quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 110 - Por Luiz Domingues

Um telefonema vindo de um produtor do Centro Cultural São Paulo, convidou-nos a ocupar uma data naquele espaço, em outubro de 2007, e aproveitando o ensejo, reativamos a ideia de um show "happening", como havíamos feito em fevereiro do mesmo ano. Animamo-nos, é claro, mas desta vez, além do tempo ser mais escasso para uma produção mais caprichada, não haveria a participação de uma segunda banda. Como o "Parabelum" que participara na ocasião anterior, não existia mais, resolvemos não convidar ninguém, atendo-nos ao nosso próprio espetáculo apenas, como atração musical, e dando um espaço um pouco maior para a trupe de teatro, e quiçá para Diogo Oliveira, o grande artista plástico, poder extravasar seu talento performático, ao vivo.
E assim fomos ao Centro Cultural São Paulo, para mais uma experiência de happening compartilhada com artistas de outras áreas.
Era o dia 5 de outubro de 2007, e uma lembrança inicial boa que tenho desse show, foi o fato de ter ajudado o grande Diogo Oliveira a instalar algumas peças de pano que ele desenhara especialmente para esse espetáculo, para servir-nos de cenário. Era uma instalação simples, composta de alguns "panôs", se visto separadamente, enquanto peças isoladas, mas o efeito que deram reunidos, foi extraordinário. Fiquei muito entusiasmado em estar ajudando-o nesse momento, mas também por essa movimentação remeter-me subjetivamente aos valores culturais que norteiam-me como artista, desde os primórdios. Apesar do Pedra ter sonoridades setentistas em muitos aspectos, nunca foi uma banda que colocasse-se ao lado de tais ideais e pelo contrário, tal espectro causava um desconforto interno, pois abertamente o Xando não compactua com valores contraculturais. Sua visão do Rock, e o contexto em que ele insere-se, chega a ser antagônica à minha, e isso sempre gerou um certo mal-estar quando situações que colocavam o Pedra nessas circunstâncias, apareciam. Claro que eu respeitava o posicionamento dele nessas questões, mas discordava de inúmeras colocações dele nesse sentido.
Nesses termos, democraticamente respeitava certos posicionamentos tomados para a banda, mas alguns pontos começaram a ficar incômodos para a minha percepção pessoal. Resiliente por natureza, claro que fui relevando muita coisa, pois a banda tinha que ser maior que tudo naquele instante. Contudo, questionamentos sobre visual (foi falado sobre o uso de cabelos longos e figurinos retrô que eu e Rodrigo normalmente usávamos), e outros detalhes que pudessem remeter ao "passado proscrito" dos críticos obcecados pelo assunto, começavam a vir à baila. Esse tipo de discussão era salutar para uma banda que ainda lutava com esperanças de chegar, talvez não ao mainstream, mas num patamar médio da música. Disso eu não discordava e não reclamava obtusamente, mas haviam outras tantas coisas a considerar-se, antes de trazer-se à baila questões dessa monta, que parecia-me inútil, portanto, mesmo em se considerando qualquer esforço para recorrer ao marketing, tentando chegar num degrau acima. Enfim, ninguém é perfeito e nessa altura do campeonato, com 48 anos de idade e digamos, já fora de idade para pleitear um lugar ao sol no mundo mainstream, somado à experiência de 32 anos de militância na música, eu não achava errado pensar em detalhes assim, desde que fôssemos jovens o suficiente para estarmos abertos a estabelecer sacrifícios estéticos, e amplos, portanto com real eficácia absolutamente improvável. Mas não era o caso, não só pela idade cronológica que eu já tinha naquela época, mas pelo fato de não enxergar tais sacrifícios como garantia de absolutamente nada, e com a possibilidade de tais esforços não levarem-nos à lugar algum. Não só eram questionáveis ao extremo tais argumentos, como o mundo da música encontrava-se em profunda convulsão, portanto, qualquer medida a ser tomada, era temerária, pois ninguém, nem mesmo os "tubarões" do mainstream, sabiam exatamente o que estava acontecendo e principalmente, onde terminaria tal terremoto.

Voltando ao cenário, a despeito de suas lindas evocações psicodélicas e sessentistas, isso não representava exatamente o que era o Pedra, quase na mesma proporção que o aparato psicodélico que deu suporte ao lançamento do CD "Lift Off", do Pitbulls on Crack em 1996, tinha como evocação visual, mas na verdade, destoava do espírito real da banda.
Sem outra banda para dividir a noite conosco, nosso show ocupou mais espaço e a intervenção teatral do "Comédia de Gaveta" também teve mais espaço para encenar seus sketchs. Contudo, dada a ocasião ter surgido repentinamente, o grupo teatral também estava desprevenido e desfalcado de vários atores, portanto, as três meninas que atuaram, tiveram que criar sketchs diferentes, com produção mais leve. Deu tudo certo, foi uma apresentação bonita das atrizes (Lu Vitalliano; Ana Paula Dias, e Lucia Capuchinque).
Quanto ao Diogo, sua atuação ao vivo criando pinturas de puro improviso e criatividade, foram magníficas, mais uma vez. 

A performance arrepiante do artista plástico Diogo Oliveira, em meio à psicodelia de "Jefferson Messias" :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ekQjGq2oIB4


Fizemos um bom show, também, podendo tocar mais músicas, num set mais avantajado, eu diria e entre elas, várias canções novas, já do Pedra II que estava sendo gravado. Tudo isso ocorreu no dia 5 de outubro de 2007.  

Nossa performance de "Nossos Dias", nesse show do CCSP em 5 de outubro de 2007 : 

Eis o link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=AW29QaVrei8


Não tivemos tempo hábil para empreender uma divulgação. Apesar de nessa época, o Orkut já estar solidificado como maior rede social da internet, no Brasil, e sendo a maior plataforma para divulgação virtual, não conseguimos mobilizar um grande público. Apenas 80 pessoas passaram pela bilheteria. 

"Rock'n Não", nesse mesmo show do CCSP de outubro de 2007 :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=qLIfQVSfnsc

Uma pena, pois o espetáculo que oferecemos foi de muita qualidade, com três modalidades artísticas interagindo simultaneamente, num espírito de "happening" que há muito tempo não existia mais na praça.

Mesmo porque, considerando que o ingresso cobrado era de um valor popular e quase simbólico, aliado ao fato de que o CCSP é super bem localizado na cidade de São Paulo, com uma estação de Metrô acoplada, inclusive, realmente era um espetáculo que merecia ter tido uma audiência maior. 5 de outubro de 2007, Centro Cultural São Paulo, com cerca de 80 pessoas na plateia...

"Filme de Terror" no CCSP em outubro de 2007 : 

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=r7Q9qhWZjAE


E naquela época, na Rede Social Orkut, ainda não estava sedimentada a choradeira típica e irritante que existe hoje em dia nas diferentes redes sociais modernas, quando observamos uma espécie de triste modismo, com as pessoas lamentando não ter comparecido a um show, mesmo tendo afirmado categoricamente que compareceriam, previamente.


"Reflexo Inverso" no CCSP em outubro de 2007

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=FQeYoztLJjc


"Sou Mais Feliz no CCSP em outubro de 2007


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=L1Skba6JTHc


Isso é muito irritante para quem está no underground como nós, e esforça-se muito para ter enfim uma oportunidade de apresentar-se ao vivo; produz com dificuldades um show e amarga uma baixa frequência, para no dia seguinte ter que aguentar esse velado deboche das pessoas. Quase desanima... quase, porque somos muito teimosos e a tenacidade mantém-nos na luta, mas se dependesse desses chorões...



Continua...

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