surgida entre 1979 e 1982, mais ou menos.

O outro sócio, e que era dono do imóvel, chamava-se Marco Mattioli. 

Não ensaiamos muito, mas aquelas músicas eram bem rodadas, sendo que as tocávamos desde 1988 nos shows, portanto, não havia o que temer em termos de perda de tempo nos takes básicos de gravação.

A metodologia foi na base do um-por-um, portanto fizemos a captura da bateria mediante guia no primeiro e segundo dia, com o Rapolli gravando sua parte com bastante eficiência.

De última hora, resolvemos gravar "No Quarter" do Led Zeppelin, e claro que era inviável inseri-la no disco por conta da fortuna que seria ter que pagar as taxas à editora que controla tal canção, mas curtimos ter uma versão nossa dessa canção épica, talvez pelo simples prazer de ouvir em casa, secretamente.

Contudo, na hora da mixagem, claro que tal devaneio foi descartado e muito provavelmente essa versão foi apagada ali mesmo em 1989, assim que deixamos o estúdio e outro cliente foi usar as fitas, prática comum em estúdios profissionais.

A música "Before the Bridge Falls Down", era uma versão com outra letra de "Sun City", do repertório da Chave do Sol, e acho hoje em dia muito constrangedor que tal canção forjada nesses termos, tenha sido inserida no LP, embora muitas modificações na melodia principal tivessem sido efetuadas. 

Deveríamos na verdade, ter gravado uma música inédita e de fato, haviam várias que acabaram ficando de fora da seleção final, caso de "Paralell Paradise", que era um tema instrumental do Fabio Ribeiro, muito inspirado no Prog Rock setentista e bem bonito, na minha opinião.

Algum tempo depois, já em agosto, eu passei umas três horas da minha vida gravando a minha parte, sozinho com o técnico, Michael Angel, numa noite de sexta feira, quando me lembro que ficamos conversando animadamente sobre os anos setenta.

E nessa altura, era tudo o que eu queria, ou seja, voltar para as minhas raízes e me livrar da década de oitenta. 

O clip da música "When We Was Fab", do então mais recente disco do George Harrison, havia acabado de ser lançado, e aquele mergulho na nostalgia da psicodelia sessentista começou a me fazer crer que sim, era possível resgatar a minha verdade, e ela contrastava com o mundo oitentista hostil.
"Muito tempo atrás quando éramos fabulosos"...pois é, isso deu-me o "click" que eu precisava para dar um chute no pesadelo oitentista, e voltar a sonhar com minhas raízes 60/70...apesar de na letra da canção, Harrison não falar em nostalgia pelos anos sessenta, propriamente dita, para mim o efeito emocional foi esse, e daí, minha vida começou a mudar, de volta às minhas raízes. Não que as tivesse abandonado, isso jamais. Mas por um longo período (a década de oitenta inteira), convivi com a ideia de que tudo o que eu amava havia sido destruído 


Tal música e o disco inteiro do Harrison (Claude Nine), mais o LP solo do Keith Richards também recém lançado em 1989 (Talk is Cheap), representavam um fio de esperança para mim e o descarte do ranço oitentista em que me inseri por absoluta falta de escolha, estava prestes a ocorrer.

Um dissabor ainda na gravação da guia, reforçava tudo o que enfatizo. Ouvindo as convenções que eu e Rapolli havíamos criado para enriquecer algumas canções, o Edu pediu para não as gravarmos, mas fazermos uma base simples, pois julgava que aquelas frases o atrapalhavam nos seus solos.

Bem, reduzido à um baixo reto, quase sem frases, a gravação do disco tornou-se ainda mais penosa para mim.

Portanto, esse trabalho é certamente o mais simples que fiz em minha carreira inteira, com uma participação pífia, tocando baixo contínuo, numa nota só, na maior parte do tempo, de forma medíocre.

Aborreci-me tanto com isso e somado à toda a insatisfação acumulada desde 1988, que desliguei-me completamente dessa produção, fato raro e que me entristece, pois sempre gostei de acompanhar todo o processo.

Mesmo alheio e chateado, ainda acompanhei a gravação dos companheiros, para dar apoio moral, mas nessa altura, o Beto já sabia que eu estava desligado da banda.

Aliás, esse comunicado já havia sido feito antes mesmo de entrarmos no estúdio, quando ele pediu-me para eu gravar o disco. É claro que não o deixaria na mão, tampouco os companheiros e o produtor Chicão que estava super entusiasmado e gastando muito dinheiro.  

Lembro-me de ter visto o esforço que o Fabio fez para gravar várias camadas de teclados, inclusive alugando um órgão Hammond e sua respectiva caixa Leslie, do Fernando Costa, o "The Crow", que deu um trabalho incrível para ser levado à sala de gravação, que só era acessada mediante uma ínfima e perigosa escada espiral.

Portanto, o entendo perfeitamente quando dá entrevistas e se sente chateado pela mixagem ter arruinado quase que inteiramente seus esforços, transformando a participação dos teclados nesse disco, numa mera "caminha" harmônica chinfrim, que não condizia com a técnica e criatividade de um músico de seu nível.

De minha parte, nem tinha como me queixar da mixagem, pois não participei de suas sessões, já me considerando fora da banda. De fato, o baixo está "lá para trás", mas não importava-me muito, visto que as linhas são burocráticas, simples e sem atrativos.

Todo o trabalho de produção da capa e encarte foi feito pelo Beto e pelo Chicão. A escolha da ordem das músicas; o texto da ficha técnica e escolha das fotos, e até mesmo o título do álbum.

"A New Revolution" foi o nome escolhido para esse álbum.  
A capa foi obra de um rapaz chamado Marcos Aurélio, com o Logo a cargo de Sandra Regina Gonçalves Jacinto
 
Fotos da capa, de Eric de Haas, extraídas de dois shows no Dama Xoc, em São Paulo, em 1988 e 1989

Por problemas que eu nem sei dizer quais foram, pois já não era mais membro da banda, esse disco só foi lançado no mercado, muitos meses depois, no final de 1990, tornando sua divulgação extremamente confusa.

Não tenho um recorte sequer de jornal ou revista com uma nota ou resenha sobre o seu lançamento. Nem sei se saiu algo de fato, mas claro que deve ter saído.

Não sei dizer quanto tempo mais os demais membros ainda ficaram nessa banda, pois a partir dessa obrigação moral de gravar o disco, eu me despedi.

Creio que ninguém ficou, pois soube que o Beto iniciou imediata reformulação da banda.

Mas, por motivos dos quais também desconheço, que eu saiba, tal nova formação não chegou a fazer shows no final de 1989, tampouco no decorrer de 1990.

Contudo, por incrível que pareça, em outubro de 1990, quando finalmente o disco ficou pronto, o Beto me ligou para formular-me um pedido que era inacreditável pelas circunstâncias, mas que eu não poderia recusar em consideração a todo o esforço e sofrimento que esse amigo teve para manter a chama acesa...
Eis o link para ouvir tal álbum, "A New Revolution", em sua versão integral, no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=ZWpSUkxbthY

Continua...

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