sábado, 15 de agosto de 2015

Autobiografia na Música - A Chave / The Key - Capítulo 12 - Por Luiz Domingues


Voltei de Ribeirão Preto sem nada concreto (além de uma entrevista no jornal local e outra numa emissora de Rádio de Franca, cidade próxima), e muito pelo contrário, sem esperança de arrumar um show para a banda naquela cidade, tampouco em Franca.

Meus familiares que moravam nessas duas cidades, foram extremamente gentis em tentar me ajudar nesse sentido, mas os contatos eram efêmeros, infelizmente.

Bem, por outro lado, o Eduardo Ardanuy nos comunicou que havia feito um contato em nosso favor e havia a possibilidade de irmos à uma outra cidade interiorana paulista para um show. Seria em Espírito Santo do Pinhal, uma pequena cidade localizada perto de Campinas e de fato, esse show concretizou-se, mas ainda não é hora para falar dele (e que rendeu história).

Um show no Rio também estava sendo articulado, e nesse caso, graças aos esforços de nosso representante carioca, o Ricardo Aszmann, que intermediou uma negociação para uma apresentação no caverna II, tradicional reduto do Rock underground carioca, onde já havíamos nos apresentado duas vezes anteriormente, 1986 e 1987.

Mas o concreto mesmo é que teríamos um show a ser realizado num mini festival, em São Paulo, a ser realizado numa imensa área livre localizada no pátio da estação Brás do metrô.

Com apoio da Secretaria Municipal de Cultura e do próprio Metrô, a ideia era realizar festivais mensais nos moldes da antiga "Praça do Rock", com várias bandas se apresentando em shows de choque, em caráter gratuito para o público em geral.

Tal evento foi batizado como : "Estação Jovem".

A Chave se apresentou com as seguintes bandas : "Harppia"; "Violeta de Outono"; "365" e "Gueto". Portanto, pelo teor dessa escalação, era clara a intenção dos organizadores em tornar tal festival, híbrido, misturando bandas da cena pesada do Hard-Heavy, com atrações mais leves, seguidores da cartilha do Pós-Punk.

Mas cabe ressalvas, pois o Violeta de Outono se camuflava de Pós-Punk, quase que estrategicamente naquela década, mas seu comprometimento real, era com a psicodelia sessentista, sem nenhuma dúvida.

No caso do Gueto, se havia uma casca Pós-Punk no visual e no áudio de seu trabalho, sua sonoridade era muito mais próxima da cena pop britânica de metade/fim da década de oitenta, jogando doses generosas de R'n'B & Soul "pasteurizado e de branco", ao estilo de artistas ingleses como Style Council e Blue Rondo a la Turk, por exemplo.

E no caso do 365, os caras eram egressos da cena Punk oitentista, mas haviam aprendido a tocar, portanto, pareciam muito mais um The Clash, tendo alguns signos punks, mas com sonoridade palatável para tradicionalistas como nós que nunca engolimos a tosquice proposital do "Do It Yourself" como desculpa esfarrapada para amparar ruindade desoladora. Além do mais, os caras eram/são muito gente boa. 


Da parte dos "pesados", havia o Harppia, que professava o Heavy-Metal oitentista tradicional, e nós, comprometidos naquela altura, com o Hard-Rock pleno de virtuosismos "Malmsteenianos".

Um grande público compareceu ao pátio da Estação Brás do Metrô. 

Segundo o cálculo da PM, cerca de dez mil pessoas nos assistiram nessa tarde de um sábado, dia 30 de abril de 1988.

Os shows transcorreram sem maiores problemas, e o nosso, apesar de ser de choque, portanto com menor duração, foi bastante energético.

O público "misturado" não hostilizou ninguém, como seria de se esperar naquela década tão dividida por "tribos" com comportamento de torcidas uniformizadas de clubes de futebol.

Existe um vídeo das apresentações de todas as bandas, mas que até hoje não foi disponibilizado no You Tube. Sei que o baterista do Harppia, Tibério Correa, tem uma cópia, mas desconheço que o tenha postado.

Como de praxe, deixo a perspectiva de postá-lo aqui, se for possível, um dia.
Continua...

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