sábado, 6 de agosto de 2022

Floresceres - Por Telma Jábali Barretto

Esse parece ser nosso destino, karma, dharma... trilhar. Eternos e mais ou menos solenes ou casuais... inesperados ou consequências daquilo que a experiência já antes anunciava e... como sementes, quebramos cascas e vamos trazendo à luz novas roupagens, diferentes formas de apresentação daquilo que no cerne já éramos nem mesmo sabíamos antes que as mais diversas revelações desmascarassem, expusessem... 

Seguimos entre espanto e admiração, encanto e decepção forjando quem viemos sendo, viemos conhecendo de nós, em nós e... daqueles com quem convivemos que, por vezes, criam o clima para tais despertares a eles levamos, consciente ou inconscientemente, ao processo sagrado desse contínuo inovar, recriar e reinventar que a vida se incumbe de propor, servir, oferecer como prato do dia em que alguns são apetitosos?!... ou... como única opção de serviço, "oferecimento da casa"... e seguem alimentando, abastecendo, nutrindo de forma pródiga! 

Muitos acontecimentos impactam como verdadeiras revoluções, quebras e disrupções marcantes, aqueles que ficam na memória com dia e hora definidos... Já outros vêm de mansinho tomando espaço devagar e sub-repticiamente vão definindo seus contornos e deixando suas marcas trazendo florescer, desabrochar que da perspectiva da flor nasceu, surgiu inaugurando novo existir e, de outro lugar, o da semente, fecha sua participação e atuação dando espaço ao fluxo da germinação bem-vinda onde, igual, humilde volta ao húmus que se forjará em outras facetas... rendendo-se reverente ao próprio fluxo, natureza, processo da Vida. 

Assim seguimos nós entre os ‘surgires‘ e rebentos já adormecidos, "adolescentares", "amadureceres" e "envelhereceres" e... "partires"’ nesse inevitável curso que em nós se fazem sementes, símbolo de promessas, botões e flores sinônimo de vir a ser, colheita e resposta ao adiantar do desfecho que segue, segue e seguirá sempre e nobre a cada etapa desse eterno vir a ser... ... ... nesse incorporar e abdicar carregados da beleza e importância dos ciclos perenes.

Que tenhamos a força da semente, o perfume irradiante da flor e a maturidade confiante, por vezes sábia e outras teimosa que insiste e no ‘junto e misturado’, no transitar em nós mesmos, dentro e fora, com tudo e todos, por nós e pelos demais, pela Vida... saudando oportunidades de revelações e floresceres!!!

 

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil é também uma experiente astróloga, consultora para a harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 120 - Por Luiz Domingues

Independente do que resolvíamos, se realizássemos a minha ideia mais modesta, ou a mais portentosa sugerida pelo Deca (ou melhor ainda, as duas somadas), eu finalmente tirei um tempo para me dedicar a uma primeira decupagem das duas fitas das quais dispunha com material de shows que cumpríramos nos anos noventa, na ambientação de estúdios de emissoras de rádio.

Conforme consta com detalhes em capítulos anteriores a cumprir a narrativa sobre tais ocasiões, nós participamos e gravamos duas apresentações ao vivo em emissoras de rádio. A primeira delas em 3 de junho de 1993, no estúdio da emissora Brasil 2000 FM de São Paulo, para o programa: "Clip Independente", apresentado e produzido por Osmar "Osmi" Santos Junior. Tal programa existiu inclusive por décadas, posteriormente e curiosamente, eu me apresentei nele a defender várias outras bandas minhas de carreira depois dessa ocasião (Patrulha do Espaço, Pedra e Kim Kehl & Os Kurandeiros), a comprovar a sua longevidade.

E em 2015, com apoio da produtora musical, Jani Santana Morales, eu pude viabilizar o lançamento de uma música extraída dessa apresentação em formato de clip, no caso, a nossa leitura do clássico de David Bowie, "Cracked Actor".

Assista o promo da nossa interpretação de "Cracked Actor" do David Bowie, oriunda dessa apresentação que fizemos no estúdio da emissora Brasil 2000 FM em junho de 1993.

Eis o link para ver no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=nA1oAjzFB6Y

Da mesma apresentação na Brasil 2000 FM em junho de 1993, a nossa performance para a música "The Shadow of the Light".

