quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 243 - Por Luiz Domingues

Muito bem recebidos pelo radialista, Morcegão, demos o nosso recado mediante a nossa contundência padrão e com amplo espaço para a divulgação do disco novo que saia do forno, e o show de lançamento que dar-se-ia dali em duas semanas. 

E a parte musical ao vivo, foi muito boa, com uma estrutura razoável de sonoridade dentro do estúdio envidraçado para que as bandas tocassem ao vivo, e com ampla e linda visão da esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta. Foi em um domingo nublado, havia chovido levemente no início da manhã, e as ruas estavam úmidas, com poucas pessoas a caminhar. O retorno do áudio dentro do estúdio não foi dos melhores, mas isso não nos impediu de tocarmos com naturalidade e energia.

O locutor, "Morcegão", em foto de seu acervo, extraída de seu site pessoal

Não deveria ter sido assim, mas o Morcegão culminou em dobrar a resistência dos mandatários da emissora e assim liberou a entrada de algumas pessoas. Portanto, um grupo de fãs da Patrulha do Espaço apareceu, por terem garantido ingresso mediante a procura por telefone. Não foi cobrado nenhum valor, mas a emissora limitara o número de pessoas permitidas, certamente ao desejar evitar um tumulto nas dependências da rádio.
Então, cerca de dez pessoas entraram e na verdade, valeram por cem, pois estavam tão entusiasmadas que nos contagiaram positivamente, visto que até entrarem com a sua adrenalina a mil por hora, nós estávamos modorrentos, em virtude do horário insalubre, sempre desagradável para Rockers notívagos como nós...

Existe uma filmagem em formato mini-VHS desse compromisso, a conter um pouco dos bastidores e também trechos da banda a trabalhar no seu soundcheck e a atuar ao vivo, a seguir. Tal material já foi digitalizado e a qualquer momento vai ser postado no YouTube e claro, acrescentará demais. 

Um acontecimento fortuito ocorreu ali nessa entrevista/show ao vivo. Entre as dez pessoas que assistiram a nossa performance, uma garota nos abordou a alegar ser estudante do curso de Rádio e TV da Universidade São Judas Tadeu, uma instituição de ensino muito famosa, localizada no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. 

Ao falar sobre um programa no qual ela estava a participar da equipe de produção, junto com outros colegas do curso, eis que nos convidou a participar, ao nos afirmar que seria uma honra ter a nossa presença e que mesmo sendo uma produção simples e veiculada através de um canal obscuro e com pouca visibilidade (no caso o Canal Universitário, um desses canais obrigatórios que a TV a cabo colocava na sua grade por questão de contrato com a concessão do governo, mas que sabíamos que continha audiência quase zero).

Tudo bem, sem preconceito, sabedores que na mídia mainstream nós não não tínhamos nenhuma chance, a não ser através de reportagens sazonais no campo do jornalismo ou em alguma produção na TV Cultura, não tínhamos por que rejeitar a aparição, não só por não desperdiçarmos oportunidades, mas também por sermos solidários com quem a grosso modo, também era outsider como nós. 

O único problema nessa história, foi que marcaram a nossa presença no estúdio/escola da Universidade, para as 6:00 horas da manhã de um dia útil e aí, claro que foi um exercício hercúleo. Um sacrifício e tanto para cumprir uma logística insana que nos obrigou a madrugar.

Para amenizar, essa moça nos disse que tocaríamos ao vivo, mas não daria para ser com a nossa volúpia sonora habitual, e assim, perguntou-nos se nós não nos importaríamos em fazer algo mais leve, semi-acústico ao menos. Bem, não foi a primeira vez que nos aparecera uma tarefa desse teor, com tal particularidade de ser algo fora de nosso padrão. Nesse caso, até gostamos, por que seria um transtorno ter que transportar o backline, e fazer um soundcheck em um horário absurdo desses.

Chegamos no estacionamento da Universidade um pouco antes das seis horas da manhã, com pouco equipamento e isso foi um alento e tanto. Arrumamos tudo com relativa rapidez e fizemos um soundcheck bem simples. No estúdio, o PA disponibilizado pela produção do programa, foi de pequeno porte, adequado para sonorizar uma apresentação comedida, talvez para um ambiente pequeno, como um bar com tímida proporção física. 

Acertado o som, sabíamos que não teríamos um áudio maravilhoso ali, mas daria para tocar com um mínimo de qualidade.

O jornalista esportivo e professor de jornalismo na Universidade São Judas, Flávio Prado

Fomos convidados a deixar o estúdio, e aguardarmos no corredor, para não tumultuar o trabalho etc. Nesse momento, eu vi a caminhar pelo corredor, o jornalista, Flávio Prado, que era (é) um comentarista esportivo bastante famoso em São Paulo e que era também professor de jornalismo, rádio e TV naquela universidade. Não resisti e o abordei, para falar sobre o futebol, assunto que tenho vívido interesse desde a infância, e ele foi bastante simpático naquela conversa rápida travada no corredor daquela instituição de ensino. 

Claro, ao perceber o meu visual, com cabelo pela cintura, e trajado com figurino para entrar em cena, ele logo deduziu que eu apresentar-me-ia no programa de seus pupilos e assim, ao lhe fornecer também rápidas informações sobre a nossa banda, ele se despediu ao alegar estar a se dirigir para a sua primeira aula matinal.

                 A banda maranhense de reggae: "Tribo de Jah" 

Outra ocorrência curiosa se deu quando vimos que uma outra banda gravaria participação no mesmo programa, antes de nós e nas mesmas circunstâncias, ao se apresentar com um formato semi-acústico. Foi a "Tribo de Jah", uma banda que detinha um bom reconhecimento artístico no meio, principalmente no mundo do reggae, nicho onde desenvolvera a sua carreira. Se tratava de uma boa banda dentro desse segmento e continha uma particularidade: era formada por músicos cegos e somente o vocalista tinha visão normal. 

E foi justamente com ele, o vocalista, Fauzi Beydoun, um sujeito simpático e cordial, que conversamos e nos confraternizamos antes do início das gravações. Ele sabia quem éramos e nos disse ser apreciador de Rock, também, e que gostava de bandas setentistas tais como o Free, Bad Company, Led Zeppelin e que o seu cantor predileto era o David Coverdale.

