sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Projeto Cultural GuapoRock/Ednei Genari - Por Luiz Domingues

Toda vez que eu tomo contato com projetos culturais imbuídos de bons propósitos, me entusiasmo de imediato, pois admiro demais a força de trabalho de ativistas culturais apaixonados, que não medem esforços para tocar iniciativas desse âmbito.

É o caso do radialista, poeta e ativista cultural, Ednei Genari que encabeça o festival GuapoRock, um grande festival de Rock realizado na cidade de Guaporé, no Rio Grande do Sul.

O radialista, poeta e ativista cultural, Ednei Genari. Foto: Thais Reder

Apaixonado pela música (Rock em específico), poesia e literatura em geral, ele está à frente de um programa de rádio na emissora “Liberal FM 102.1” de Guaporé-RS, há bastante tempo (programa “GuapoRock Rádio”), e também idealizou no ano de 2014, a produção de um CD coletânea a conter a presença de diversos bandas locais, para que tais artistas pudessem se colocar no mercado fonográfico mediante um impulso inicial e que assim seguissem com os seus esforços individuais para avançarem em suas respectivas carreiras, doravante.

Tal álbum recebeu o nome de: “GuapoRock, o Rock da Nossa Terra!”. O resultado dessa primeira investida foi tão significativo, que no ano seguinte o empreendedor cultural produziu mais um disco nos mesmos moldes, com a presença de mais dez bandas locais.

Nessa altura dos acontecimentos, o Projeto GuapoRock ganhou muita notoriedade e passou a contar com o apoio da prefeitura municipal de Guaporé-RS e da sua respectiva Secretaria de Turismo e Cultura e assim, foi quando recebeu o suporte adicional da Associação Guaporense de Automobilismo que se abriu o campo ideal para a realização de um grande festival de Rock e consequentemente, além do fomento à cultura e espaço aos artistas, se tornou também uma atração turística forte para a cidade. 

Com tal sucesso assegurado, os empresários, comerciantes, rede hoteleira e de alimentação da cidade, entraram com tudo no esforço de cooperação e o festival cresceu ainda mais, ao se tornar multicultural e abranger outras artes, como o cinema, teatro, dança e literatura, além de promover muitas palestras. E claro, a conter cerca de trinta shows de Rock proporcionados pelas bandas da cidade e região.

Cada vez mais vitorioso, o Projeto Cultural GuapoRock passou a fomentar também um festival estudantil e cuja premiação maior foi assegurar vaga para que os vencedores pudessem participar do GuapoRock e garantir espaço nas coletâneas em CD promovidas pelo projeto.

Ednei Genari, um empreendedor cultural incansável. Foto: Thais Reder

Com apoio maciço do poder público local, além de diversos setores produtivos da sociedade civil, profissionais liberais e classe artística e da intelectualidade em peso, o festival não parou de crescer e nessa altura, a conter toda uma movimentação em torno da solidariedade, ao arrecadar alimentos como forma de pagamento da parte do público em troca do ingresso.

E assim chegou ao ponto de contribuir decisivamente para atenuar as necessidades das famílias carentes da localidade, a provar que cultura e fraternidade sempre caminham juntas, de forma intrínseca.

Passado mais um tempo, Ednei Genari (e com a ajuda de seus muitos apoiadores), mais uma vez inovou, ao trazer à tona mais uma faceta muito rica dessa múltipla ação cultural, quando propôs a entrada no mercado editorial, ao lançar uma coletânea em 2020, no caso, uma antologia poética denominada: “Miscelânea”, com a presença de diversos autores, de poetas sedimentados no mercado editorial a talentos desconhecidos do grande público, mas com muito a dizer e assim, tal como os CD’s e o Festival de Rock, o livro abriu um campo para diversos artistas do mundo literário, principalmente os que nunca haviam tido a oportunidade de ver um trabalho seu publicado anteriormente.

Portanto, de forma amplamente democrática, a ideia de um livro com tal característica abriu espaço para diversos poetas recônditos, com poemas escritos e guardados em gavetas por anos a fio e que assim, puderam colocar as suas obras em exposição eterna através do livro.