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=R1RQ7CGKEOg

Outra música que tocamos ao vivo no estúdio da Brasil 2000 FM em junho de 1993: "Candle Light".

Eis o link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=p8AcrUYhmgs

E já em relação ao outro material que eu dispunha, se tratara de uma apresentação realizada no estúdio da emissora 89 FM de São Paulo, em junho de 1994. Desta feita, a se tratar de uma apresentação bem informal, no formato acústico, mediante o uso de três violões e percussão, mesmo assim, longe da nossa performance elétrica habitual, o material se mostrou bem interessante.

E como ocorrera em relação à apresentação na rádio Brasil 2000 FM, eu também já havia providenciado um clip com uma música inédita em versão obtida dessa apresentação acústica, a se tratar de: "On The Rocks", cuja viabilidade técnica para tal, adveio através do apoio do então Site Orra Meu (e que anos depois veio a se tornar uma Webradio).

Eis a versão acústica da música "On The Rocks", inédita do Pitbulls on Crack, gravada em formato acústico durante a apresentação que fizemos no programa: "A Vez do Brasil" da 89 FM de São Paulo em junho de 1994.

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=C2eMt8SW_zo

Bem, ante essa primeira decupagem, na verdade eu já conhecia o potencial do material, haja vista os clips lançados anos atrás mediante tais gravações, porém, desta vez a minha percepção estava focada em analisar a possibilidade de lançar um ou dois discos, portanto, se tratou de uma outra percepção de minha parte para estabelecer um novo critério a partir daí.

De antemão, eu fiquei em dúvida se lançaria dois discos, com cada apresentação em separado, pois se assim o produzisse, deveria levar em conta a perspectiva de manter os diálogos neles envolvidos. Ora, para quem leu todos os capítulos referentes à minha história com essa banda, sabe bem que o ótimo potencial humorístico existente na personalidade natural dos meus três colegas, sempre foi uma marca registrada da nossa banda em sua ambientação interna, portanto, as piadas surgidas durante esses dois shows e proferidas ao microfone, a atingir o público que nos ouviu nessas duas ocasiões, foi enorme e nesse aspecto, eu acho que valeria a pena manter, se não todas, muitas dessas intervenções, até para refletir bem como era o ambiente da banda.

No entanto, a questão de se colocar tantos diálogos em um disco, a despeito da graça das várias bobagens proferidas nas duas apresentações, poderia ficar um tanto quanto deslocado, pois nem todo o ouvinte dos discos levaria essa característica observada na história da nossa banda em conta, nos dias atuais.

Portanto, eu fui obrigado a ponderar que uma outra hipótese poderia ser colocar todas as músicas compiladas dos dois shows em um mesmo disco e assim torná-lo mais robusto musicalmente a falar, ao suprimir os diálogos.

Enfim, foi apenas a primeira decupagem que eu cumpri, logo no início de 2022, e foi mais para estabelecer a metragem das músicas e checar a performance artística de cada canção, ainda que superficialmente. Todavia, outras decupagens seriam feitas a posteriori para que eu pudesse observar outras questões e dai ter uma noção melhor de como produzir esse material em disco.

Em abril, no dia 5, para ser específico, o ótimo jornalista, Tony Monteiro, anunciou que tocaria uma música do Pitbulls on Crack na programação do seu bom programa, "Rock'n' Brasil" pela Webradio MKK e assim ocorreu, com repetição no dia 10, quando ele colocou no ar a música: "Ups and Downs".

Continua...    

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 119 - Por Luiz Domingues

Alguns meses se passaram depois daquelas novidades já citadas que ocorreram para o Pitbulls on Crack no ano de 2021. E já no avançar de 2022, eu havia conversado bastante com o Deca e o Chris. 

Dessa forma eu apresentei a minha proposta para lançar um (ou dois, se fosse o caso) disco pirata com material ao vivo da nossa banda coletado nos anos noventa e o Deca se animou com a ideia, ao sinalizar que apoiaria sem reservas, em uma primeira instância. Entretanto, mediante algumas conversas travadas a posteriori, ele lançou uma outra proposta e que na prática seria muito mais ambiciosa de sua parte.