                     Fauzi Beydoun, vocalista da Tribo de Jah

Quando nos chamaram para gravar, já eram quase dez da manhã e nós fizemos a nossa aparição de forma tranquila, a tocarmos algumas músicas que já estávamos acostumados a executar em arranjo alternativo semi-acústico. 

A pauta dos estudantes foi fraca, com perguntas muito básicas e a denotar que foram preguiçosos para investigar a nossa carreira, mas apesar do nosso humor não estar o melhor diante daquele horário insalubre, isso não nos desestabilizou e a condução do programa transcorreu de forma tranquila. 

Infelizmente e essas coisas são inexplicáveis no meio das comunicações, no dia em que nos disseram que o programa iria ao ar, lá estava eu com o controle remoto do meu VCR a postos para apertar os botões "Play e Rec", mas o programa passou com outra atração que não fomos nós, logicamente e na semana seguinte o mesmo ocorreu. Ligamos para a garota da produção e constrangida, ela não soube como justificar a nossa ausência e ficou de nos dar o retorno com a data certa ou uma explicação sobre a não exibição, mas estamos a aguardar isso até os dias atuais, 2015, quando eu escrevi este trecho. É muito pouco provável que alguém tenha preservado uma cópia, mas quem sabe um dia alguém posta isso no YouTube, e nos surpreende? 

A vida seguiu e outros agitos de mídia tivemos antes do show de lançamento do novo álbum.

Continua...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 242 - Por Luiz Domingues

Como eu já disse anteriormente, no início de 2003, tivemos um hiato de shows. 

Isso por que para materializar a logística de uma turnê, tal planejamento custava ao Rolando Castello Junior, tempo para articular e negociar com contratantes e quando a banda ia para a estrada, efetivamente o seu lado "empresário" parava de funcionar dentro dessa predisposição e aí, para se garantir uma sequência, isso só seria possível se ele se dedicasse novamente ao trabalho árduo no escritório. Em suma, definitivamente, nós precisávamos de um empresário para cuidar do negócio, mas nunca tivemos essa ajuda profissional externa.  

Entretanto, se tivemos essa dificuldade gerencial que nos causava incômodo, por outro lado, a parada específica nesse período teve o seu lado bom. Isso por que foi providencial para podermos nos dedicar à finalização da parte gráfica do novo disco, e em atividades paralelas, tais como a preparação do material de divulgação para a imprensa. 

Foram muitas visitas feitas à residência do Luiz "Barata" Cichetto, que na época morava no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo. Toda a parte de texto do encarte foi concebida ali no seu computador, e nesse tempo, ele já havia se assumido como web designer da banda, ao substituir o então garoto, Marcelo Dorota, este que em fase difícil de se preparar para o vestibular, já não poderia dedicar-se à nossa banda, como gostaria, através do seu entusiasmo sincero, e do qual o agradecemos eternamente.

Nota publicada na revista Rock Brigade, a dar conta que o guitarrista, Xando Zupo, preparava o seu álbum solo, e que teria muitos convidados, incluso a Patrulha do Espaço com a sua formação chronophágica completa

E um outro fator também nos ocupou e foi muito bom artisticamente a falar, fora o prazer que gerou. O guitarrista, Xando Zupo, ex-Harppia, e também com passagem rápida pela Patrulha do Espaço, estava a produzir um disco solo e convidou a Patrulha do Espaço para gravar duas faixas de seu disco. O convite houvera sido feito ainda nos últimos dias de 2012, mas tudo se concretizou mesmo no início de 2013. 

A sua proposta foi para nós gravarmos uma música inédita e autoral e uma outra faixa seria uma releitura de uma música da "James Gang", uma banda norte-americana sessenta-setentista que todos gostávamos. Sendo assim, fizemos alguns ensaios em janeiro de 2003, e efetuamos gravações entre fevereiro e março, para finalizar tal material. 

Gravamos então a canção: "Must Be Love" da James Gang (originariamente, essa música está contida no LP "Bang", de 1974, dessa grande banda norte-americana), e a autoral se chamava: "Livre como Você". 

Essa história ficou tão rica em detalhes que eu considerei que mereceu ganhar um capítulo especial e destacado, portanto, apesar de envolver a Patrulha do Espaço em sua formação chronophágica completa, ela foi narrada no Capitulo dos "Trabalhos Avulsos".

Aqui, eu contei de forma reduzida, mas para saber de mais detalhes dessa gravação e lançamento, procure:

"Trabalhos Avulsos, Capítulo 76 (Patrulha do Espaço + Xando Zupo = àlbum Z-=Sides, guardado no arquivo em agosto de 2013, neste mesmo Blog 2.

 http://blogdoluizdomingues2.blogspot.com.br/search?q=Trabalhos+Avulsos+Z-Sides

Ou no Blog 3, o capítulo "Trabalhos Avulsos", Capítulo 28 (Patrulha do Espaço + Xando Zupo = Z-Sides, quase um prenúncio) :

http://luizdomingues3.blogspot.com.br/2015/03/trabalhos-avulsos-capitulo-28-patrulha.html 

Eis abaixo o álbum Z-Sides na íntegra. "Livre como Você" é a primeira faixa e "Must Be Love" é a 9ª faixa

Eis o Link para ouvir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=hUCVU5xtf9o

  
Já a adentrarmos o mês de março, tivemos algumas atividades de divulgação do novo disco e do seu show de lançamento, que nos ocuparam, além de um show no interior, isolado, em uma casa noturna, mas sobre o qual eu comento mais adiante.  

Sobre tais atividades no campo da divulgação, foram as seguintes:

Em 16 de março de 2003, nós tínhamos agendado uma entrevista/show ao vivo no estúdio da emissora Kiss FM. O programa: "Made in Brazil" era um verdadeiro oásis em meio a uma programação que não dava brecha alguma aos artistas nacionais, pois tal emissora privilegiava o Rock internacional, de uma forma retumbante, ao não ofertar chances aos artistas pátrios. 

Se por um lado, a programação da emissora era boa, por focar no Rock das décadas passadas, ao assumir-se como uma emissora voltada ao dito, "Classic Rock", por outro, causava-nos espécie (e ainda causa-nos), que a referida estação não prestigiasse artistas nacionais autorais, mas pelo contrário, abrisse as suas portas para divulgar e incentivar bandas cover! 

