domingo, 6 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 254 - Por Luiz Domingues


Teríamos o dia livre em Porto Alegre, de qualquer forma, mas com o cancelamento do show de Porto Alegre, antecipamos em muitas horas a nossa previsão de estada na capital gaúcha.

A casa onde tocaríamos se chamava "8 1/2" e assim que conheci o seu jovem proprietário, a primeira coisa que lhe perguntei, foi se o nome da casa tinha a ver com o filme de Federico Fellini, e só pelo semblante do rapaz, já notei que ele curtia cinema, mesmo antes de pronunciar alguma palavra, confirmando minha suspeita.

Bem, claro que curti muito e sabia que o Junior também curtiria essa alusão explícita ao cinema.

O estabelecimento era bonito pelo fato de ser um velho casarão outrora residencial, e aparentemente, sendo uma construção dos anos 1910 ou 1920, talvez pelo seu estilo arquitetônico.

Tudo isso era muito bonito visto pelo aspecto histórico, mas a casa não era a mais adequada para realizar shows de Rock. Apesar dos cômodos amplos e com pé direito alto, típicos de uma mentalidade arquitetônica antiga que privilegiava espaço, sobretudo, o fato era que a construção fora concebida para ser residência, e claro que o arquiteto que a concebeu em 1910 ou 1920, jamais imaginou que um dia ali seria um mini centro cultural com apresentações musicais, quanto mais com a eletricidade de um ritmo musical que só surgiria 30 ou 40 anos depois da data em que a casa foi construída...

Mas nada disso nos desanimava, pois já havíamos tocado em ambientes adaptados de residência para estabelecimento noturno antes, e as possíveis adversidades não nos tiraria o foco, portanto.

Um dos pontos obscuros, por exemplo, era o fato de haver colunas que representavam verdadeiros pontos cegos para algumas pessoas, caso a casa superlotasse, e era inevitável, pela arquitetura do imóvel.

A despeito dessas dificuldades, o dono que era um rapaz jovem e bastante falante, estava muito empolgado, e como empresário, não mediu esforços para nos levar para tocar na sua casa e nos dar as melhores condições possíveis.

O equipamento de P.A. contratado por ele era simples, mas funcional para o tamanho da casa e não nos deixaria em em situação ruim. A luz era fraca, mas estávamos resignados que ali faríamos dois espetáculos "intimistas", portanto, era quase como fazer show no saudoso Teatro Lira Paulistana em São Paulo, onde a proximidade invasiva do público tornava o show um martírio para quem sofresse de "Stage Fright" (medo de palco).

Na primeira noite, teríamos a abertura de uma banda local, com um som completamente dispare, saindo do padrão normal de bandas de Rock, e geralmente militando no campo do Hard-Rock.

Desta feita, a banda escalada era instrumental em essência e praticava uma espécie de Free Jazz de muita técnica e volúpia. Chamava-se "Blass".

Já no soundcheck nos confraternizamos com os rapazes que usaram todo o nosso equipamento, e até uma Jam session aconteceu, com o Marcello tocando baixo e o Rodrigo aos teclados. Lembro que a banda deles era grande, com sete ou oito componentes, e além dos instrumentos tradicionais, tinha alguns sopristas em sua formação, o que lhes dava uma estridência extra.


Seu som era bastante violento, no sentido do ímpeto, praticamente com pegada de Rockers, coisa nada usual entre jazzistas. Então, mesmo professando um som que beirava o Free Jazz, tocavam como uma banda de Rock furiosa. Em suma, com toda aquela técnica e pegada, eram muito bons.

Claro, o som que faziam era para poucos aficionados e nada popular...portanto, mesmo estando tocando em seus domínios, a possibilidade de atraírem um público agregado, era mínima.

Sendo assim, o produtor do show privilegiou a qualidade artística do evento, mas não pensou na sua melhor condução sob o ponto de vista comercial. Como músico; artista e entusiasta da arte & cultura, achei uma maravilha, mas comercialmente falando, foi uma decisão equivocada, sob o ponto de vista gerencial, eu diria.

Uma grande pena, pois não atraímos um grande público, e certamente que o som anticomercial do Blass, muito menos.

Apesar de estarmos diante de apenas 40 pagantes, fizemos nosso show habitual, e quem estava ali presente fora para nos ver e curtiu muito. Fomos bastante assediados para cedermos autógrafos e numa casa sem estrutura de camarins, mesmo que não gostássemos e quiséssemos isso, seria inevitável. Mas claro que curtíamos esse carinho e foi sensacional.

Horas antes do show, quando chegamos ao estabelecimento, eu tive uma experiência das mais agradáveis, pessoalmente.

