domingo, 6 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 244 - Por Luiz Domingues


Outro compromisso de divulgação que cumprimos, foi uma oportunidade bacana que um amigo do Rodrigo, ex-colega da Faculdade Cásper Líbero, lhe ofereceu. 

Tal colega dele nos inseriu na pauta de uma revista cultural radiofônica bem bacana, e claro que aceitamos.

E era algo não usual para uma banda outsider como a nossa, pois se tratava de uma entrevista numa estação de AM mega popular, e em rede nacional...

Tratava-se de um programa noturno em horário nobre, na Jovem Pan AM, uma emissora de porte gigante no radialismo brasileiro.

Não anotei a data exata, mas foi certamente em março, poucos dias antes do show de lançamento do disco novo. 

Chegamos à emissora, em sua localização clássica na esquina da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, e logo no elevador que nos conduziu da garagem ao andar do estúdio que visitaríamos, encontramos com Dudu Araújo, filho do casal Silvinha e Eduardo Araújo, também guitarrista e que também visitara a emissora para conceder entrevista, antes de nós, e naquele momento já estava de saída.

Chegamos ao andar e fomos muito bem recebidos pela produção. Tivemos o prazer de ver um locutor da programação usual ainda fazendo uma locução ao vivo, fornecendo dados clássicos do radialismo, como a hora certa e as condições climáticas de São Paulo e outras capitais. Tremendo de um vozeirão, o elogiamos pela voz e dicção impressionantes.  

O programa no qual participaríamos era de jornalismo cultural em geral e no mesmo dia, além de nós, haviam atores divulgando peças de teatro. Assim que chegamos, por exemplo, havíamos nos encontrado com o ator Cássio Scapin, famoso entre a criançada por ter feito parte do elenco fixo do programa infantil super premiado, Castelo Rá Tim Bum, mas que também desenvolvia um trabalho de teatro muito forte.

Um produtor da rádio nos informou que a audiência daquela revista cultural girava em torno de três milhões de pessoas, em se considerando que era retransmitida em rede nacional, e que fatalmente receberíamos perguntas e observações vindas de pessoas que sintonizavam o programa, oriundas de cidades de muitos estados brasileiros.  

E sua teoria confirmou-se tranquilamente, pois à medida que falávamos, perguntas vinham de muitos ouvintes do país inteiro, de grandes capitais a cidades remotas interioranas de diversos estados.

Foi muito interessante esse contato, pois pelo fato de ao mesmo tempo em que nossa banda tinha curriculum e história dentro do Rock brasileiro, aos olhos do grande público popular, que mal sabe quem foram os Mutantes, associar a figura do Arnaldo Baptista com a nossa banda era absolutamente sem nexo para eles, e quanto mais o fato de que no pós-Arnaldo, a Patrulha tinha construído uma carreira de décadas, com inúmeros discos lançados e páginas construídas na história, ad eternum.

Portanto, perguntas básicas que se faria para uma banda completamente desconhecida, vieram para nós, e era muito compreensível que aos olhos de um público popular, nós fôssemos ilustres desconhecidos.

E mais que isso, curtimos muito algumas manifestações vindas de pessoas que não nos conheciam, mas que estavam curtindo as músicas que intermediaram a entrevista. Manifestações até de estupefação, da parte de alguns ouvintes, dando conta que não estavam acreditando no som que nós fazíamos e como não éramos "conhecidos", nos alegraram (de certa forma, é claro), e aí a constatação básica de que a despeito da nossa música não ser concebida para fazer parte dos anseios do marketing das gravadoras e "chefões" do Show Business, com um mínimo de exposição, teria uma fatia de mercado e isso desnudava o quanto artistas como nós nos prejudicávamos na condução da carreira, vivendo esse autêntico embargo.

Um fato tragicômico ocorreu quando a artista que seria entrevistada a seguir e foi convidada a assistir o último bloco de nossa entrevista, chegou num momento de pausa para os comerciais. Era a atriz Patricia de Sabrit, que estava ali para divulgar sua peça teatral em cartaz.  

                               A atriz, Patricia de Sabrit

Dois fatos engraçados ocorreram com sua presença. Primeiro, logo que entrou, eu tive uma reação inesperada por ela, que a desconcentrou, pois a cumprimentei como se a conhecesse há anos e fosse amigo íntimo e ela, surpreendida, correspondeu com entusiasmo, mas no seu semblante era indisfarçável a sua sensação de confusão, com aquela cara de "não consigo me lembrar desse cara, e agora ??"

E para piorar as coisas, quando a abracei e beijei, também pisei no seu pé, e nessa circunstância, o que já estava constrangedor, ficou ainda pior...

Mas, poucos segundos depois o clima amenizou-se quando a  luz vermelha do estúdio acendeu-se e o locutor concentrou-se na conclusão de nossa entrevista. A seguir, anunciou a execução de mais uma música do novo álbum, no caso, "Nem Tudo é Razão". 

Assim que a música começou a tocar e o microfone interno foi fechado, ouça a voz da atriz Patrícia de Sabrit exclamar : -"Ai, gente, que música linda"...

Sua manifestação foi espontânea, não foi média em absoluto, deu para sentir, e mais uma reflexão : tudo bem que a nossa banda não era comercial e não dava seus passos na carreira manipulada por maqueteiros, mas mesmo não tendo esse comprometimento, uma música como "Nem Tudo é Razão", que tem uma beleza ímpar, se tocasse nas rádios, faria sucesso fora do nosso nicho fechado do Rock underground, numa escala popular. Isso era patente.

Quando a música encerrou-se, nos despedimos do público ouvinte e haviam dezenas de manifestações vindas de muitos estados da federação. Gente do Amazonas; Ceará; Santa Catarina; Goiás...e a conclusão a reboque : só um pouquinho de exposição e nossa vida seria muito diferente.  
Ator e apresentador, Atílio Bari, um dos agitadores culturais mais bacanas de São Paulo

E na semana do show, um outro programa de TV nos agendou para entrevista e participação tocando ao vivo. Tratou-se do programa "Em cartaz", exibido no canal comunitário de São Paulo e apresentado pelo simpaticíssimo ator Atílio.

Já havíamos nos apresentado nesse ótimo programa exatamente um ano antes e sobre ele, já explanei e não me repetirei sobre a análise que fiz em capítulo anterior, quando dissequei tal revista cultural e lamentei sua pouca projeção no espectro da TV. 

Portanto, cabe aqui acrescentar que a coincidência de data foi absurdamente precisa entre a apresentação de 2002 e 2003 e assim que a luz vermelha do estúdio acendeu, o Atílio foi falando de personalidades culturais que haviam nascido naquele dia, e isso era uma prática usual de sua revista quando, eu pedi a palavra e anunciei que tínhamos um efeméride a mais, e que ele provavelmente não tinha anotado na sua ficha : naquele mesmo dia, um ano atrás, havíamos participado do programa...

Atílio ficou surpreso e curtiu muito a minha informação, e com esse clima de camaradagem, a entrevista foi novamente muito boa.  

Distribuímos ingressos do show de lançamento para telespectadores que se pronunciaram por telefone, discos e falamos bastante dessas nossas boas novidades.

Tenho cópia desse programa digitalizada, e em breve certamente será postado no You Tube e disponibilizada neste capítulo.

Antes do show de lançamento do disco, teríamos um show avulso no interior, desconectado de uma turnê. Falo disso a seguir.

Continua...

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