A justificativa de seus mandatários, foi que tais bandas cover praticantes do "Classic Rock" no circuito de casas noturnas da cidade de São Paulo, tocavam o repertório base que a emissora se propunha a executar, portanto, haveria uma "parceria" de ideias e ideais, no sentido de se manter viva a chama do Rock 1960/1970/1980, a sua base mais usual de atuação.  

Ora, tal justificativa foi tão "sólida" quanto um castelo de areia na praia, e era (é) inacreditável que mantivesse essa mentalidade engessada e pior ainda, ao abrir as suas portas e a estender tapetes vermelhos para músicos que nada criavam, mas que se propunham a viver a canibalizar a criação alheia.  

Respeito quem vive disso, pois entendo que não é fácil, para não dizer impossível, viver de música no Brasil. Para colocar comida na mesa, pagar a conta da luz e ter um teto decente, é imprescindível que se ganhe dinheiro e com o show business dominado por uma máfia ultra fechada, a quantidade de bons músicos que ficam relegados ao limbo é enorme e claro que sob uma situação extrema de luta pela sobrevivência, submetem-se ao sacrifício de exercerem a música profissionalmente, mas apenas como reprodutores da criação de artistas consagrados.

Isso eu entendo e respeito como forma de sobrevivência digna. 

Mas muito diferente foi uma emissora de rádio dar espaço para bandas com tal proposta, pois se detinham concessão do governo para agirem como difusores culturais, a função de executarem o trabalho artístico já se cumpria, portanto, ao incentivar jukebox humana, fora o fim da picada. 

E o outro lado dessa medalha, algo tão nocivo quanto, ao não darem espaço para artistas autorais vivos, um atentado à cultura, portanto, a se provar um contrassenso para quem tinha/tem licença oficial para difundir cultura.

Um outro argumento que usavam (usam), era que tais bandas com esse tipo de proposta seriam "parceiras", pois tratavam por manter a chama do "Classic Rock" acesa em suas apresentações e isso instigaria o seu público a procurarem a emissora no cotidiano, e dar-lhes audiência. Ou seja, fomentavam um modus operandi a manter um moto perpétuo fechado nesse ciclo, daí o interesse. 

Ao sonegar espaço para artistas autorais, matavam a possibilidade de haver uma cena viva, como se desejassem que o tempo parasse e ficássemos eternamente a vivermos em 1972.

Ora, ao leitor que possa me enxergar contraditório nessa afirmação, esclareço que adoro essa época e estética, mas eu não desejava viver congelado nela. Tanto que a proposta do Sidharta e que a Patrulha cooptou, foi a do conceito "Chronofágico" de viver o presente, a usufruir do frescor imediato da época contemporânea, mas sem apagar o passado, ao prover a mescla ao passado como influência, mas não a "voltar" para ele como em uma máquina do tempo.

Sendo assim, achava (acho), absurda a proposta da Kiss FM, que em detrimento de tocar 70 ou 80 % de material que eu gosto e me influencia fartamente, não me despertava a mínima vontade de sintonizá-la, pois irritava-me verificar que bandas excelentes que estavam ativas e atuantes na cena do underground então em voga, jamais tocaram (ou tocarão) nessa emissora, mas bandas cover que nada criavam, eram ovacionadas por seus locutores. 

Nesse contexto, entre 2002 e 2003, um locutor que ali trabalhava começou a desejar equilibrar essa questão. Tal radialista chamava-se: Marcelo, e era conhecido no meio radiofônico, por um apelido: "Morcegão".

O radialista, "Morcegão", é o primeiro, da esquerda para a direita, a posar ao lado de colegas da Kiss FM, em produções de campo que costumavam fazer, também. Foto de seu acervo, que achei em seu site pessoal

Comunicativo ao extremo, como todo bom locutor de FM, Morcegão mantinha os seus fãs e seguidores, e com a força popular adquirida por conta da rádio, emplacou um programa para quebrar esse paradigma da emissora, e criou então esse pequeno oásis ali dentro, chamado: "Made in Brazil". A sua proposta foi manter, sim, o padrão do Classic Rock que norteava a emissora, mas a apresentar artistas brasileiros, e se possível, que estivessem vivos, a criar, atuar e sobreviver com a sua criação autoral. 

Foi o nosso caso, e com a agravante de que vivíamos o sonho do resgate total das raízes da nossa própria banda, conforme eu já salientei amplamente desde o capítulo 1, da história da minha fase com a Patrulha do Espaço. Portanto, com um disco novo a ser lançado em breve e show de lançamento do mesmo à vista, o Morcegão nos agendou para tocarmos ao vivo e mantermos uma boa conversa, na manhã de um domingo, 16 de março de 2003.

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 241 - Por Luiz Domingues

Sobre o disco em si, em termos de suas músicas, eis algumas considerações a seguir:

Bem, como já foi amplamente comentado, esse disco teve uma produção sofrida. A limitação financeira de uma banda independente, e sem nenhum apoio externo, a não ser patrocínios de pequena monta, foi uma razão óbvia que nos atravancava, mas houve outro componente, também. O fato, é que no ano de 2002, nós tivemos um ano de agenda cheia, e foram poucos os espaços que tivemos para nos atermos à produção do álbum.  
Ao mesmo tempo em que a agenda cheia significara que estávamos a faturar, por outro, a despesa adquirida pela aquisição do ônibus, e a sua manutenção que era muito cara, fez com que verbas que seriam gastas na produção do disco, fossem parar nas mãos de oficinas mecânicas, lojas de autopeças, borracheiros, aluguel de garagem, e nos postos de combustíveis.  

Portanto, nós gravamos as bases inicialmente em junho de 2001, fechamos os vocais e complementos de overdubs entre julho e agosto do mesmo ano, mas só conseguimos mixar o disco, um ano depois. E apenas no início de 2003, nós reunimos recursos e apoio no tocante a trabalhar no lay-out de capa e encarte, mais as despesas de gráfica, fábrica de prensagem dos CD's e sessão de fotos. 