A sua proposta foi de escolher uma ou duas músicas inéditas entre as muitas compostas e gravadas em fitas demo da parte do Chris e a seguir, que nós entrássemos em um estúdio de alto padrão (ele citou o "Orra Meu" dos irmãos Schevano e onde o "Baranga", sua banda desde 1999, gravara os seus mais recentes álbuns e um outro, também super moderno e cuja operação estava a cargo do produtor, Heros Trench, famoso no mundo do Rock pesado nacional), para gravarmos e depois que nós fizéssemos uma peregrinação de divulgação nos meios possíveis (para efetuar tal empreitada, ele disponibilizou de pronto diversos contatos modernos que o "Baranga" tinha em aberto na ocasião para nos encaixar com facilidade, dentro da mídia alternativa especializada). 

E a depender da repercussão desse esforço, a possibilitar pensarmos em mais do que um show reunião de caráter nostálgico, mas a abrir a perspectiva para se concretizar uma sequência.

Ora, eu achei a sua proposta muito boa e me coloquei à disposição dessas ações, no entanto, a minha proposta bem mais modesta em torno de um disco pirata com resgate de material antigo dos anos 1990, e um único show reunião, não deveria ser descartada, e dessa forma, eu insisti para que essa proposta se mantivesse e que em paralelo, poderíamos conversar sobre a proposta por ele formulada.

Continua...

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Um Mundo Têxtil - Por Luiz Domingues

É algo tão óbvio quando tomamos consciência de como funcionam os costumes mais elementares, no entanto, nessa fase de torpor, a necessidade de se usar o tecido como apoio ao corpo humano, é um costume importante.

A questão da manutenção de temperatura é um fator que intuitivamente o bebê vai notar de imediato, mas vem a reboque a boa sensação de bem-estar motivado pela resolução perfumada no momento do pós-troca de fraldas a interligar a questão da secura e consequente eliminação de odores fétidos.

E além disso tudo, a sensação tátil também vem à tona, com os aspectos da maciez dos tecidos felpudos ou acetinados, ou seja, o prazer de tocar em tais superfícies e a revelar um aprendizado interessante sobre o contato com a matéria.

Mais um fator a ser envolvido é o visual, quando a questão das diferentes cores para cada peça utilizada, certamente nos estimula a começar a entender o processo da vida material.

Mais para a frente, no adentrar da infância, os valores morais e sociais são entendidos certamente, com a questão do pudor a preservar a integridade e também a se acrescentar questão da moda e a reboque o lado ruim dessa perspectiva, a se destacar a discriminação social de quem não pode comprar peças mais requintadas e é maltratado por vestir peças consideradas inferiores. No entanto, esse não é ponto desta crônica e merece reflexão em outro fórum, é claro.

Ainda nessa fase inicial da vida, somos introduzidos à ideia de que o tecido não é apenas um invólucro para o corpo, mas nos cerca por todos os lados. A chamada roupa de cama, mesa & banho, como se costuma dizer e os comerciantes desse ramo de atividade tanto gostam de enfatizar nas suas ações de propaganda.

Entretanto, nessa fase da vida, o contato com os tecidos de uma maneira geral, também causam os seus transtornos. O calor, quando o tecido aquece em demasia, a se mostrar inadequado, é mais do que um incômodo passageiro para quem não tem a mínima noção de como funciona a vida.

Para o bebê, quando esquenta o ambiente, o incômodo é insuportável e mesmo que o adulto perceba rapidamente a inadequação da vestimenta em contraste com a temperatura local e tome a providência para refrescar o seu corpinho, o transtorno é enorme e potencializado pela completa falta de noção do aspecto do tempo, ou seja, pouco importa que a sensação tenha sido observada por poucos minutos ou até segundos, até que o adulto aparecesse para mudar o quadro, pois o que prevalece é a sensação ruim do desconforto.

Sobre os odores fétidos que se impregnam nos tecidos, creio que quando mencionei o perfume que advém das trocas de fraldas, já deixei implícita a ideia desse contraponto. Neste caso em específico, creio que o incômodo por tal tipo de contato extrapola a própria obviedade dessa constatação, ao sugerir o aspecto da potencialização dos odores. A contraposição se dá com a associação do pós-banho com a roupa seca, limpa e cheirosa.

Qualquer manifestação escatológica ao tomar contato com os tecidos em geral, trata por aumentar a graduação dos odores desagradáveis e na percepção do bebê, uma primeira associação, ainda que confusa, é a de atribuir o incômodo ao tecido em si e não à própria natureza humana que produziu aquele estrago, várias vezes ao dia, inclusive.