Um exemplo pinçado do livro, com dois poemas de Ednei Genari

Com prefácio assinado pelo consagrado poeta, Adão Wons (e a agregar a presença de trinta poemas de sua autoria para abrilhantar o livro), há também a presença de poemas de Leandro Henrique Ortolan (que também colaborou como revisor do livro), Irene Giroldi Vieira, João Luis Tesser Reder, Mário Henrique Acco, Zeneide Pires da Rosa, Justina Inês Miotto Roman, Cecilia Pagnocelli Rodrigues Pereira, Gabriela Pagnocelli Ramos Pereira e do próprio radialista e mentor do Projeto GuapoRock, Ednei Genari, além de apresentar mais uma iniciativa muito salutar, no sentido de abrir espaço igualmente para jovens talentos pinçados entre estudantes de duas escolas públicas da cidade, a fomentar o incentivo à leitura, escrita como uma atitude a ser cultivada e pelo emblemático objeto do livro em si, como um dos grandes símbolos da cultura. Neste caso, há a presença dos jovens: Eloysa Troyan, Pedro Henrique Cemin Cestari, Luísa Rommel Schakofski Santos, Eduardo Belotti e Letícia Vicenzi.

No ano seguinte de 2021, mesmo com a pandemia mundial em curso, eis que o Projeto Cultural Guapo-Rock avançou e lançou a segunda edição, desta feita denominada como “Miscelânea Volume 2/ Uma nova Antologia Poética”.

Tal obra saiu com um tamanho ainda maior em relação ao primeiro livro, portanto a abrigar mais poesias e registrar a presença de mais poetas.

A capa desse volume 2, traz a ilustração (assinada igualmente pelo artista, Josué Cristovão Benvegnu que trabalhou no primeiro livro), a retratar as irmãs Da Silva dos Santos, Cantalícia e Doralícia, duas personas bem conhecidas pelos habitantes de Guaporé-RS, pelo fato de ambas interagirem com alegria pelas ruas da cidade com todos os cidadãos com os quais encontravam no seu cotidiano. 

E na contracapa, há uma outra homenagem que foi feita por esse bom desenhista, ao retratar a figura da senhora Diamantina Rodrigues, conhecida na cidade pelo carinhoso apelido de “Flor da Praça”, ou seja, a denotar que essa simpática senhora habitava aquele espaço público e que apesar da sua debilidade social, espalhava doçura para os transeuntes que ali passavam.

Mais uma vez a mesclar autores consagrados tais como: Adão Wons (este poeta já foi citado anteriormente), Angela Maria Tiberi (escritora e poetisa italiana, autora de muitos livros e renomada internacionalmente), Alemão Velliaria (vocalista da banda de Rock, “Velliaria”), Leandro Henrique Ortolan (um jovem autor de livros muito bem cotados no mercado editorial), o famoso artista da música folclórica gaúcha, Thiago Reder, Cristiano Varisco (guitarrista com muitos trabalhos gravados), e outros autores de Guaporé-RS e cidades vizinhas, este volume dois abriu espaço para inúmeros talentos, a provar que o incentivo à poesia, leitura e fomento aos livros, é uma esperança para que tenhamos um futuro melhor.

É um luxo para o livro conter um poema de autoria da poetisa italiana, Angela Maria Tiberi e ainda mais denominado como: "Pier Paolo Pasolini, que faz alusão ao grande e saudoso cineasta italiano

Outros autores presentes no livro com os seus poemas: Alexya Christine Vieira da Silva, Antonio Cesar Perin, Bruna Cenci Capitanio (esta autora já com um livro seu publicado), Cássia Áscoli Bagattini, Cecília Pagnoncelli Rodrigues Pereira (esta autora também já presente com poemas de sua autoria em uma outra coletânea lançada por uma outra editora), Cesar De Pizzol, Daisy Fortes (esposa do Luthier, Gustavo Trubian), Evandro Ricardo de Souza, Fábio Gutterres Fernandes, Fernando Rodrigues Garcia, Helena Maria Balbinot Vicari (uma professora famosa em Guaporé-RS por ter mantido uma vasta correspondência com o poeta Carlos Drummond de Andrade, nos anos 1960), Irene Giroldi Vieira, o músico Joel Marafon, Justina Inês Miotto Roman (poetisa também com outros poemas publicados em outros livros), Magda Anastacio, a ativista cultural Raquel Schneider, o doutor Rogério Gastal Xavier (médico bastante renomado na região de Guaporé-RS), Rubensmar Alves dos Santos, Sílvio Denis Volpato e do próprio mentor do Projeto Cultural GuapoRock, Ednei Genari.