Sobre as músicas do disco, muitas delas já tocávamos regularmente nos shows. "São Paulo City", por exemplo, nós já tocávamos desde 2000, quando a inserimos imediatamente ao repertório de shows, assim que Rodrigo e Marcello a compuseram, e nós estabelecemos um arranjo definitivo. "Terra de Minerais" e "Homem Carbono", já estavam a serem executadas ao vivo no início de 2001, antes mesmo de serem gravadas.

Sobre o estúdio onde a gravamos, creio que eu já tenha contado tudo sobre a sua precariedade. Se saímos dali com sete músicas gravadas, devemos isso ao esforço sobre-humano do técnico, Kôlla Galdez, que por nossa sorte era funcionário ali, e ele era um Rocker e fã contumaz da Patrulha do Espaço. Nesse caso, ele se esforçou para fazer aquele estúdio pessimamente cuidado (com falhas de manutenção terríveis, fora o aspecto de ser antiquado, no mau sentido da palavra, pois se em ordem, seria chic gravar em condições analógicas da velha guarda), a nos dar subsídios para gravar. 

No entanto, um fator seria o Lenny Kravitz gravar com equipamentos jurássicos e propositalmente assim, mas em Nova York, com tudo a tinir, com manutenção exemplar e uma outra situação muito diferente, foi trabalhar com um equipamento vintage, porém tudo a se mostrar quebrado.

Kôlla foi um herói nesse aspecto, e se o disco não soa bem, saiba o leitor que sem a presença dele e a sua resiliência inacreditável para lidar com aquela situação, nem o teríamos. Nas mãos de outro técnico qualquer que ali trabalhava e costumava gravar discos de aspirantes a artista popularesco e/ou disco de dentistas, não teríamos coragem de lançá-lo nem como bootleg com padrão de rough mix. 

Sobre o outro estúdio onde finalizamos a mixagem e a masterização, este era bem mais moderno e aprumado, mas além do tempo escasso que tivemos, e pelo fato do técnico, Alan, não entender direito a nossa proposta (por ser um técnico acostumado a gravar bandas Gospel com sonoridade Pop, baseadas em R'n'B norte-americano e "modernoso"), nem que ele fosse um Rocker, conseguiria fazer um milagre, com a captura ter sido permeada tão cheia de problemas. 

Cogitamos levar o Kôlla para operar mixagem e masterização, mas além de ser um gasto a mais que não poderíamos arcar, o próprio, Kôlla, nos alertara que ainda não estava ambientado com as mudanças tecnológicas, e o mundo das gravações com áudio digital, ele não dominava ainda.

      Kôlla Galdez, técnico de qualidade, e pessoa muito gentil!

Uma pena, pois sem demérito ao Alan Garcia, que nos atendeu com profissionalismo, acho que o Kôlla teria nos atendido melhor, pela sincronia óbvia de ideias que tínhamos, e pela carga emocional, pois ele amava muito o trabalho e se orgulhava de ter feito a captura, e com toda a razão mantinha esse apreço ao trabalho. 

No encarte, o Rollando Castello Junior citou os dois técnicos, logicamente, mas omitiu os nomes dos dois estúdios, ao preferir acrescentar a brincadeira de o termos gravado e mixado em algum lugar da Guatemala. E o mais engraçado foi que teve gente que levou a sério, e veio nos perguntar por que houvéramoss gravado em um país da América Central, se morávamos em São Paulo, com inúmeros estúdios profissionais!  

Sobre as canções, acrescento:

1) São Paulo City (Marcello Schevano - Rodrigo Hid)

Essa música tinha muito a feição de bandas de Blues Rock peso-pesado como o "West, Bruce & Laing", "Blue Cheer", "Mountain", "Grand Funk Railroad" etc.

"São Paulo City", em um vídeoclip produzido pelo produtor musical/agitador cultural, radicado em Londres, Antonio Celso Barbieri, em novembro de 2014, a mostrar algumas imagens aéreas da "selva de pedra" paulistana, ao som da nossa música. 

Eis o Link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=MqmVDi3sQM0


Esta canção costumava causar frisson nos shows da banda, por seus muitos atrativos, entre os quais, o seu poderoso riff inicial, o refrão cantado com três vozes e sob uma melodia dramática, os solos dobrados muito "ganchudos" e as viradas da bateria, bastante ousadas e pesadas.

Eu gravei com o baixo Fender Precision, e apesar de todas as dificuldades dessa gravação, o timbre é bastante interessante, e ouso dizer, melhor que o som que tirei, ou melhor, "tiraram" à minha revelia, ao me obrigarem a gravar "Flat" no álbum "Chronophagia". 

Gosto muito das intervenções dos contra-solos de ambos, Rodrigo e Marcello, muito inspirados, principalmente em bicordes a estabelecerem, bendings com graves "robustos" e muito no estilo do grande, Leslie West.

A letra escrita pelo Marcello é clara ao meu ver, mas muita gente a considera uma demonstração de amor & ódio à nossa cidade de São Paulo, porém em minha ótica, é uma crítica explícita a quem fala mal dela, e a se levar em conta que o stress urbano gerado não é culpa da cidade, mas do interior neurastênico das próprias pessoas. E nesse raciocínio, mesmo quando saem de férias, levam o stress para fora, junto com elas... 

"Pra que sair daqui, 

Se quem sai agora, 

Leva pra longe, 

O stress das seis horas"...

2) Louco um Pouco Zen (Marcello Schevano - Luiz Domingues - Rolando Castello Junior)

O Riff inicial criado por eu mesmo, é puro acid-rock sessentista, com o sabor "Hendrixiano", muito no espírito do LP "Cry of Love". A parte "B", a apresentar um elemento soul, esta uma contribuição excelente do Marcello à composição, proporcionou-me a possibilidade de criar uma linha bem belançada à canção, da qual eu gosto muito. 

As viradas feitas pelo nosso baterista, Rolando Castello Junior são impressionantes. Não foi à toa que nos shows, tal performance dele  arrancava urros de euforia de Rockers, ao verem uma técnica refinada de um baterista à moda antiga (quando saber tocar era requisito básico para se formar uma banda de Rock, ora bolas..."faça você mesmo", mas só se puder fazer bem feito, malditos energúmenos), e com nível técnico de grandes ícones do Rock sessenta-setentista internacional. 