Neste caso, será que a intuição chega a formatar a associação de que um tipo de tecido é benéfico ou maléfico, ou simplesmente não há tempo hábil para tal impressão tão primitiva influir na percepção do bebê?

Em suma, ao menos na minha experiência pessoal formatada por lembranças difusas dessa fase da vida, o contato com os tecidos de uma maneira geral, representaram um dos mais fortes aprendizados iniciais sobre a minha estada na vida material, ao dar início a uma percepção concreta de que aquela sensação mental tão difusa foi algo mais do que um sonho confuso.

domingo, 24 de julho de 2022

Crônicas da Autobiografia - Leite Interrompe Viagem? - Por Luiz Domingues

                  Aconteceu no tempo do Boca do Céu, em 1977

Em tempos setentistas, ainda sob a forte influência contracultural sessentista, certos comportamentos observados no cotidiano de muitos Freaks, Hippies & Rockers de uma maneira geral (e que se contabilize nessa lista, o contingente formado pelos aspirantes a tais status descritos anteriormente), se colocavam no limite do perigo ao buscar a liberdade de viver da maneira que quisessem em contraposição frontal contra os costumes conservadores observados no bojo da sociedade e por conseguinte, tratados como marginais ante a criminalização tão controversa de certos hábitos de consumo que se em épocas passadas eram consideradas corriqueiros, eis que por força de decretos a atender interesses obscuros, se tornaram proibitivos tempos depois, e assim permaneceram nesse começo de segunda metade do século vinte, lamentavelmente a apontar para o atraso institucional. 

O incrível grupo de Rock, "O Terço" com a formação que assistimos muitas vezes ao vivo nessa ocasião 

E foi assim que em meados de 1977, um grande amigo (mas cujo nome não vou revelar para não lhe causar constrangimento, embora ele mesmo costume se lembrar dessa história sempre que nos encontramos até nos dias atuais, 2022, e rimos muito do ocorrido em nossas conversas nostálgicas sobre os anos 1970), surgiu na porta da minha casa em um determinado dia de semana, no período da noite, para tocar a campainha da minha residência inesperadamente, haja vista que não havíamos combinado um encontro e normalmente nos encontrávamos às sextas, sábados e domingos, quando na companhia de outros amigos em comum, frequentávamos todo o tipo de ambientes culturais, notadamente os shows de Rock e MPB que fervilhavam pela cidade, semanalmente.

Claro que eu estranhei, pelo dia inusitado em si e também pelo horário avançado, mas logo que o vi no portão com os olhos esbugalhados, cabelo desgrenhado e expressão facial a denotar uma certa confusão no controle dos sentidos, fui logo abrir a porta e recepcioná-lo para ajudar o amigo que nitidamente estava sob algum apuro momentâneo.

Bem, ele nem precisou explicitar que estava com o seu estado de consciência um tanto quanto alterado, embora já tenha se expressado de imediato a afirmar que precisava "fazer um pouco de hora" ou seja, a denotar que não poderia voltar imediatamente para a sua casa sob tal situação e assim ser flagrado pelo seu pai que desconfiaria do que ele havia consumido e que lhe dera uma sensação de bem-estar, certamente, mas que também deixava rastros sobre a própria ingestão, naturalmente.

Foi então que eu também me preocupei, pois não somente o pai dele estranharia, mas o meu, igualmente, pois o meu progenitor era também moldado pelos mesmos valores vigentes e talvez se contrariasse com o fato do rapaz estar naquele estado alternado de consciência e mesmo que eu estivesse absolutamente normal, dentro de casa e a viver momentos pacatos dentro da normalidade de um dia comum do cotidiano familiar, a cisma dele já estava grande comigo, também em relação aos meus amigos e toda aquela ambientação da banda de Rock que havíamos montado recentemente e por nossas idas constantes aos shows de Rock dos artistas consagrados da época, ao mantermos estilo de indumentária de hippies, cabelos longos etc. e tal.

Qual foi a solução mais improvável que eu tomei e com total aprovação do meu amigo que estava a querer voltar para a, digamos, "terceira dimensão?" Bem, eu propus que ele tomasse uma boa quantidade de leite puro, bem naquela predisposição prosaica do âmbito familiar, a acreditar em postulados antigos em termos de crenças fomentadas por avós, bisavós e que vão a passar de geração em geração como verdadeiras afirmativas, porém sem comprovação científica alguma que as respalde.