Assim que chegamos, um rapaz que estava sozinho encostado no muro, abordou-me e ostentava em suas mãos, uma cópia do compacto da Chave do Sol, minha banda nos anos oitenta. 

Dizendo-se emocionado por me conhecer, reivindicou meu autógrafo na capa, e pediu-me mil desculpas por não poder assistir o show, visto ser um dia útil e isso lhe prejudicaria bastante no dia seguinte, tendo que acordar cedo etc etc.

Como não me emocionar com uma abordagem assim ? 

Aquela sensação de dever cumprido, de que tudo valeu a pena e a carreira cumpria a sua função, espalhando arte; cultura & emoção para a vida das pessoas, enfim...posso não nadar em dinheiro, não ser mega famoso em esferas populares; não apareço no "Faustão" e nem sou falado em sites de fofocas de "famosos", mas tenho plena consciência que tenho fãs e admiradores da carreira inteira, espalhados pelo país afora.

No dia seguinte, o dono do estabelecimento estava chateado com o resultado financeiro da noite anterior e pediu-nos um abatimento no cachet acordado e fixo, com o qual nos prometera em São Paulo. 

Mas diferentemente da situação vivida em Novo Hamburgo duas noites antes, percebemos nitidamente que o rapaz era um produtor jovem e ainda inexperiente em vários aspectos, e que ao não saber lidar com a realidade do show business, estava diante de uma situação difícil.

Bem, claro que nessas circunstâncias muito diferentes, lhe demos um abatimento, visto que estava patente que o rapaz se esmerara para fazer o melhor, mas faltou-lhe experiência para dar os passos certos e não errar na produção. Portanto, claro que mereceu uma "colher de chá".

No dia seguinte, tivemos um público bem melhor e quase que deu para o rapaz equilibrar suas contas e pagar nosso cachet, ainda que com um desconto generoso, sem tirar do bolso para coibir o prejuízo.

Nesse segundo show, a banda de abertura foi de Rock, mais próxima da nossa sonoridade, do que o Jazz instrumental e muito louco da noite anterior. 

Chamava-se "Suco Mau", e pelo que me lembro, os caras faziam algo muito próximo do Brit Pop noventista, ou seja, iam na esteira daquelas bandas britânicas que resgatavam bubblegum sessentista, quase que explicitamente. 

Enfim, curti a sonoridade dos caras e apesar de ter curtido muito a performance forte da banda da noite anterior e sua diversidade musical em relação aos nosso trabalho, claro que uma banda de Rock resgatando sixties em doses maciças me agradava muito mais, particularmente.

Sobre o nosso segundo show, foi tão bom ou melhor que o da noite anterior, nos dando muita satisfação com esse contato com o público rocker portoalegresense.

Apesar das dificuldades em fazer shows numa casa não muito apropriada para a prática do Rock; e dos erros de estratégia do produtor, ainda que plenamente justificados, curtimos fazer os dois shows, sem dúvida alguma.

Os shows no bar "8 1/2", ocorreram nos dias 7 e 8 de maio de 2003, com 40 e 70 pagantes, respectivamente. 

Uma lembrança boa que guardo desses três dias em Porto Alegre, aconteceu por dica do produtor do show, que aliás não mediu esforços para nos dar o máximo de conforto e hospitalidade nesses dias. 

Ele nos falou sobre uma tradição na cidade, que são as pastelarias uruguaias que tem aos montes em todos os bairros de Porto Alegre. 

E de fato, muito perto da casa noturna, havia uma que frequentamos bastante naqueles três dias. Diferentemente das pastelarias paulistas geralmente administradas por japoneses ou chineses, em Porto Alegre existe essa tradição de pastelarias  abertas por imigrantes uruguaios, que apresentam uma receita diferente e muito peculiar e saborosa. 

Tais pastéis apresentam os recheios clássicos dos pastéis convencionais, mas alguma coisa tem de diferente na composição da massa que os torna diferentes e muito saborosos, fora a questão do molho que servem como acompanhamento, alguma coisa com ervas e azeite, que é muito bom.

Nada contra as pastelarias paulistas administradas por orientais e aliás, que são maravilhosas e inigualáveis para quem não conhece São Paulo, mas essas de uruguaios que moram em Porto Alegre, são diferentes e muito boas também.

Bem, dicas turísticas a parte, era hora de deixar a bela capital gaúcha e rumar para outra cidade, ainda dentro do Rio Grande do Sul. 

São Leopoldo, onde já havíamos tido tantas alegrias no passado, nos aguardava novamente...

Continua...

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