Após o solo, um interlúdio totalmente funkeado é sensacional, e remete claramente ao Trapeze, e ao Deep Purple/Mark IV. É rápido e rasteiro, mas brilha intensamente ao meu ver. Usei também o baixo Fender Precision, e acho que consegui imprimir uma aura do acid-Rock, ao me inspirar-me em Noel Redding e Billy Cox, os baixistas que tocaram nos discos do Jimi Hendrix,  e que tiravam esse som de Fender Precision, in natura.  

A letra é do Marcello, mas o Junior deu contribuições importantes. Ela fala a rigor, sobre uma visão libertadora, anti-stablishment.

3) Sendas Astrais (Marcello Schevano - Rodrigo Hid - Luiz Domingues)

Eis aqui uma canção com forte apelo psicodélico sessentista, mas também a trazer elementos Hard-Rock e Prog Rock setentistas. Essa ideia inicial nasceu com um riff bem sessentista, e a parte "A" da canção tem essa deliciosa aura "Flower Power".  

Gosto muito do desenho da guitarra do Marcello, a evocar, Roger McGuinn e George Harrison em doses cavalares, enquanto o Rodrigo faz a harmonia etérea no órgão Hammond. 

A minha linha de baixo privilegia a psicodelia nessa parte, por inspirar-me em mestres como: Lee Dorman (Iron Butterfly), Phil Lesh (Grateful Dead) e Jack Casady (Jefferson Airplane), mas com um diferencial em relação à esses baixistas norte-americanos sessentistas, pois optei pelo uso do Rickenbacker, e o timbre agudo e encorpado denuncia a influência de Roger Waters dos primórdios do Pink Floyd, fase Syd Barrett e claro, Chris Squire...

Tanto que a minha linha na parte "B", por falar em Chris Squire, tem um trecho inicial a executar frases em tercinas, que é bastante inspirado em "Close to the Edge", do Yes. E na continuidade, o elemento Hard-Rock se faz presente, a ali surgiu a influência de Jimmy Bain ("Rainbow"). 

O Marcelo imprime um desenho de contra-solo que é muito no estilo de Steve Howe, e que eu gosto muito. Também adoro os backing vocals cantados em efeito de "derretimento" ("A Meta Finaaaal"). 

Quando chega o momento do solo de Mini Moog, a se usar na parte "A", um vocal que eu criei, elege o efeito do contraponto, e tem muita inspiração no Tutti-Frutti dos seus anos de ouro com Rita Lee em suas fileiras. 

A parte "C", deslancha para o Hard-Rock setentista com pitadas Prog-Rock e é o puro som do Uriah Heep. Os vocais em trio, a fazer uma melodia toda desenhada, solos de moog, desdobrada para o slide do Marcelo brilhar intensamente (dá-lhe, Ken Hensley!), e o som do Hammond a cortar com a Leslie a todo vapor... enfim se cantado em inglês, algum desavisado poderia achar que se trata de uma música outtake do LP "Demons and Wizards"...

Sobre a letra, uma criação do Rodrigo, ela é toda etérea, a falar sobre o "Cosmos, Prana, Flor de Lotus, Persona"... ou seja, é bem no astral da espiritualidade e eu aprecio muito. 

Está bem, muitos podem se incomodar com tal abordagem, ao acusá-la de não ser uma letra "comercial", mas não é mesmo... é arte e que se dane o comércio! Acenda um incenso e relaxe.

4) Homem Carbono (Rodrigo Hid - Marcello Schevano - Luiz Domingues - Rolando Castello Junior)

Essa canção surgiu como fruto de uma jam-session, onde todos contribuíram com ideias, mas o maior crédito tem que ser dado ao Rodrigo, que burilou a melodia, escreveu a letra e concebeu a sua parte "A".

Vídeoclip da música: "Homem Carbono" produzido em 2003, por uma turma de estudantes de cinema. Os detalhes sobre essa produção, eu conto na sequência da cronologia dos fatos, em breve.

Eis o Link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=lkUhtnHq1gg


Rock vigoroso, tem uma condução muito forte na parte "A", e mesmo ao contar com a base do piano como carro-chefe, é um riff e tanto, ao parecer criação de guitarra. Gosto muito da introdução em fórmula de compasso, 6/8, também. A parte "B" que foi minha contribuição em seu primeiro trecho, lembra-me o The Who, na fase do LP "Who's Next". 

O Junior brilha como sempre em suas viradas impossíveis, e mediante uma condução muito vigorosa, é claro, com uma pegada incrível. O piano ao estilo "honky-tonk" é muito energético ao ser conduzido pelo Rodrigo e a sua interpretação vocal é fortíssima, tanto que essa música sempre foi muito saudada nos shows. 

Eu gravei com o baixo, Fender Precision e apreciei muito o timbre que remeteu-me ao baixo de Mel Schacher, mas sem tanta distorção como nos primeiros discos do Grand Funk, e mais próximo da fase mais soul dessa banda maravilhosa. 

A letra escrita pelo Rodrigo, é uma das melhores desse disco, em minha opinião, senão a melhor. É também anti-stablishment, mas com a angústia do homem massacrado pela falta de identidade própria, a buscar então a sua individualidade roubada pelo sistema.

"Não abaixe a cabeça, 

Um dia você vai ver, 

Um mendigo, um autista, 

Ou quem sabe um artista exorcista"... 


Ainda nesse ano de 2003, uma oportunidade surgiria para filmarmos um vídeoclip com essa música, mas isso eu conto mais para frente na cronologia, como já mencionei acima.

5) Nem Tudo é Razão (Rodrigo Hid)

Essa é a música mais amena do álbum, uma típica canção "Beatle", balada com delicioso sabor sessentista.  

"Nem Tudo é Razão", postado no YouTube por um fã da banda

O Link para ouvir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=q0RfoYVv5HA


Canção levada em sentido rítmico de "staccato" ao piano, e a sugerir elementos trintistas, lembra também o Queen em muitos aspectos, pelo fato dessa banda setentista também recorrer ao cancioneiro europeu trintista como inspiração, assim como os Beatles também o fizeram bastante (The Kinks, Small Faces, Family e tantas outras bandas britânicas sessentistas, também usaram dessa influência). 