Mas como ele era moldado pela mesma forma cultural que a minha e de quase todo mundo em nosso espectro social, nem o fato de sermos abertos ao novo, completamente alucinados pelas possibilidades contraculturais que nos encantavam na ocasião, nos fez raciocinar por um segundo que fosse, o quão retrógrada fora tal ideia estapafúrdia e a despeito de simplesmente não gerar o efeito de um antídoto como imagináramos, ser algo contraditório para nós que queríamos mergulhar na euforia hippie da liberdade e fuga de todos os condicionamentos "caretas" da sociedade conservadora, ou a trocar em miúdos: na prática, o que prevaleceu ali foi a receita falaciosa que ouvíamos dos nossos avós, bisavós e demais antepassados que viveram ainda sob os costumes medievais em inúmeros aspectos e assim nos criaram.

Bem eis que o meu amigo tomou vários copos de leite a configurar tal ato de sua parte quase como a mesma saciedade de um bezerro atrelado nas tetas da sua mimosa mãe, porém, além de preencher o estômago com uma quantidade significativa de lactose sob uma dose de mamute, e no caso, de um touro, é óbvio que a ingestão de tal produto lácteo não o ajudou em nada a abreviar o período normal em que duraria a sua euforia e assim, a solução foi mesmo gastar tempo na minha residência até que pudesse se sentir "recomposto" para chegar em sua habitação e seu pai não estranhasse o seu comportamento e aparência fora do padrão naquele instante.

O que ele ingeriu era lícito ou ilícito? Pois é, se naquela época essa questão era completamente questionável sob o ponto de vista moral, o que dizer nos dias atuais (escrevi esta crônica em 2022)? 

E mais um ponto, até quando a hipocrisia conservadora vai dominar a sociedade ao fazer com que os legisladores mantenham tal predisposição de criminalizar algumas substâncias e liberar outras e sobretudo, a determinar com tais leis estapafúrdias, comandar os corpos das pessoas?

E sobre o que o meu amigo ingeriu para ter aquele momento de bem-estar e torpor ao mesmo tempo, não vou revelar o que foi exatamente, mas deixo para o leitor pensar: pode ter sido algo considerado proscrito pela lei vigente e que fazia com que os policias espumassem de raiva quando achavam tal substância no bolso de um jovem, dentro da sua lógica ilógica. 

Ou foi algo completamente legal, vendido em qualquer supermercado e amplamente incentivado pela sociedade, decantado em verso e prosa pelos publicitários ávidos por ganhar dinheiro e que, acrescente-se, quando ingerido, proporciona com que muitas pessoas se tornem violentas ou completamente irresponsáveis ao dirigir veículos, a causar graves acidentes e matar pessoas inocentes pelas ruas.               

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Em Cervallis, Só é Feliz quem Bebe Erjadis - Por Luiz Domingues

Formação de opinião gera paradigma e depois de criado, este tipo de norma tende a demorar para ser rompida, a caracterizar um círculo vicioso, quiçá a se tornar uma ação monolítica ao estilo de um moto perpétuo.

Quando começa uma crença desse porte, que se perpetua ao longo de um longo tempo? Pois é, até que alguém a conteste e proponha a mudança que pode ser libertadora ou aprisionar em outra crendice, superstição etc.

Dentro desse contexto, um dos mais antigos paradigmas formatados na história de um planeta distante chamado, Cervallis, dizia respeito a uma bebida, por incrível que pareça, e a despeito de seus fabricantes que não desejavam que o glamour gerado em torno dela, mudasse na mentalidade da sua população, por motivação óbvia, era algo questionável ao extremo que a sua glorificação se mostrasse inalterável há milênios.

É dentro de tal contexto que eu começo esta história, a narrar uma estatística que espelha bem o que foi a força do paradigma que glorificou a tal bebida em si, ao dar conta de que dez a cada dez habitantes desse mundo se orgulhavam de serem consumidores contumazes desse produto, a se tratar de um líquido de cor verde e fermentado a partir de um cereal local que ali era cultivado. Tal bebida gerava como efeito colateral, um estado de euforia que segundo os seus consumidores, era o seu diferencial para se obter o prazer, muito além do sabor em si, que eles admitiam ser algo amargo no paladar e pegajoso na sua consistência, em essência.