Em suma, um grupo de artistas, poetas consagrados ou não, pessoas do povo, com ligação direta com a cultura ou não e que tiveram a boa vontade de contribuir com as suas reflexões em forma de poesia, para compor tal obra.

Miscelânea/Uma Antologia poética teve revisão de texto por Leandro Henrique Ortolan, arte de capa de Josué Cristóvão Benvegnú, digitação de Thais Emilia Reder e diagramação a cargo de Alex Somera, com a organização geral de Ednei Genari. A primeira orelha do livro foi escrita por Thedy Corrêa (músico da famosa banda Pop-Rock, “Nenhum de Nós” e escritor. A segunda orelha foi escrita por Ednei Genari e o prefácio foi escrito pelo poeta, Adão Wons.

Já em relação ao segundo livro, “Miscelânea Volume 2/Uma Nova Antologia Poética”, a primeira orelha da capa ficou sob a responsabilidade da escritora, poetisa e cronista, Martha Medeiros. O prefácio foi assinado pela professora Helena Maria Balbinot Vicari. A segunda orelha foi assinada pelo músico, Luiz Marenco.

Revisão de texto por Cássia Áscoli Bagattini, arte de capa por Josué Cristóvão Benvegnú. Digitação de Thais Emília Reder e diagramação de Alex Somera e supervisão geral de Ednei Genari.

Chegou às minhas mãos um belo pacote a conter além dos livros citados, uma cópia do CD que cobriu a quarta edição do festival Multicultural GuapoRock, de 2020.

Quatorze faixas prestigiam bandas e/ou artistas solo e cinco faixas contém a presença dos vencedores do festival estudantil de 2019.

Entre os partícipes já sedimentados na cena musical, registro a presença desses artistas: Cuscobayo, Os Bardos da Pangéia, Jogo Sujo, Suco Elétrico, Os Pelicanos, Betina Pegorini & Banda B, Oriundos do Gueto, Dall, 5:18, Youngs Die Young, Punkzilla, Estragonoff, Banda in Manibus e Thiago Reder.

Sobre os estudantes vencedores do festival, constam: Os Irmãos Piva, Gabrieli Bouvié, Luisa e Caroline, Turma do 4º ano A da EMEF Dr. Jairo Brum (este grupo de estudantes a estar na faixa de idade infantil, veja que maravilha), e Diego Prestes.

Ilustrações de Ernani Cousandier. Arte para CD: Alex Somera e Ednei Genati.

A respeito da sonoridade presente neste álbum, os estilos dos artistas são díspares entre si e isso é bom para manter em alta voga a intenção de ser uma coletânea bem diversificada, dentro do espírito do festival, ou seja, aberto a várias vertentes.

Sob uma análise bem superficial, pois não se trata de uma resenha propriamente dita, digo que gostei bastante da maioria dos artistas presentes no disco.

“Cuscobayo”, ao menos nessa faixa (“Roda da Fortuna”), mostrou um som mais a pender para a MPB moderna pós-2000, com muita competência instrumental mediante balanço rítmico bem acentuado.

“Os Bardos da Pangéia” é uma banda gaúcha já com boa história construída e nesta faixa, impressionou-me pela proposta artística ousada, excelente instrumentação e momentos que que me fez lembrar do som do Frank Zappa, que coisa boa, através da música: “Putz que Mundo Insano”.

O “Jogo Sujo” mostrou uma balada boa, com certos ares sessentistas, ao menos na minha percepção (“Não Esqueça do Nosso Amor”).

Sobre a canção defendida pelo grupo “Os Pelicanos” (“Pequena Grande Guerra”), sugiro ao leitor que leia a minha análise através da resenha do álbum: “O Canto da Rua”, lançado por esse grupo, e que se encontra no meu Blog 1, cujo link está indicado mais abaixo.

O som de “Betina Pergini & Banda B” surpreendeu-me positivamente. Gostei do sabor ao estilo do R’n’B da canção “Voo”.

O grupo “Oriundos do Gueto” apresentou a música: “Romper Barreiras”, a se tratar de um Reggae muito bem executado e que mantém flertes com o Pop-Rock mais radiofônico.

A banda “Dall” com a música “Despertar” também demonstrou um apelo R’n’B bastante interessante. 

“5:18” se apresentou com “Hmbaragka” um som moderno a se pronunciar Indie-Rock na sua essência, mas com uma influência antiga e bem sutil do Blues, ao menos na minha avaliação.

“Youngs Die Young” com “Djapazão” destilou um Hard-Rock com tendências modernas, a se mostrar bem vigoroso.

“Punkzilla” vem com “Rock Punk 2020” a se revelar o estilo tradicional do Punk de 1977, a rigor.

O grupo “Estragonoff” parece ser orientado pelo humor a julgar por esse criativo trocadilho do seu nome, mas na prática, a sua música, “Ex-Declaração”, não vai para esse lado e nesse caso, investe em uma boa balada no estilo Folk-Rock, bem executada, a habitar a vertente de artistas como Nando Reis, por exemplo.

A “Banda In Manibus” soou-me com influência da psicodelia sessentista, por meio da sua canção: “Deixa Ser Assim”.

E finalmente para fechar a ala dos artistas convidados, Thiago Reder mostrou uma canção muito bem produzida em estúdio, com forte influência do som Folk gaúcho. Só pelo título da canção, o leitor já tem uma ideia do que se trata: “Alma de Rancho”.

E o disco fecha com os vencedores do festival regional de música estudantil de 2019, cujo prêmio maior foi esse mesmo, ou seja, estarem presentes no bojo deste álbum. Parabéns para esses jovens que defenderam com bastante dignidade as suas músicas autorais. 

Neste caso, os irmãos Piva, se jogaram na música folclórica gaúcha bem tradicional com “Surungo da Madrugada”, Gabrieli Bouvié investiu no Pop-Rock ao interpretar “Basta Acreditar”, a dupla formada por Luisa e Caroline também buscou a linguagem do Pop-Rock “teen”, através da canção: “Mundo Só Meu” e a turma do 4º ano da EMEF Dr. Jairo Brum, ali na faixa dos dez a doze anos de idade, aproximadamente, cantou em estilo de coral escolar uma canção com forte teor infanto-juvenil e sob intenção motivacional denominada: “Todos por um Brasil melhor”.

Para encerrar, Diego Prestes foi entre os participantes do festival estudantil, o jovem a se mostrar mais maduro no acabamento do seu trabalho. Na gravação da canção, ”Tanto Tempo”, ele está acompanhado de bons músicos de apoio, que denotam serem experientes em estúdio, pelo padrão dessa gravação. O seu som tem um quê de MPB oitentista a la Djavan, pelo balanço e harmonia usada para compor tal peça. 

Uma dica pertinente que deixo para agregar, é sobre o trailer do documentário que enfoca a incrível história ocorrida com a professora Maria Helena Balbinot Vicari. Trata-se uma peça audiovisual muito bem-acabada, denominada: “O Último Poema”, sob a direção de Mirela Kruel.

Eis o link para assistir o trailer dessa peça audiovisual no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=REDL2FsZ9BU

Aproveito também para anunciar ao leitor que eu tive o prazer de resenhar um álbum d’Os Pelicanos, uma das bandas presentes nesta coletânea do Guapo-Rock 2020. Leia a minha análise sobre o CD “Canto da Rua” d’Os Pelicanos, em meu Blog 1:

Eis o link para acessar e ler:

http://luiz-domingues.blogspot.com/2021/07/cd-o-canto-da-ruaos-pelicanos-por-luiz.html

Tive o prazer de conhecer pessoalmente o ativista cultural, Ednei Genari, quando toquei com a Patrulha do Espaço no Festival Psicodália em Santa Catarina, na sua edição de 2019. Nesta foto acima a registrar os bastidores do festival, da esquerda para a direita: eu (Luiz Domingues), Ednei Genari, Rolando Castello Junior, Marta Benévolo e Rodrigo Hid. Foto: Giovani Pain 

Para encerrar esta matéria, digo que o esforço do radialista, poeta e ativista cultural, Ednei Genari foi amplamente coroado por ter criado o festival (já aconteceram quatro edições, até este momento de 2022), lançado discos em formato de coletânea para divulgar os seus participantes (seis discos lançados e vem mais um em breve), e a dar incentivo para que os jovens talentos musicais pudessem ter acesso igualmente a tal aparato cultural bem produzido, através de um festival estudantil de música autoral (com duas edições já realizadas).

Ao ir além, foi notável a entrada no mercado editorial para estimular a poesia e arregimentar tantos poetas, dos consagrados aos novatos.

E com tal iniciativa a resgatar também muitas pessoas sem muito contato com a vida cultural em seu cotidiano, ao estimulá-las a se manifestarem mediante os seus poemas, invariavelmente guardados em gavetas sem maiores perspectivas, isto é, foi algo louvável e isso redundou em dois livros de poesia já publicados.

E como o esforço não para, já está em processo de elaboração um novo livro, que será destinado à publicação de crônicas oriundas de diversos autores e que receberá o nome de: “Inquietude Impressa”.

Outra boa novidade já anunciada é a produção de mais um disco, desta feita a privilegiar os artistas mais pedidos no programa GuapoRock Rádio, atração da grade da Liberal FM 102.1 de Guaporé-RS.

Para saber mais informações sobre o Projeto Cultural GuapoRock, acesse:

Site oficial:

http://www.guaporock.com.br/

Página no Faceboook:

https://www.facebook.com/GuaporeRock

Grupo no Facebook:

https://www.facebook.com/groups/268480700165916

Instagram:

https://www.instagram.com/festival.guaporock/

Programa GuapoRock Rádio – FM Liberal 102.1 – Guaporé-RS com produção e locução de Edney Genari – Todo domingo, das 20:30 às 22:00 horas

https://radioliberalfm.com.br/a-radio/

Contato direto com o programa GuapoRock:

guaporadiorock@gmail.com

Contato direto com o Projeto Cultural GuapoRock:

pcguaporock@gmail.com

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Crônicas da Autobiografia - Maratonas de Rock Inesquecíveis - Por Luiz Domingues

Aconteceu no preâmbulo e durante a trajetória do Boca do Céu, portanto, entre 1974 e 1979

Um show de Rock continha uma outra conotação nas décadas de 1960 e 1970, desse fator não há dúvida. A música ultrapassara todas as fronteiras e se colocava na linha de frente da contracultura, portanto, todos os signos inerentes se faziam presentes com enorme contundência, a caracterizar um conjunto de fatores que apontavam para a perspectiva de se quebrar paradigmas de toda a ordem.

Por conseguinte, tal fator desencadeador gerava condições mais propícias para a construção de um mundo mais fraterno, ao menos em tese, e sobretudo em nossos sonhos mais utópicos, porém humanistas e bem longe da barbárie gerada pelo egoísmo desenfreado em prol do capitalismo selvagem. Daí a provocar a euforia que foi observada principalmente na década de sessenta, foi uma consequência bem natural.

Enfim, o show de Rock não era apenas um recital de música, mas envolvia uma série de outros fatores de ordem sensoriais, intelectuais e sobretudo a conter implícito o sentimento de comprometimento mútuo com a mesma causa.

Tal sentimento de pertencimento a um ideal maior, norteava os shows de Rock ocorridos nessas décadas. Aliás, para espelhar bem o que representava, digo que uma vez um grande guitarrista que eu conheci bem no final da década de setenta e com o qual eu tive o prazer de tocar por um breve período (Fernando “Mu”, guitarrista da banda cover, “Terra no Asfalto”, pela qual atuamos juntos), me falou certa vez com ar de melancolia, já a pressentir que o panorama estava a mudar drasticamente no início de 1980, quando afirmou isso: -“o meu sonho sempre foi tocar para aquela plateia imensa de freaks, dentro daquela perspectiva de que todos, do palco à audiência, éramos buscadores do mesmo sonho”, mas pelo jeito essa realidade não existe mais”. Em suma, o saudoso e talentosíssimo “Mu”, resumiu bem o que tínhamos e perdemos, infelizmente.

E por falar em shows de Rock com tal carga de valores extra-musicais implícitos, eu tive o prazer de absorver ao menos o fim dessa Era e assim, essa foi a minha rotina ao frequentar tais espetáculos, desde um pouco antes da formação do Boca do Céu, a minha primeira banda e foi marcante durante a trajetória dessa banda, no sentido de que eu e meus colegas do grupo fomos juntos a inúmeros shows de Rock dessa natureza e mais do que o prazer pela empreitada, considerávamos tais oportunidades como uma espécie de curso intensivo e importante para a nossa própria formação, a se considerar que éramos aspirantes a artistas.

Nesses termos, além dos shows individuais protagonizados por diversos bandas em teatros e espaços culturais os mais diversos, aconteciam também os shows compartilhados com duas ou mais atrações no mesmo espetáculo e mais que isso, houve em profusão entre 1974 e 1977, principalmente, em torno de muitos festivais e também a contar com as ditas “maratonas” que vinham a ser shows múltiplos com várias bandas, todos com curta duração (o que no meio artístico é também conhecido como: “show de choque”), e realizados sobretudo em ginásios de esportes de grandes clubes da cidade de São Paulo. 

Diferentemente da dinâmica dos festivais de longa duração ao ar livre, nos quais as bandas tocam primordialmente, cada uma delas o seu show na íntegra, como se fosse um espetáculo individual feito em teatro, nas maratonas, a ideia era ter sim, muitas atrações como chamariz de público, mas obrigatoriamente com pouco espaço de tempo para cada uma delas poder usar, ou seja, a se revelar como os tais shows de choque, com uma duração entre 15 a 30 minutos apenas, a depender de cada circunstância que se surgia.

Dentro desse parâmetro, não foram poucas as maratonas que eu tive o prazer de assistir, em ginásios de esportes de clubes esportivos famosos e populares pela mobilização do futebol, como o Palmeiras, Corinthians e Portuguesa e outros sem essa mesma tradição com esporte profissional de massa, mas importantes na cidade, como o Ginásio do Ibirapuera, pertencente ao governo estadual e Clubes Pinheiros e Paineiras, por exemplo.

Como atrações, havia um grupo de bandas e artistas solo que se revelaram como recorrentes e hoje eu sei que muitos deles tinham o mesmo empresário envolvido com os organizadores dessas maratonas, mas tudo bem, tal tipo de artimanha empresarial faz parte do jogo de bastidores do show business e não se trata de algo ilícito.

E assim, foi comum assistirmos muitas apresentações dos Mutantes, O Terço, Som Nosso de Cada Dia, Rita Lee & Tutti-Frutti, Made in Brazil, Joelho de Porco, Novos Baianos, Sindicato, Casa das Máquinas, Patrulha do Espaço e Humahuaca, principalmente como uma espécie de turma fixa, mas haviam outros tantos grupos que não participavam de todas, mas de algumas, casos do Papa Poluição, Apokalypsis do Zé Brasil & Silvia Helena, Cornélius & Santa Fé, Pholhas, O Peso, Vímana, A Bolha, Bixo (com x mesmo) da Seda, A Chave, Terreno Baldio, Odair Cabeça de Poeta & Grupo Capote, Placa Luminosa, Bendengó, Flying Banana, Flamboyant, Veludo, Burmah, Neblina, Bagga’s Guru e outras.

E mais uma marca indelével: diversos artistas mais identificados com a cena MPB a participarem e leve-se em conta que a MPB vivera uma fase que vinha desde o final dos anos sessenta, com forte aproximação com o Rock e também com a Black Music, portanto, foi comum vermos artistas dessa vertente a se apresentarem e serem muito apreciados, casos de Gilberto Gil, Walter Franco, Jards Macalé, Jorge Mautner, Belchior, Ednardo, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e até artistas ligados à música instrumental, com viés jazzistico, casos de Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, e Cesar Camargo Mariano (que além do trabalho de acompanhar a grande cantora, Elis Regina, montara uma banda para praticar Jazz-Rock instrumental e quase a flertar com o Rock Progressivo e assim, ele e sua banda apareceu em algumas maratonas e foi bem apreciado pelos Rockers e não poderia ser de outra forma, dada a sua excelência musical).  

Pelo aspecto lúdico de tais maratonas, eu não posso deixar de observar o quanto foi mágica a atmosfera na porta de tais ginásios em que elas transcorreram. Aquele sentimento de união que permeava a todos, a denotar compartilhamento de um mesmo sonho, foi verdadeiramente incrível.

E claro, a expectativa pelo “Concerto de Rock” que cada banda faria naquelas noitadas memoráveis era um sentimento a mais nesse caldeirão de emoções. Adorávamos todas em suas diferentes propostas artísticas e mediante as suas particularidades, muito ricas por sinal.

Que prazer então era assistir Os Mutantes a tocarem as suas longas suítes progressivas tão esvoaçantes, O Terço a desfilar o seu Prog-Folk-Rock, a explosão brasileira percussiva dos Novos Baianos, a ironia fina do Joelho do Porco, Rita Lee em seus melhores dias e a bordo de uma super-banda de Rock (Tutti-Frutti), o som progressivo cerebral e dançante ao mesmo tempo do grande Som Nosso de Cada Dia, a festa da Casa das Máquinas e o Rock básico e super fiel aos princípios, praticado pelo Made in Brazil, entre outras tantas atrações.

Lembro-me muito bem daquela sensação de euforia que era entrar nos locais e observar o palco montado. Aquela predisposição clássica do Rock setentista em termos de haver uma quantidade enorme de amplificadores a configurar uma muralha toda perfilada atrás da linha da bateria e esta, por sua vez a se manter sobre um enorme praticável e a se mostrar enorme com uma incrível quantidade de peças e pratos reluzentes aos efeitos da iluminação. E a não menos impressionante montanha de teclados. 

Hoje em dia o músico leva em conta a praticidade e geralmente toca com um teclado único que é todo computadorizado e contém “presets” com diversos tipos de teclados de ordem “vintage” mediante diversos timbres para prover todas as necessidades de uma banda, mas naquele tempo, para poder contar com essa diversidade sonora, só era possível ao tecladista fazer uso dessa diversidade sonora ao montasse um teclado ao lado do outro e muitos amontoados uns sobre os outros para facilitar o malabarismo que tais instrumentistas faziam para tocar vários deles, simultaneamente. Falta de praticidade a parte, como era lindo ver aquela armação toda da tecladeira.

E a iluminação? Que obra de arte a mais a ornar um genuíno Concerto de Rock! E nesse quesito visual, é preciso destacar que muitas bandas usavam bastante o recurso do gelo seco para criar atmosferas glaciais incríveis no palco. Não há nada mais setentista que o efeito do gelo seco, que eu sei que era arcaico e desagradável para ser produzido nos bastidores, no entanto, o efeito visual que era gerado ao público, se mostrava inigualável, posso atestar.

No mais, a pensar exclusivamente como espectador e muitos anos antes de passar a fazer shows de Rock e conhecer todos os meandros de uma produção (portanto, a perder bastante o glamour idealizado que eu mantinha de outrora), digo que na minha memória como adolescente e aspirante a Rocker, lembro-me da excitação que havia pelo início do espetáculo.

Sei que é uma tendência humana normal para qualquer tipo de situação e não se trata de uma exclusividade de um show de Rock, mas devo salientar que aquela expectativa pelo início do show era um momento extremamente interessante em termos de foco de atenção coletivo, ao ponto de qualquer pequeno falso alarme gerar uma catarse coletiva.

Por exemplo, se um roadie que fosse instruído a falar: “ei” em um microfone qualquer do palco para o técnico checar se ele estava a funcionar, motivado por uma dúvida surgida de última hora, tal teste de última hora era/é algo comum nos bastidores de qualquer produção, assim como um spot de luz acendido também com tal finalidade. Mas bastava um sinal desses para inflamar a plateia, que era impelida a deduzir que o show começaria, mas pelo contrário, não se tratava disso naquele breve instante.

E quando começava enfim a apresentação, aquela explosão de som, luz e movimentação dos artistas no palco, em pleno exercício da sua misè-en-scene, se configurava como um irresistível “tour de force” a denotar uma dose cavalar de estímulos múltiplos, ou seja, a configurar toda a síntese do que o Rock representava para todos nós.

Amizades se forjaram naqueles ginásios esportivos, hall de entrada de teatros, filas para comprar ingressos ou para adentrar os ambientes. Muitas vezes, víamos amigos e outras pessoas que identificávamos visualmente apenas, presentes em outros ambientes, mas análogos aos shows de Rock, tais como salas de cinema de arte, peças teatrais com algum viés contracultural, palestras de filósofos e gurus indianos, galeria de arte, exposições e bibliotecas, ou seja, a amálgama contracultural nos impulsionava a estarmos atraídos pelos mesmos interesses, mesmo que não fosse um show de Rock propriamente dito.

E o aroma de patchouly a pairar no ar...sim, nove a cada dez “freaks” usavam o mesmo perfume e era encantador nos identificarmos também por tal sinal tão sutil. E mais incisivo ainda, era comum nos cumprimentarmos com o sinal hippie de “paz & amor”, ou seja, mesmo que tenha chegado com grande atraso, o movimento hippie ecoou no Brasil a viver uma ditadura a impor valores diametralmente opostos e nos deu ao menos um tempo ínfimo para que sonhássemos.

Ao final das maratonas, claro que muitos abusavam dos efeitos do álcool e de drogas em geral e simplesmente ficavam tão fora de órbita que simplesmente perdiam grande parte dos espetáculos, deitados, ou melhor desacordados pelos cantos das arenas, mas definitivamente esse nunca foi o meu caso, pois eu aproveitava cada segundo daquela experiência sensorial total.

E ainda guardo na memória as pequenas lembranças de ocorrências ocorridas em maratonas: Baby Consuelo em estado de gravidez avançada e a dançar alucinadamente no palco sempre a usar um vestido curtíssimo, Sérgio Dias a tocar cítara em meio às “Brumas de Avalon” graças ao gelo seco, Tico Terpins a usar e abusar do deboche e sarcasmo, os irmãos Vecchione a comandar o Rock in natura e sem concessões, Rita Lee a desfilar a sua cilibrina do theremin sob o som da sua super banda, Jards Macalé a cometer experimentalismo misturado com samba em shows de Rock com nonsense e enorme criatividade, Walter Franco a nos falar sobre poesia concreta e meditação transcendental tudo ao mesmo tempo, o profeta Jorge Mautner a discursar sobre o conceito do “Kaos” com “K” e tocar violino (lembro-me dele a parar para afinar o instrumento certa vez e alguém da plateia brincar com ele: -“ toca Stravinsky”, o que lhe despertou uma sonora gargalhada...

Era impossível não dançar ao som da Casa das Máquinas, voar com Pedrão & Pedrinho a bordo do sensacional Som Nosso de Cada Dia e não apreciar a docilidade folk do Bendengó e do Flying Banana.

Como não se empolgar com o Rock Progressivo ultra técnico do Terreno Baldio? A alcunha de ser supostamente o “Gentle Giant brasileiro” lhe caia bem, certamente, assim como o som viajante do Veludo nos fazia voar e o Apokalypsis do Zé Brasil, idem. A Barca do Sol e o Recordando o Vale das Maçãs com o seu som Folk-Rock a la Gryphon, Fairport Convention, digamos assim e que bonito que faziam.

O Papa Poluição a nos mostrar a fusão do Rock paulistano via Beatles, ritmos nordestinos e a poesia folk/psicodélica das canções de Belchior, das quais eram parceiros, foi inesquecível

A Cor do Som em seu início de trajetória fora do âmbito dos Novos Baianos, com aquela estética do “Chorinho” oriundo da velha guarda do Samba, via Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, mas devidamente vestido com a roupagem do Jazz-Rock, nos encantara e por muitas vezes nós vibramos com a sua música de alta precisão.  

Algumas bandas fora do eixo Rio-São Paulo que eu já citei, tocavam ocasionalmente, mas muitas simplesmente não vieram  à capital paulista por conta da logística complicada, cachês não condizentes com as necessidades etc. 

Não me recordo da presença do Ave Sangria, e se veio, eu perdi, infelizmente. Assim como o maravilhoso, Som Imaginário. Não me recordo das presenças dos mineiros do Clube da Esquina a se apresentarem juntos, a não ser shows solo de Milton Nascimento e Beto Guedes que eu tive o prazer de ver, e o o super trio, Secos & Molhados já havia encerrado atividades, uma grande lástima. Não me recordo de Sá, Rodrix & Guarabyra, mas Zé Rodrix em show solo chegou a acontecer (mas eu não vi, perdi e lastimo). 

Todavia, tive o prazer de ver Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti com o seu som instrumental muito mais para o Jazz, mas sem gerar nenhuma controvérsia e muito pelo contrário, a serem muito aplaudidos pelos Rockers. 

Enfim, citei alguns exemplos apenas, porém, creio que o leitor absorveu bem o quanto foi impactante ter presenciado as maratonas de Rock setentistas que acompanhei com muito entusiasmo em diversos endereços paulistanos. Dessa forma, posso afirmar que foi mais um fator vital para motivar a minha entrada no mundo da música e que contribuiu demais para a minha formação cultural.