quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 127 - Por Luiz Domingues

Já com o segundo álbum em mãos, nosso próximo compromisso ocorreu novamente no interior de São Paulo, e numa ação pouco usual na vida do Pedra, infelizmente. No dia seguinte faríamos o show de lançamento em São Paulo, capital. Digo que era uma grande pena mesmo que uma banda com um trabalho pautado pela excelência artística que possuía, tivesse tão poucas oportunidades de estabelecer uma agenda sustentável e dessa forma, ter dois shows seguidos em cidades diferentes era uma exceção e jamais a regra, como merecíamos e queríamos, certamente. Bem, conjecturas em forma de lamentos à parte, lá fomos nós para Piracicaba em 17 de julho de 2008, para apresentarmo-nos na unidade do Sesc daquela cidade super pujante e bem aprumada.

Preciso retroagir um pouco, no entanto, pois existe uma pequena história pregressa para explicar o porque de conseguirmos um show no Sesc de Piracicaba, se ainda não havíamos tocado em nenhuma unidade dessa rede sociocultural na nossa própria cidade, São Paulo. Ocorre que meu primo, Emmanuel Barreto, havia morado uns tempos nessa cidade de 2007, até o o início de 2008, quando esteve empregado num estúdio de gravação e ensaios, ali recentemente estabelecido. Tal estúdio era de propriedade de uma amigo dele, que eu conhecia também e que fora dono de um estúdio em São Paulo, no final dos anos noventa, onde minha banda, Sidharta, chegou a ensaiar, e posteriormente, a Patrulha do Espaço, também fez seus primeiros ensaios, por volta de abril de 1999. O estúdio chamava´se "Alquimia" e ficava localizado no bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo, e o nome do rapaz era Claudio, apelidado "Formiga", e que aliás era um bom guitarrista.
Enfim, fazendo contatos com a cena musical da cidade, conheceu muita gente e logo foi apresentado à uma produtora do Sesc Piracicaba, e então começou a batalhar por uma data para o Pedra. Esse trâmite não foi nada fácil, pois não éramos famosos no mainstream e de nada adiantava argumentar que "éramos bons"; "éramos uma banda de Rock com elementos de MPB e Black Music, e não Heavy Metal" (como geralmente os leigos enxergam o Rock, generalizando-o como um barulho perpetrado por e para gente da faixa infanto / juvenil), etc etc. Jogo duro na negociação, finalmente a mulher agendou-nos, mas não colocando a menor esperança de que arregimentássemos um público mínimo, não escalou-nos no teatro como queríamos, mas num palco lounge, da lanchonete da instalação. Não é nenhum demérito tocar num ambiente assim nas unidades do Sesc em geral, pois a infra estrutura de palco e equipamento é de primeira qualidade, haja vista os shows que ocorrem normalmente na Chopperia do Sesc Pompeia ou na "Comedoria" do Sesc Belenzinho, ambas com estrutura melhor que muito teatro por aí.
Mas sem dúvida que nossa aspiração seria o Teatro, com a perspectiva das pessoas sentarem-se ali para nos ver / ouvir, e não para comer e beber ao nosso som de fundo...
Paciência, claro que aceitamos o agendamento e assim processou-se.
Fomos para Piracicaba no dia do show e com bastante tranquilidade. Viagem rápida (188 Km de São Paulo, apenas), estrada excelente e astral legal porque tínhamos dois shows para fazer nessa semana, portanto, a motivação era total. A unidade do Sesc é muito bonita, localizada num belo bairro residencial daquela cidade e próxima ao seu charmoso e famoso rio, o rio Piracicaba, cantado em prosa e verso, e cenário de vários esportes ligados à canoagem, pela sua forte correnteza. Passamos por uma banca de jornais a caminho e ficamos contentes por constatar que havíamos saído em vários jornais impressos locais, com boas matérias.
A tal produtora mostrou-se surpresa com isso, e nessa altura já devia estar caindo na real que não éramos uma banda de Pop Rock iniciante, mas tínhamos substância, história e resultados já registrados para contar, e claro que nosso show deveria ter transcorrido nas dependências do bom teatro da unidade, mas, paciência...
Montamos o backline e ficamos contentes por verificar que o técnico de som era extremamente simpático e competente. Rápido e eficiente, deixou-nos com um ótimo som de monitor no palco e um confortável som no P.A.. em se considerando que era uma situação diferente a de tocar num lounge de lanchonete ao invés de um teatro. Contou-nos várias histórias de artistas que havia sonorizado no teatro. Soundcheck feito com muita tranquilidade, fomos descansar e esperar a hora de tocar.
Havia um horário, é claro, mas pelas circunstâncias, não necessariamente as pessoas apareceriam ali para ver-nos. Sendo uma lanchonete, o entra e sai era frenético e tínhamos a total consciência de que poderíamos enfrentar todo tipo de situação adversa ali. Mas o rapaz, que chamava-se Danilo, disse-nos para ficarmos tranquilos, pois hostilidade ali era impossível. O máximo que poderia acontecer era uma debandada, se o som não agradasse e outro ponto, palmas e manifestações positivas como gritos e assovios eram raros. A cada término de música, a tendência era o silêncio. Ok, estávamos avisados...
Quando chegou a hora de tocarmos, o lounge tinha aproximadamente 100 pessoas presentes. Começamos a tocar e a cada fim de canção, poucas palmas e a maioria em silêncio. Muitos nem olhavam para nós, ignorando-nos retumbantemente.


"Saiu de Férias" no Sesc Piracicaba, em 17 de julho de 2008


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=3rjmyu-dM_o

Um rapaz que sentou-se bem na frente na primeira mesa, tomava café e lia um jornal. Era um jornal local e deu para ver nitidamente quando ele estava na página do caderno cultural onde havia uma longa reportagem sobre nós, com direito a uma grande foto da banda. Nem assim ele levantou a cabeça por um minuto sequer, por curiosidade tola que fosse, para checar se os sujeitos da foto éramos nós em cima do palco, tocando... hilário !! Finalmente após acabar de ler o jornal inteiro, levantou-se e partiu sem olhar para nós... ha ha ha !!
Fomos tocando, sem importarmo-nos com essas reações estranhas e quando o show acabou, o técnico disse-nos que fora um sucesso, pois apesar do quase silêncio nas mesas, haviam gostado, pois em contrário, teria ocorrido uma debandada em massa logo na primeira música e que isso era costumeiro ali...
Numa mesa, havia um casal e uma moça, que foram uns dos poucos que aplaudiam e sorriam para nós, vendo o show com atenção.  abordaram-nos e compraram os dois discos da banda. Haviam gostado e acho que tornaram-se fãs doravante...
Na van, voltando para a casa, o motorista do veículo, que era uma indicação do Rodrigo, havia mostrado-se sério, um senhor reservado, na viagem de ida. Mas na volta, mais ambientado conosco, começou a contar "causos" envolvendo clientes malucos que atendera em ocasiões passadas. Uma das histórias que contou-nos é impublicável aqui, e nem vem ao caso especificar, mas digo que foi uma das mais hilárias que já ouvi e gerou uma epidemia de gargalhadas que deixou-nos com os respectivos abdomens doendo, de tanto que rimos. Aos membros da banda que lerem este trecho e a equipe técnica que acompanhou-nos nessa viagem (principalmente o Samuel Wagner, roadie, que quase teve um colapso de tanto que riu), deixo só uma dica interna para lembrarem-se : foi a história da "cumbuca"...
No dia seguinte, o compromisso era nobre : lançamento do álbum Pedra II, no Centro Cultural São Paulo. Em Piracicaba tocamos no dia 17 de julho de 2008, na unidade do Sesc Piracicaba, com 100 pessoas na estranha plateia, e pelo visto, só com três prestando atenção...


Continua...

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