Enfim, não era apenas por essa sensação de euforia ao se beber e gostar de experimentar tal sensação, mas havia todo um cenário a glorificar a ingestão e muito mais do que isso, a pressão psicológica imensa que foi exercida, fez com que o uso do produto fosse considerado um hábito nobre a ser enaltecido, cantado em verso e prosa nos meios culturais locais, a alimentar a massificação através dos esforços engendrados pelos profissionais designados para enaltecer a bebida, algo similar ao que os publicitários fazem no planeta Terra, além dos agentes de diversos setores, incluso do poder central de Cervallis, mantenedor da ordem social e organizacional daquele mundo.

O massacre social e cultural se tornou tamanho que passou a ser considerado inconcebível que um Ser nativo desse planeta não fizesse uso dessa bebida que gerava euforia efêmera, e assim, por conseguinte, os raros casos de criaturas que não gostavam e não usavam a bebida, passaram a ser ridicularizadas pelas demais.

Apesar da estatística acima citada, havia a percepção de exceções e de tão insignificante que era, simplesmente não era contabilizada. Este foi o caso em particular de um habitante desse planeta, que simplesmente não gostava da ingestão dessa propalada bebida.

O seu nome era Z’Par e desde que ele nascera, demonstrava de uma forma muito natural não nutrir apreço pelo produto. À medida em que ele cresceu e se socializou, foi vítima das reações de estranheza de seus semelhantes por esse fato que à guisa da formação de opinião, soava como uma atitude absurda, mas para ele, era apenas uma opinião natural e justificada pelo fato de que nunca, em momento algum, apreciou o sabor e o aroma da bebida e a tal euforia artificial que tal produto provocava no comportamento desses Seres, simplesmente não lhe interessava.

Enquanto a opinião pública apenas glorificava o uso do produto, devidamente convidada a espalhar a ideia de que para se ter uma existência plena isso só seria possível mediante o uso do produto, Z’Par não acreditava nesse preceito, decididamente, porém isolado, ele se mantinha o máximo possível discreto sobre tal questão, justamente para não sofrer a pressão exercida pela imensa maioria de seus semelhantes, que pensava diferente.

Enquanto a discrepância de pensamento ficava alojada apenas no âmbito social e cultural, se constituía de algo suportável para ele. Mas o simples fato dele não ingerir e mesmo que não fizesse nenhum tipo de discurso a criticar quem gostava e muito menos sobre o produto em si, o fato foi que gerou antipatia ao seu redor.

Considerado como um estranho entre os seus pares, ele foi violentamente criticado por um colega em uma cerimônia pública em que estava presente na multidão e então, com a massa insuflada, sentiu uma opressão tamanha que só lhe restaram duas alternativas: aderir à vontade da maioria e beber aquele líquido esverdeado ou subir à tribuna e defender os seus argumentos para não desejar fazer uso da bebida.  

De uma maneira ou outra ele continuaria a ser ridicularizado e a depender do que fizesse e falasse, poderia até ter a sua vida completamente destruída doravante, sem ambiente para viver naquela sociedade.

Foi então que ele sentiu que não poderia lutar contra uma força avassaladora e decidiu subir e a fazer uso do sistema de som, passou a discursar de uma maneira deveras prosaica, a explicar aos soluços as suas razões pueris que o desmotivaram a tomar a bebida mais popular daquele planeta.

A sua fala ingênua, mesma imbuída da maior sinceridade de sua parte, haveria de apaziguar o sentimento de estranheza em relação à sua postura, da parte daquela multidão sob opinião formada e sacramentada ao contrário do que ele pensava?

Pois é, a vaia seguida de gargalhadas que ele recebeu do povo ali presente o deixou tão simbolicamente pequenino naquele instante, que nem mesmo que ele bebesse a glorificada bebida para satisfazer a vontade daquela turba, tal atitude o salvaria da execração pública pela qual foi submetido. 

Cabisbaixo, ele caminhou sob os gritos da massa a execrá-lo e ironiza-lo e certamente a se sentir um criminoso por haver cometido um ato hediondo e imperdoável, tamanho o sentimento de culpa que lhe foi imputado, injustamente é claro.

Tempos depois, ele se inscreveu em um plano de voluntariado para ajudar a colonizar planetas inóspitos, habitados por Seres em um estágio primitivo de civilização e ao deixar o seu planeta, considerara que não seria reconhecido e incomodado pela sua discriminação local.