Rodrigo a compôs sozinho, no piano em sua casa, e nos trouxe pronta, portanto. A nossa contribuição foi nos arranjos, mas o grande mérito de sua beleza incrível dessa peça, é dele, sem dúvida. Gosto muito da harmonia, da melodia lindíssima, da junção de partes e de um refrão sensacional que ele concebeu. 

 Os solos do Marcello à guitarra, são belíssimos, tanto no meio quanto na intervenção final que fecha a canção, e ambos, são muito parecidos com o estilo de Brian May. 

A minha contribuição para o arranjo, além da minha linha de baixo, foi a criação dos backing vocals, e são exagerados mesmo, cheios de "la la las" e "uh uh uhs", a desenhar longos espaços abaixo da voz principal do Rodrigo, e muito se assemelham aos vocais do Queen em seus primeiros discos. Apesar de estarem prejudicados pela produção precária do áudio desse disco, se o ouvinte escutar com fone de ouvido e a prestar atenção só neles, eles são notados, afinal.

Adoro a intervenção do órgão Hammond junto ao piano.e viva Billy Preston! 

Usei o baixo Fender Jazz Bass, para buscar o máximo do som grave e aveludado desse instrumento e assim ornar corretamente com o espírito da canção. 

A letra que o Rodrigo criou é muito poética. É influenciada pelas composições do Paul McCartney, ao extremo, mas igualmente contém o seu "quê" do "Clube da Esquina" de Milton Nascimento & Cia.

"Três e vinte da manhã 

Eu pensando em oferecer 

Minha alma ao luar

Me desejo ao seu olhar"

6) Terra de Minerais (Marcello Schevano)

Quando o Marcello nos mostrou o esboço dessa música que havia composto ao piano, logo notamos que seria a nova peça progressiva da nossa banda e que seguiria o destino de: "Sendo o Tudo e o Nada", apresentada no disco anterior, "Chronophagia".

"Terra de Minerais postada no YouTube por um fã da banda

Eis o Link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=t0MUjpKg6Zw


Uma típica suíte Prog-Rock, a demarcar várias partes com climas diversos, teve que ter um arranjo à altura para explorar bem as suas múltiplas possibilidades sonoras. 

A parte "A"dessa canção lembra-me bastante o trabalho do "Focus" da sua fase dos LP's "Moving Waves" e "Hamburguer Concerto". 

Um piano balançado e com a sua harmonia inicial a sugerir o efeito "sus", eis que abriu brecha para um baixo vigoroso em frase construída em "looping", com um certo sabor da Soul Music. Nesse trecho, me inspirei bastante no som do Bert Ruiter, do Focus.

A guitarra do Rodrigo trabalha uma frase melódica que costura toda essa base feita por Marcello, eu mesmo e Junior. É melódica de certa forma, mas recorre em alguns momentos à dissonância de Robert Fripp nos seus bons tempos com o King Crimson, e eu gosto muito desse efeito que ele criou. 

Há um vocal feito por nós três da linha de frente, mas só entoado, sem letra. Lembra muito o estilo do Focus, mas também denota a influência d'O Terço.

Na parte "B", uma desdobrada no ritmo dá margem à um interlúdio muito a ver com o "Pink Floyd". Rodrigo passeia no slide, e é como se estivéssemos nas ruínas de Pompeia, a tocamos a música: "Echoes", dessa banda icônica. 

Pouca gente nota, mas logo no início da desdobrada, existe uma intervenção delicada e sensacional do Marcello à flauta. Ele faz uma melodia muito linda, que é puro "Genesis" em sua concepção. Ela é  muito rápida o suficiente para Peter Gabriel sair de cena e trocar de fantasia, se fosse o caso. Finalmente a parte cantada chega, e Rodrigo e Marcello cantam um trecho cada um.

Surge uma parte "C", que lembra a glória do The Who, e que proporciona que o Marcelo inicie um fraseado em looping de difícil execução, e Rodrigo brilha muito com um solo espetacular na guitarra.

Volta-se à parte "A" para o encerramento, com os vocais entoados e uma convenção de precisão a lhe conferir um final apoteótico, e que ao vivo, costumava arrancar gritos da plateia em nossos shows realizados entre 2003 e 2004. 

Essa canção se chamava: "Aclimação", logo que o Marcello a compôs, e isso por que fazia alusão à uma série de ruas desse bairro da zona sul de São Paulo, que apresentam nomes de pedras preciosas ("Safira", "Topázio", "Rubi"; "Esmeralda"). Também contém menção de ruas com nomes de planetas que existem no bairro ("Saturno" e "Urano"). Foi uma espécie de homenagem ao bairro, pelo fato de que eu (Luiz), Rolando Castello Junior e Rodrigo Hid morarmos ali nessa época, e o próprio, Marcello, em um bairro vizinho, a Chácara Klabin. Mas logo a seguir, nós resolvemos não personalizá-la tanto assim, e dessa forma o rebatizamos como: "Terra de Minerais".

Luiz Domingues em 2001, a gravar esse álbum, ".ComPacto", com o Fender Precision na mão. Click, acervo e cortesia de Samuel Wagner

Usei o baixo Fender Precision, e além do Bert Ruiter já citado, a minha inspiração foi no som clássico do Roger Waters no Pink Floyd, quando este adotou o Fender Precision como padrão nos discos, e ao vivo com essa banda. Logicamente que eu fui buscar essa sonoridade "Meddle/"The Dark Side of the Moon"/"Wish Were You Here", criada por esse artista.

7) Tooginger (Rolando Castello Junior)

Como fizera no álbum anterior, ao aproveitar a estada no estúdio, o Rolando Castello Junior pediu ao técnico para apertar os botões: "Play e Rec" na máquina, e gravou um solo de improviso. Depois, houve tratamento com algum efeito de paramétrico na mixagem, logicamente. Neste caso, a sua criação começa com o efeito do "fade in", e encerra-se no "fade out". 

O nome da peça em questão é uma brincadeira, mas em tom de homenagem ao mestre, Ginger Baker, baterista icônico dos anos 1960-1970 (Graham Bond Organization, Cream, Blind Faith, Ginger Baker Airforce, Baker Gurvitz Army). 

Ouço esse disco hoje em dia com esse apanhado de ótimas canções, muito bons arranjos e a performance de uma banda tão azeitada, que eu só lamento que não tenhamos tido condições de gravá-lo em melhores condições sonoras. Em um estúdio de alto nível, no Brasil mesmo, já teríamos tido um resultado matador, mas na realidade, ele merecia ter sido gravado em um estúdio de primeiro mundo da Europa ou Estados Unidos.  

Paciência, não foi assim que aconteceu, e só nos cabe relevar as dificuldades com as quais o concebemos tecnicamente, e exaltar o seu alto padrão artístico.
Neste caso, eu recuo à minha infância, e lembro-me de meu avô materno a ouvir velhos discos de 78 rotações em sua jurássica rádio-vitrola móvel, a conter óperas, sinfonias & concertos eruditos, e infelizmente em meio aquela tecnologia tosca, com os chiados inevitáveis proporcionados por discos de vinil muito antigos e a obscurecer a música. Quando eu lhe perguntava se tal incidência de ruídos indesejáveis não o incomodava, ele me respondia: -"Só ouço a música, nem percebo o chiado"...

Essa sábia lição adquirida de meu querido "vô" Edson, serviu-me agora para pensar no CD ".ComPacto" da mesma forma: só ouço a música...
Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 240 - Por Luiz Domingues

Como eu já disse anteriormente, nós nutrimos muitas expectativas para 2003, mas sobretudo, a mais premente foi a perspectiva concreta de lançarmos enfim um novo disco. 

Tal lançamento seria um importante passo para marcar a "Era Chonophágica" da banda, ao fincar de vez a bandeira desfraldada com o CD Chronophagia, com todo o seu bojo de ideias, ideais & princípios. 

E nesse ponto, no início de 2003, tivemos os meios financeiros para empreender tal ação e foi o que fizemos com contundência, visto que não tínhamos shows programados para os meses de janeiro e fevereiro, a não ser que surgissem convites inesperados.

Como o poeta/web designer, Luiz "Barata" Cichetto estava a viajar conosco como road manager da nossa comitiva, foi automático que ele se adiantasse e tratasse da parte gráfica do disco, release e daí começasse a reformular o site da banda, outrora criado pelo jovem, Marcelo Dorota.  

Sobre a ilustração da capa, seria muito natural que procurássemos novamente o excepcional ilustrador/artista plástico, Johnny Adriani, que compusera a capa do CD Chronophagia. E certamente que ele gostaria de atuar mais uma vez, mas como sempre, a verba foi curta e não poderíamos fazer mais essa despesa, infelizmente. A solução para esse caso, foi recorrer a um arranjo quase gratuito, que caíra em nossas mãos, de forma fortuita. 

Explico: um vizinho do Rodrigo, que era músico e desenhista, o conhecia o Rodrigo há anos e sabia desde sempre que ele era músico. E por conta desse desenhista também o ser (era um percussionista), eis que ele ofereceu-se para fazer um logotipo para a nossa banda, sem compromisso. O seu nome era: Marcos Mündell. 

Como é sabido de todos, a Patrulha do Espaço usava um logotipo lindo ao final dos anos setenta e início dos oitenta, que fazia alusão ao seu próprio nome, que evocava uma nave espacial.

Porém, nos anos noventa, o Junior começou a usar um outro, estilizado com dragões e que detinha um ranço de Heavy-Metal, que eu particularmente detestava, apesar de achar a ilustração bonita e curiosamente, tratava-se de um trabalho do Johnny Adriani, portanto, tecnicamente a falar, claro que era bem feito. 

Todavia, a insinuação sobre o "Heavy-Metal" me incomodava, e lógico que a considerava antagônica aos valores que a Era Chronophágica da banda propunha. Portanto, o logotipo feito pelo Marcos Mündell, pareceu ser uma solução boa para equacionar esse problema da ilustração principal.

Tratou-se de um escudo, um brasão para melhor exprimir, com matiz prateada e a se revelar muito bonito, ao evocar em sua aura aristocrática ao título da banda. Em seu núcleo, há uma insinuação livre sobre o átomo, e na parte de cima, uma águia de asas abertas e pousada sobre o brasão. 

Embaixo, vê-se a ponta das garras da mesma ave. A águia em questão, era muito mais simpática que o dragãozinho metaleiro, disso eu não tive dúvida e na minha percepção, remetia muito mais ao shamanismo indígena, ao fazer-me lembrar de bandas como o Grand Funk Railroad, e obviamente o Eagles, pelo tema.

Sobre as fotos, a nossa amiga, a boa fotógrafa, Ana Fuccia, propôs uma sessão de estúdio com o uso de preto e branco e a banda a denotar uma atitude sóbria, com nós os membros a vestirmos roupas pretas. Todos apreciaram a concepção e ao pensar no conceito da capa, fazia sentido, é claro, mas particularmente, mais uma vez isso me chateara, pois se opunha aos ideais, mais a se coadunar com conceitos mais coadunados com bandas de Heavy-Metal oitentistas, naturalmente. 

Voto vencido, claro que eu não criei empecilhos e participei do processo todo, com profissionalismo, mas sem apreciar muito a opção, é claro.

A foto da contracapa ficou muito boa, pela qualidade da Ana Fuccia como fotógrafa, e dessa forma, o efeito de luz & sombra, mais os contrastes inerentes que a opção pelo preto & branco sempre proporcionaria. Porém, o grande trunfo visual desse álbum, foi a ideia de lançá-lo sob um formato "retrô", aí sim a fazer aos jus aos ideais "Chronophágicos", eu diria.

Batizado como: ".ComPacto", o disco abriu caminho para que ao invés de lançá-lo em uma capa de CD tradicional, a opção dele ser embalado através de uma capa de antigo compacto de vinil, ganhasse força e quando nós cotamos os preços para tal empreitada, e verificamos que não era diferente do custo de um CD convencional. 

Sobre o nome do álbum, eu também acho uma ideia muito criativa, e também dentro da proposta do álbum anterior, quando alardeamos o conceito do ato de se alimentar do tempo, ao estabelecermos a clara alusão que éramos uma banda dos anos 2000, mas fortemente influenciada pela estética das décadas de sessenta e setenta do século anterior. 