Uma vez inscrito no programa de apoio aos planetas mais atrasados tecnologicamente, ele foi informado que partiria para o planeta chamado: “Skomirnof”.

No entanto, eis que ao entrar na nave, ele foi instruído por um tripulante a prestar um serviço de apoio na área de cargas. Ao chegar no imenso bagageiro de cargas da nave espacial, Z’Par viu um carregamento gigantesco da famigerada bebida “Erjadis”, todo embalado com a seguinte inscrição assinalada em seus respectivos baús: “a vida no planeta Skomirnof só vai progredir quando todos os seus nativos beberem Erjadis, como nós de Cervallis”.

sábado, 16 de julho de 2022

Civilização x Barbárie - Por Luiz Domingues

Em um país dominado por um regime fechado, autoritário e bastante hostil às questões culturais, um grupo de amigos se organizou para promover pequenos saraus literários, onde liam-se os textos e poesias que escreviam.

No entanto, ao viverem tempos difíceis, eles tinham medo da opressão do regime que odiava manifestações culturais e dessa forma, eles tomavam toda a precaução para tornar as suas reuniões seguras. E por conta dessa predisposição para se manter um padrão de segurança, eis que um deles sugeriu que os saraus ocorressem na sua casa e havia uma questão inusitada para que tal agendamento ocorresse.

Nesse contexto, por ironia do destino, esse rapaz que oferecera a sua residência para servir como base das reuniões promovidas pelos entusiastas da literatura, era filho de um funcionário de alto escalão desse governo horroroso, frontalmente contra a cultura. No entanto, segundo ele enfatizava sempre aos seus amigos, o seu pai não compactuava com os atos pautados pela barbárie que esse governo protagonizava e tal contraste chamava a atenção de todos, positivamente nesse caso, é claro.

E ao ir além, esse pai era um entusiasta das artes, igualmente, portanto, se posicionava como um verdadeiro antagonista da linha de ação do próprio governo pelo qual ele trabalhava. 

Essa estranha posição tomada por esse pai, ao mesmo tempo que causava admiração dos rapazes e orgulho para o seu filho, gerava dúvidas. Certa vez, um dos rapazes criou coragem e perguntou diretamente para esse senhor, por qual motivo uma pessoa que era intelectualizada, amava as artes e se mostrava a favor da evolução do padrão civilizatório, trabalhava para um governo que cultivava métodos acintosamente bárbaros, no sentido oposto?

Nesse instante, todos ficaram constrangidos e houve até quem temesse pelo pior, com o senhor a se mostrar ofendido e por conta disso, a demonstrar alguma reação violenta. 

Porém, o senhor não se alterou nem um milímetro em seu comportamento padrão e educadamente respondeu que “não concordava com certos exageros que esse governo perpetrava, mas achava que o endurecimento do regime era necessário, pois o povo não estava preparado para viver sob um regime livre e que mediante tal estratégia de ordem educativa, após um tempo de maturação, esse dia sem opressão e com fomento à cultura chegaria para a nação”.

Foi uma boa resposta diplomática, mas na verdade, ninguém ali se satisfez com tal desculpa que lhes pareceu esfarrapada. Mas tudo bem, apesar dos pesares, esse pai “liberal” estava sendo gentil ao extremo ao oferecer a sua residência para os rapazes realizarem os seus Saraus em segurança, inclusive ao se arriscar perante os seus pares no governo e mais do que isso, esse senhor gostava verdadeiramente de participar, pois apesar da sua contradição pessoal completa ao trabalhar para um governo cruel e despótico, ele de fato amava as artes e assim, tinha prazer de participar de tais reuniões como um ouvinte entusiasmado.

Em uma outra ocasião, quando os rapazes chegaram para mais uma noitada do sarau, eis que foram surpreendidos com a presença de um pequeno grupo de pessoas estranhas ali presentes. Vestidos com trajes de gala, eram cantores que faziam parte de um coral com cunho religioso. 

O dono da casa, esse pai acolhedor de um dos rapazes do Sarau estava muito eufórico com essa presença musical que ele considerava esfuziante e fez questão de apresentar o grupo de cantores aos rapazes. E a seguir, os vocalistas se puseram em ação ao cantar uma peça ufanista e bem piegas, típica do cancioneiro que embalava aquele regime, bem naquela predisposição de que “a cultura doravante vai ser assim ou não será nada”, como preconizara um certo publicitário que servira a um regime asqueroso do passado e certamente inspirador para essa gente.