Portanto, ao falar de "ponto Com" (.Com), aludíamos ao presente tecnológico, a força da internet cada dia mais presente na vida das pessoas, e por outro lado, a junção com "pacto" a formar a palavra "Compacto", fez a conexão com o passado que admirávamos e onde buscávamos a nossa inspiração artística para construir o presente.

E houve uma terceira sutileza nesse título: "Com Pacto", que entendido separadamente, denotava a questão do princípio assumido pela banda, como "pacto", literalmente a se falar.

Em suma, se faltou colorido na capa e sobretudo em nossa foto com a banda a posar na contracapa (o P&B quase nos colocou sob uma posição lúgubre), todo o conceito esteve salvaguardado no formato do invólucro do disco, mas sobretudo no seu título, a conter três mensagens subliminares implícitas. 

Para se confeccionar a capa na gráfica, deu bastante trabalho. Foi preciso elaborar uma "faca" (que é o jargão dos gráficos para designar um molde especial para fazer o recorte do papelão), e com a derrocada do vinil desde os anos 1980, já quase não se achava uma gráfica disposta a fazer isso. Com pesquisa e uma perda de tempo inevitável, acabamos por descobrir que uma gráfica que ainda funcionava nas dependências da antiga sede da gravadora Continental, estava em atividade, mas nessa época, 99% focada em editar livros e revistas, naturalmente, além de folhinhas de calendário, cartões de visita etc.

Foram muitas visitas ao estabelecimento e que foi um tanto quanto melancólico, devo acrescentar, por que ali era um prédio enorme e que décadas atrás mantinha uma atividade alucinante, e nesse ponto parecia um edifício abandonado, com poucos setores ainda conservados, entre elas a gráfica a funcionar um galpão muito velho e decadente. 

Enfim, o importante foi que conseguimos o nosso intento e eu acho que foi uma boa conquista. pelo efeito que causou entre fãs e jornalistas, embora tenhamos tido problemas com muitos lojistas que reclamaram do formato da capa, pois estes não tinham mais prateleiras adequadas para expor discos de vinil, ainda mais compactos.

Sobre o encarte, o Luiz "Barata" Cichetto cuidou de toda a parte de do lay-out e o texto foi escrito pelo Rolando Castello Junior. Esse foi um dos raros discos da minha vida em que eu contribui muito pouco ou mesmo nada com a parte de texto do encarte. 

O disco foi prensado normalmente em fábrica de CD, mas nos foi entregue em pino, já que contratamos o serviço sem parte gráfica. A ideia da capa, não usual, fez com que por incrível que pareça, nós economizássemos, visto que a despesa pela capa estilizada ficou mais barata do que a capa tradicional vendida em pacote por indústrias que prensam CD's e oferecem o negócio casado aos seus clientes.

Sobre o encarte, tivemos a frustração de não terem sido disponibilizadas as letras das canções no disco anterior e nesse caso,  nós quisemos corrigir isso. Entretanto, com verba ainda menor, o encarte ficara bem mais simples, em preto e branco, apenas com texto e uma ilustração (bonita por sinal), de um antigo disco de vinil, a carregar consigo, uma bonita alusão ao passado.
Então, a solução foi produzir um encarte muito simples, como cópia de xerox mesmo e bancado por um patrocinador pontual que angariamos a posteriori, já com a capa e o disco em mãos.

Esse processo todo foi longo, consumiu-nos cerca de cinquenta dias, portanto, os meses de janeiro e fevereiro de 2003, foram gastos com essa produção e também com a produção do show de lançamento, mas essa é uma história que eu vou pormenorizar a seguir.
Continua...

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Autobiografia na Música - Magnólia Blues Band - Capítulo 16 - Por Luiz Domingues

O próximo convidado do projeto Quarta Blues foi o guitarrista: Marcos Mamuth. Professor, experiente e excelente guitarrista, Marcos Mamuth tornou a noite de 6 de agosto de 2014, super agradável, não apenas pela sua participação musical muito boa, mas também pela simpatia e camaradagem, que foi enorme.
Acompanhado de sua filha, que era uma estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, e de seu/meu velho amigo, o jornalista/baixista, Ayrton Mugnaini Junior, amigo em comum dele, Mamuth e do Kim, também, fiquei a elucubrar em quantas vezes eu tivera a minha trajetória musical permeada por jornalistas oriundos dessa faculdade, ao estabelecer uma espécie de "sina", mas das mais agradáveis, é claro. 

Figura espetacular, uma verdadeira enciclopédia humana, Ayrton teve a sua participação ao tocar no meu baixo, e foi um tremendo prazer revê-lo nessa noite. Depois dessa participação, ele mesmo salientou que o momento ficara histórico, por que nos conhecíamos desde 1980, e jamais houvéramos tocado juntos no mesmo palco, pelo fato de sermos ambos baixistas e com passagens pelo Língua de Trapo.

Ele foi de fato o meu substituto imediato, quando eu deixei a banda pela primeira vez, em janeiro de 1981, mesmo ao ter ficado pouco na banda, logo substituído por Luiz "Risada" Lucas, mas eternamente a gravitar na órbita do Língua de Trapo, inclusive a fornecer textos e ideias para os shows.

Ao se considerar que nessa noite de Quarta Blues ele participou não apenas a tocar com o meu baixo, mas também a cantar enquanto eu tocava baixo, foi de fato, a primeira vez em que atuamos juntos, de fato. E mais uma vez a sua prodigiosa memória tratou por demarcar esse encontro de 2014, como histórico, e o foi mesmo...
"Rebel Dog Blues", com Magnólia Blues Band + Marcos Mamuth + Ayrton Mugnaini Jr.

Eis o Link para assistir no You Tube:
https://www.youtube.com/watch?v=IaBTzKzYIjM
Mais uma vez o "The Blues Entrepreneur", Edu Dias apareceu, e também participou, ao trazer a sua gaita, vocalização e espírito de entertainer para a noite do Quarta Blues.
"Hootchie Coothie Man", com Magnólia Blues Band + Marcos Mamuth

Eis o Link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=NWs_zUImOm4
 
O próximo convidado do projeto, seria um velho companheiro de jornada, meu. E a grosso modo, eu não tocava com ele, desde 1987...
Continua...