Naturalmente que os rapazes se entreolharam, mas nada disseram, para não ferir os sentimentos do amigo e principalmente do pai dele, que a despeito de suas contradições inexplicáveis, se mostrava extremamente generoso para com eles.

Contudo, gestos assim reforçavam a questão da dubiedade, pois eles pensavam o óbvio em uníssono: como seria possível ser um entusiasta das artes e trabalhar conjuntamente e admirar aquele governo formado por trogloditas empenhados em promover o retrocesso?

Todavia, a mais grotesca situação estava por acontecer! Eis que em uma outra noite marcada para ser promovido o sarau, os rapazes chegaram à residência e ao passarem pela sala de estar, se espantaram ao deparar com as figuras de dois ministros de estado e um parlamentar, a conversarem com o pai de seu amigo.

Estes verdadeiros carrascos da civilização, olharam estupefatos para os rapazes, com aquele olhar de desconfiança de quem certamente os considerara como possíveis opositores do regime. E os rapazes por sua vez, sinalizaram com cumprimentos discretos e se evadiram rapidamente a alegar que iriam estudar em grupo, para disfarçar e certamente a cancelar o sarau naquela noite.   

Bem, se havia dúvida entre os rapazes sobre quem era o pai bondoso de seu amigo a julgar pelo convívio com eles nos saraus, em confronto como ele agia enquanto agente governamental, depois desse evento, eles decididamente ficaram ainda mais confusos.

sábado, 9 de julho de 2022

Fora da Caixa... - Por Telma Jábali Barretto

Quem nunca?!...já não se sentiu assim ou pior, foi taxado, batizado, nomeado dessa forma?!... Quando de dentro para fora sentimos isso vale uma boa, atenta e profunda análise se não provém de uma vitimice dolorida ou ainda uma crise de megalomania iluminada?!... Todos, absolutamente, todos nós mesmo temos algo dessa coisa incomum e JAYA!!!

Não nascemos, surgimos e aqui estamos para ser iguais, iguaizinhos, feitos em série, como coisas e máquinas e... aí está! a beleza e a dor de cada um. Mais que isso a singularidade traz e deixa nossa marca, rubrica e verdadeira assinatura, digital. Acessar esse patamar exige de nós tamanho, um certo grau de autoestima de quem reconhece os próprios valores sem, também, deixar de ter noção de suas debilidades. 

Quem constrói, construiu uma trajetória de empenhos transpondo desafios, testando seus limites no ir além mesmice e mesmices essas aqui mencionadas em referência a nós mesmos, dando passos inovadores confiando nos ganhos e derrotas anteriores, inevitáveis que chegue, a essa forma sagrada de excentricidade bem-vinda que não advirá de uma concessão ou reconhecimento alheio mas daquele e único que aí e então importa, de si mesmo. 

Não são ou serão plateias que autorizarão tais nomeações mas só e tão somente a segurança das conquistas interiores, das satisfações pessoais, das alegrias que normalmente são reverberadas e aí e sim, ao nosso redor, mesmo que não sejam unânimes mas a história narra, melhor constata, e essa sim só tempo mesmo revelará. Mais e mais com isso somos levados a dar a devida importância às convivências, às valiosas trocas que, naturalmente, provocam essas percepções: detectamos aquilo de próximo há muitos nesses tangenciares da vida, Vida, VIDA e parte da jornada será e sempre o reconhecimento do diferente, do incomum, do “fora da caixa” em nós, no próximo, no Uni Verso, na multiplicidade de que somos parte e só mesmo quem soube transitar pelas próprias normalidades e idiossincrasias sentirá e reconhecerá, como dissemos antes, a beleza e a do de se ser quem somos! 

Nem sendo mais e nem menos, sendo reverentemente quem somos e respeitando e idem idem idem reverenciando todo e qualquer outro, outrem, quem seja... sem que precisemos de placas, outdoors ou reconhecimentos externos mas numa consequência natural das maturidades reveladas. 

Que assim caminhemos, sejamos Uno e Diverso, únicos e mais um... identificando a mesma Essência e a encantadora forma que cada qual a veste em seu existir. NA MAS TÊ!

 

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga, consultora para a harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga.