sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 86 - Por Luiz Domingues

Da esquerda para a direita: Eu (Luiz Domingues), Osvaldo Vicino e Wilton Rentero. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Osvaldo Vicino 

Tivemos uma sucessão de cancelamentos de ensaios motivados por problemas de saúde de todos os representantes do trio de cordas da banda (cada um de uma vez), e também por um problema meu de agenda meu em outra ocasião, quando fui me apresentar com a banda do meu amigo Lincoln Baraccat ("Uncle & Friends"), e em outra data por conta de problemas que o Wilton Rentero teve para resolver em sua casa de praia, motivado pelo mau uso do imóvel, observado da parte de um inquilino dele. Em suma, foram cinco semanas sem grandes avanços no projeto do resgate.

Até que finalmente, nos estertores do ano de 2022, nós conseguimos agendar um ensaio para o dia 30 de dezembro, mais uma vez realizado na residência do Osvaldo Vicino, e desta feita, fechamos mais algumas ideias para o Baião-Xaxado-Rock, "Revirada". Fechado o mapa provisório da música e já a acrescentar algumas ideias para anexar ao futuro arranjo definitivo, ficamos contentes pelos adendos novos sugeridos.

Na mesma configuração da foto anterior. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Osvaldo Vicino

No mesmo dia, trabalhamos um pouco com a bela balada do Laert, "Instante de Ser", mesmo cônscios de que o Laert sinalizara dúvida sobre a harmonia da canção e ainda não surgira uma oportunidade para que ele pudesse rever conosco tal quesito. Entre nós, no entanto, ficou acertado que valeria a pena insistirmos para avançar mesmo com tal pendência, exatamente para que pudéssemos evoluir outros aspectos da criação de um arranjo, notadamente a parte rítmica e a se buscar um padrão de sincronia criativa e complementar entre as duas guitarras.

Ainda ao final do apontamento, o Wilton nos mostrou ao ukulelê, uma ideia para a abertura da canção folk, "Desprogramação", mas na verdade, ele desejou mesmo nos explicar que haveria uma segunda parte para essa abertura, fruto de uma criação sua de muitos anos atrás, para um canção de sua autoria e inédita. Neste caso, ele nos disse que poderíamos usar a parte "A" da sua criação para usarmos como abertura para "Desprogramação".

Na mesma configuração da foto anterior. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Wilton Rentero

Em suma, chegamos ao final de 2022 com o sentimento de que havíamos fechado a parte B do resgate em sua parte bruta de criação de mapas provisórios de trabalho, com a devida ressalva das pendências sobre as dúvidas do Laert a respeito das músicas "Instante de  Ser" e "Desprogramação" (em torno da harmonia ambas), e sim, o Blues-Soul, "1969", que realmente não conseguimos estabelecer um rumo, dada a questão do áudio enviado pelo Laert, ainda em 2021, não ter reunido as melhores condições para que pudéssemos construir um esqueleto harmônico como base. 

E sim, também restou a nossa dúvida sobre o Laert desejar ou não que incluíssemos a música: "Na Minha Boca" nesse repertório, pelo fato desse samba ter sido gravado pelo Língua de Trapo de forma oficial nos anos oitenta, apesar de ter sido uma música nascida dentro da história do Boca do Céu nos anos setenta e dessa forma, todos nós termos o sentimento de pertencimento sentimental desse tema, à nossa banda.

Na mesma configuração da foto anterior. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Wilton Rentero

Dessa forma, ficou combinado de que logo no primeiro ensaio de 2023, nós nos dedicássemos com todo o afinco para eliminar as últimas pendências dessa fase e iniciássemos a parte C do projeto, ou seja, a fecharmos o arranjo definitivo das canções e iniciarmos a fase de pré-produção de um álbum, até que enfim!

Falei aos companheiros sobre essa determinação e nesta altura do resgate, esse horizonte se tornara visível nesse ponto. Dessa forma, eu e eles também, na mesma sintonia, não apenas nos prontificamos a dar esse passo adiante, como ficamos felizes por constatar que apesar da lerdeza imposta por tantos fatores alheios à nossa vontade (pandemia mundial da Covid, agendas conflitantes etc), nós saímos de uma festiva reunião de congraçamento em 2020, para um projeto de resgate inimaginável para uma banda que se extinguira em 1979 sob condições modestíssimas, e que até então, não apresentava nenhum indício de que poderia voltar a gerar novidades em pleno século XXI. 

Osvaldo Vicino e Wilton Rentero a trabalhar. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Wilton Rentero

Em suma, já foi uma grande vitória termos chegado até aqui e a perspectiva de coroamento do esforço, já visível nesse ponto, nos animou ainda mais. Que 2023 fosse o ano no qual o legado dessa banda, uma meta tão sonhada naqueles anos entre 1976 e 1979, haveria de ganhar uma dimensão palpável. Sendo assim, estivemos agraciados, nós, os outrora Rockers adolescentes e sonhadores de 1976, e neste ponto, a nos constituirmos de senhores grisalhos no avançar da terceira idade, porém, não menos Rockers convictos do que fôramos nos anos setenta. Os grisalhos esquizóides do século XXI!

Continua

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Autobiografia na Música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 184 - Por Luiz Domingues

Outro fato interessante ocorrido ao final de 2022, além dos últimos shows cumpridos pela banda e da minha parte em particular, por haver providenciado os vídeos a conter todas as faixas que eu havia gravado através dos discos nos quais estive inserido na formação da banda, se deu com mais algumas movimentações midiáticas.

Nesses termos se enquadra a descoberta que eu havia feito a respeito de uma enciclopédia elaborada por uma emissora de rádio (Enciclopédia do Rock Brasileiro, da Rádio Versão Brasileira), na qual três bandas em que fui e a ainda era componente, foram arroladas em suas páginas. Das ex-bandas no caso, estavam citadas A Chave do Sol e a Patrulha do Espaço e no caso da banda então atual na época, Kim Kehl & Os Kurandeiros.

Veja abaixo o link para consultar a enciclopédia, diretamente no Blog da referida emissora: 

Enciclopédia do Rock Brasileiro – Rádio Versão Brasileira

https://www.radiovb.com.br/erb...

Em 14 de dezembro, o nosso colega de profissão e a se tratar de um músico histórico da cena, o Edison Della Monica, baterista de bandas seminais e entre elas o The Spark's, dos anos sessenta, nos presenteou com um clip que montou a usar a nossa música: "Anjo" mediante uma colagem de fotos da nossa banda que ele achou pela internet. Ficamos felizes pela simpática iniciativa da parte dele, naturalmente.

Foi publicado na plataforma da rede social Facebook, veja o link para acessar, abaixo:

https://www.facebook.com/edison.dellamonica.31/posts/pfbid02tQW2DnFJX7Nw6cCFgL3gHJUgJcj8sbLLEk5NVAgorLYuasmGbuPyKmYKbcZWE3eql

Já ao final do mês, a música "Cidade Fantasma" foi escolhida mais uma vez para representar a nossa banda na playlist do programa "Só Brasuca" da sempre simpática e parceira emissora Webradio Crazy Rock. E assim ocorreu entre 24 e 30 de dezembro de 2022, para fechar o nosso ano midiático.

Entretanto, nós ainda tivemos mais uma boa nova nos estertores do ano, quando a revista "Roadie Crew" abriu a sua tradicional enquete para os seus leitores de final de ano para eleger os "melhores de 2022". Claro que ali era um ambiente inteiramente dominado pelo Heavy-Metal como uma norma e não teríamos chance de vencer em nenhum quesito, mas ao sermos relacionados, naturalmente que ficamos felizes, honrados e ao analisar por um prisma mais técnico, pudemos considerar uma enorme vitória a nomeação, pois definitivamente não éramos uma banda confortável para tal ambiente proposto pela publicação, normalmente. Neste caso, fomos nomeados nas categorias: melhor álbum, vocalista, guitarrista, baixista, baterista e tecladista, isto é: um feito e tanto para uma banda de Rock clássico tradicional dentro daquele ambiente fechado no "HM" por opção deles.  

Para fechar o relato sobre a nossa atuação em 2022, em meio ao final da pandemia e as suas dificuldades inerentes, eu creio que o balanço final para avaliar o ano d'Os Kurandeiros, foi bom. Não tivemos uma agenda lotada como nos anos anteriores, mas os shows que fizemos foram bons, bem produzidos em sua maioria e repercutiram positivamente. 

Também lançamos a versão revista e aumentada do CD "Cidade Fantasma" mediante a sua apresentação ao estilo "digipack" e que repercutiu bem positivamente. De minha parte, a capa mais simples da primeira versão, jamais me incomodou, no entanto, não posso deixar de elogiar o empenho da parte do Kim Kehl, que teve a ideia de uma nova versão e a produziu, ou seja, além do seu mérito pessoal pela concepção e esforço, eu preciso acrescentar que é claro que gostei do resultado apresentado. O designer, José Eduardo Rendeiro, pai do guitarrista Phill Rendeiro, novamente nos auxiliou com a parte técnica dessa repaginação gráfica, é bom salientar.

Phill Rendeiro, em ação com Os Kurandeiros em show realizado em maio de 2022 na Fábrica de Cultura Belém de São Paulo. Ckick, acervo e cortesia: Lara Pap

Outro ótimo avanço apresentado se deu com a mixagem do nosso show ao vivo realizado em outubro de 2021, cujo apuro técnico ficara sob o comando do guitarrista, Phill Rendeiro. Pois a sua atuação como técnico de áudio se revelou exemplar, a julgar pelo que ouvimos previamente e sobre o lançamento desse material a compor um disco ao vivo, esse plano foi postergado estrategicamente para 2023, haja vista que reservamos o ano de 2022 para repercutir melhor o lançamento do CD Cidade Fantasma, ou seja, a lhe garantir um prazo maior de repercussão. De fato, disco ao vivo sempre foi considerado como uma opção "coringa" da parte das gravadoras e dos próprios artistas, para ser lançado em algum momento mais conveniente sob o ponto de vista do marketing, entre um álbum regular de estúdio e outro.

Em suma, fechamos com otimismo o ano de 2022 e já com esperança renovada de que o ano posterior, 2023, haveria de marcar a volta das melhores oportunidades no campo das apresentações ao vivo e já de antemão a sabermos que possivelmente teríamos mais um disco para lançar, desta feita mediante um álbum ao vivo e com ótima performance artística da nossa parte e muito apuro no quesito do áudio, sob excelente qualidade.

Continua...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Uncle & Friends) - Sob o Calor Ignorante - Capítulo 121 - Por Luiz Domingues

A semana que antecedeu a nossa participação nesse dito festival gastronômico, foi extremamente chuvosa em São Paulo. Dessa forma, ficamos todos apreensivos em relação ao que aconteceria no dia da nossa apresentação. Todavia, o sábado (dia 10 de dezembro de 2022), nasceu com o tempo firme em São Paulo, mediante a presença do céu azulado e sobretudo, com sol forte. Então, se em tese teríamos um dia considerado como "bom" no jargão da meteorologia, isto é, com ausência de chuvas, por outro lado o sol se mostrou abrasador ao extremo.

Quando eu cheguei ao parque, notei que a estrutura da feira se mostrara bem grande, mediante uma infinidade de barracas e também de "food trucks" estacionados em seu interior, ao comprovar a vocação do empreendimento em torno da gastronomia que estava plenamente justificada, com muito boa organização. Já da rua localizada na lateral norte do parque, na qual eu estacionei o meu carro, eu ouvi o som produzido por um "DJ", certamente contratado para sonorizar a feira dentro de seus propósitos mais adequados, ou seja, pelo fato do som por ele proposto estar a envolver música eletrônica com aquele sentido mecânico na acepção do termo e sobretudo, pelo volume muito alto que mesmo à distância e no posicionamento contrário do PA por ele usado, já deu para notar com muita veemência e na minha opinião, já bem desagradável pelos dois aspectos citados (escolha de "repertório" e volume excessivo imposto por tal rapaz).

Bem, à medida em que eu caminhei pela face lateral do parque em direção ao portão principal localizado na rua Machado de Assis, me impressionei, como já citei, com a quantidade de opções gastronômicas ali oferecidas nas barracas, caminhões culinários e também negativamente pelo som ambiente proposto pelo DJ, que realmente se mostrara muito alto. Tudo bem, eu entendo a intenção do rapaz e com a qual certamente fora apoiada pela direção da Feira, no sentido de se manter o volume muito alto para que o som chegasse na feira como um todo e a se considerar a dificuldade para sonorizar um espaço ao vivo de forma mais equânime como devia promover em ambientes fechados. Todavia, ali perto do PA contratado pela organização, estava ensurdecedor e sim, houve a presença de muitas barracas também instaladas naquela cercania e as pessoas simplesmente evitavam ir conhecer as bebidas e comidas oferecidas por tais expositores, por simplesmente não aguentarem a trilha musical sob um volume inadequado, a se parecer como uma "boite" ou casa noturna similar. 

Uma pessoa ligada à Associação Cultural do Rock, no caso, Fátima Stoppelli, foi conversar com a organização da Feira e solicitou que o DJ atenuasse um pouco aquele volume acachapante e também reivindicou alguns minutos para que a nossa banda pudesse organizar o som minimamente antes de se apresentar e anote-se, não seria um soundcheck profissional de fato, mais minucioso e imprescindível para nós e igualmente para a técnica de som responsável pelo PA, porém, a se tratar de uma arrumação muito ligeira, inadequada certamente, mas melhor do que nada para que pudéssemos fazer o show com condições mínimas para tal. 

A resposta que ela obteve não foi malcriada da parte de um rapaz que se apresentara como um assessor da organizadora geral, mas o que ele proferiu, infelizmente se mostrou insensível e descabido no sentido de que o sujeito não fazia a menor ideia da nossa necessidade e dessa forma, tal pedido formulado pela Fátima, deve ter sido interpretado na sua avaliação incauta, como um arroubo inconveniente da nossa parte. Além, é claro, de que na ótica dele o DJ não poderia ser interrompido de forma alguma, a não ser enquanto tocávamos. Bem, isso denotou bem o tipo de mentalidade à qual eu aludi anteriormente, isto é, a Feira não tinha familiaridade com o Rock e vice-versa e neste caso, não caberia reclamação de ambas as partes, embora a disparidade causasse espécie para todos, eu acredito. 

Muito bem, já que os shows de Rock foram contratados, devo ressaltar mais uma vez a perspicácia da parte da Associação Cultural do Rock (ACR), que vendeu o pacote para a Feira e por outro lado, incômodo a parte, aguentar certos disparates teria que ser relevado da parte dos músicos envolvidos e assim, no cômputo geral, creio que suplantar certos aspectos inconvenientes de parte a parte se tornou prudente.

Também acho que faltou uma tenda a ser usada como camarim e algumas cadeiras de plástico para que os músicos tivessem um refúgio para aguardar a vez de tocar e se abrigar do forte calor, mas tudo bem, eu entendo que a Feira não estivesse preparada para tal tipo de abordagem e ao contar com um "PA" para que um DJ sonorizasse o evento, lhes bastara apenas isso para suprir o tipo de ambientação com a qual estavam acostumados a produzir os seus eventos com vocação gastronômica.

Cabe destacar também o estranho nome que a Feira utilizou: "Big Food Festival - Festival da Iguinorança", algo que realmente me despertou a atenção de uma forma negativa. Veja, não quero passar a imagem de um sujeito intransigente, mas na minha ótica, "Big Food Festival", apesar do anglicismo desnecessário, cumpriria a função, mas eu sinceramente não gostei do anexo proposto, ainda mais: "Festival da Iguinorança", no sentido de que além de achar o mote desnecessário pela sua intenção popularesca, pior ainda foi forçar uma grafia errônea, talvez para tornar ainda mais coloquial a comunicação, bem naquela predisposição equivocada de que ao se falar ou escrever de forma errada, criamos empatia com pessoas simples, dotadas de poucos recursos educacionais e culturais. E assim, para a minha percepção criou-se o inverso, ou seja, com a ortografia assassinada dessa forma, eu antipatizei com certeza.

Duas equipes de reportagem estavam no local a transmitir ao vivo através dos seus respectivos telejornais vespertinos, a representar as duas maiores emissoras de TV do país na ocasião e assim a denotar que a organização da Feira realmente trabalhava bem em diversos outros aspectos, além de deter prestígio e isso foi positivo, eu pensei.

Carlinhos Machado, meu amigo e colega d'Os "Kurandeiros atuou desta feita com a Uncle & Friends". Uncle & Friends no Big Food Festival de São Paulo. 10 de dezembro de 2022. Click, acervo e cortesia: Banderlei Bavaro

A formação da banda apresentou uma ligeira mudança em relação ao time que representou o trabalho do nosso Uncle-mor, Lincoln Baraccat, no show anterior (Casa de Cultura Chico Science e já relatado anteriormente), com a presença do meu amigo e companheiro n'Os "Kurandeiros", Carlinhos Machado, ao invés de Dmitri Medeiros que atuara na ocasião citada.  

Bem, o calor se mostrava abrasador e sem uma tenda, gazebo ou barraca com função de camarim, buscamos refúgio na sombra das árvores e nos poucos e disputados bancos de jardim disponíveis naquela circunstância, dada a demanda e sobretudo pela incidência de muitos idosos e crianças pequenas no ambiente. Dessa forma, sem muitas opções, ficamos relativamente perto do palco e consequentemente, expostos ao massacre sonoro proposto pelo "DJ" e sim, infelizmente além de irredutível, esse rapaz se mostrou bastante altivo ao responder que não abaixaria um "DB" sequer, quando foi interpelado pela produtora da ACR, ao argumentar sobre o disparate por ele perpetrado em termos de volume. Paciência, ficamos ali a torrar sob o calor semelhante ao do deserto do Saara e a aguentar uma seleção abominável de música mecânica sem sensibilidade artística alguma e devo ser justo, talvez ele tenha tentado criar um ambiente mais "Rocker" antes de nos apresentarmos, ao propor uma seleção de Pop-Rock dos anos oitenta. Tudo bem, na comparação com o que colocara antes, ficou um pouco mais palatável, mas aquela pasmaceira Techno-Pop oitentista também me aborreceu sobremaneira e só reforçou a minha impressão pessoal negativa sobre tal produção dentro das história do Rock, desde a sua época em voga, devo salientar. 

Bem, finalmente o "DJ" desligou o seu laptop e sob o delicioso som do silêncio, eu pude ver no seu semblante que ele estava incomodado com a "interrupção" da sua atuação em detrimento de uma banda de Rock a ocupar o palco e a fazer uso do PA. Ora, ora, ao que tudo indica, a determinação de haver a realização do nosso show, o incomodou e se me permite o leitor, a recíproca foi verdadeira de minha parte a configurar um empate técnico, digamos assim.

Bem, a contrariar a orientação amadora da parte do rapaz que se apresentara como assessor da Feira e que nos "proibira" terminantemente de preparar o som e que ao contrário, na determinação de sua parte, nós deveríamos subir ao palco e tocar imediatamente, eis que o afrontamos ao gastarmos reles cinco minutos para prover uma arrumação muito básica, algo inconveniente para o nosso padrão de profissionalismo, mas certamente também na inadequada ótica dele, que devia achar que uma banda formada por músicos de carne & osso funcionavam exatamente como o seu DJ que mudava de uma música para outra mediante um click no seu laptop. Em suma, a caracterizar dois padrões de percepção de mundo bem diferentes entre si.

Da esquerda para a direita: Roy Carlini, Caio Durazzo, Carlinhos Machado (atrás, na bateria), Lincoln Baraccat e eu (Luiz Domingues). Uncle & Friends no Big Food Festival de São Paulo. 10 de dezembro de 2022. Clicks, acervo e cortesia: Vanderlei Bavaro   

Ufa, finalmente o Rock and Roll visceral tomou conta do ambiente e devo ressaltar que a técnica de som responsável pelo PA se mostrou muito hábil ao prover uma equalização bastante agradável. Esqueci de perguntar o seu nome para poder nominá-la com louvor neste relato, mas gostei da atuação dela ao se mostrar discreta na sua maneira de agir, competente na sua atribuição como técnica e além do mais, ela não nos falou nada, mas ficou implícito que também estava cansada do massacre proposto pelo DJ que nos antecedera e sim, sob um padrão de volume muito mais ameno que ela imprimiu na equalização do PA sob a sua responsabilidade, o nosso som se mostrou muito agradável para todos ali presentes. 

Da esquerda para a direita: Roy Carlini, Caio Durazzo e eu (Luiz Domingues). Uncle & Friends no Big Food Festival de São Paulo. 10 de dezembro de 2022. Clicks, acervo e cortesia: Vanderlei Bavaro

Há de se ressaltar também que a banda, mesmo sem ensaios prévios, e nem ao menos uma combinação de última hora estabelecida entre os músicos, empreendeu de uma forma muito natural um padrão de dinâmica admirável. Lembro-me de haver comentado com o Caio Durazzo sobre esse aspecto, após essa apresentação e ele também havia ficado com tal impressão, o que foi muito agradável para todos nós. Com dinâmica tudo fica mais agradável para todos, é um pressuposto básico para a boa música exercida de uma maneira profissional.

Da esquerda para a direita, vemos Roy Carlini a conversar com Lincoln Barracat. que sentado ao fundo, estava em momento de repouso estratégico, pois o calor esteve abrasador naquele instante. Também no fundo, mas centralizado, Carlinhos Machado. Na frente, Caio Durazzo e eu (Luiz Domingues). Uncle & Friends no Big Food Festival de São Paulo. 10 de dezembro de 2022. Click, acervo e cortesia: Vanderlei Bavaro

Tocamos praticamente o mesmo conteúdo do set list usado na apresentação anterior que cumpríramos na Casa de Cultura Chico Science, dias antes, com os Rocks, baladas e blues do repertório clássico de Lincoln Baraccat e houve um acréscimo de última hora, quando o Lincoln se afastou brevemente do palco para ganhar hidratação, devido ao forte calor ali presente e assim, o ótimo, Caio Durazzo, tomou a iniciativa ao propor Rocks cinquentistas internacionais e também um tema com teor Country-Rock, no caso uma canção do saudoso, Johnny Cash, e de imediato a banda respondeu de improviso com grande desenvoltura para que pudéssemos tocar além do previsto e assim cumprir uma carga maior, solicitada de última hora pela produção.

Muitas pessoas filmaram e publicaram tais materiais colhidos em redes sociais, mas eu só consegui preservar uma filmagem para poder alojar no YouTube, ou seja, talvez no futuro as demais filmagens também saiam do espectro mais restrito de redes como o Instagram e Facebook e atinjam um portal mais aberto nesse sentido. Por enquanto, fique com a filmagem da nossa performance a defender a música, "Comprimido":

"Comprimido" - Uncle & Friends ao vivo no Festival Big Food de São Paulo. 10 de dezembro de 2022. Filmagem cortesia de Vanderlei Bavaro

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=VoVYnGMTWUo 

Naturalmente que ao surgir material adicional, será devidamente alojado em meu Blog 3, que é o meu museu virtual de carreira. 

Bem, para anotar mais um aspecto positivo do festival, acredito que uma escalação com poucas bandas e a se observar bem espaçadas as suas respectivas apresentações, a garantir assim, tranquilidade na transição entre uma e outra, foi algo positivo no sentido de que é muito raro em festivais ao ar livre que haja tal predisposição. Claro, que com a presença de mais bandas, o espaço fica mais generoso para abranger tantos artistas que pleiteiam espaço, mas fica a ressalva de que a "ACR" trabalhava firme para garantir mais bandas em outras edições dessa mesma feira e que inclusive, já estavam sob planejamento adiantado nessa ocasião.

Caio Durazzo, com Carlinhos Machado, atrás na bateria e eu (Luiz Domingues). Uncle & Friends no Big Food Festival de São Paulo. 10 de dezembro de 2022. Click, acervo e cortesia: Vanderlei Bavaro

Muito bem, encerramos em alto astral a nossa apresentação e ao caminhar na companhia do meu amigo, Carlinhos Machado (e da sua namorada, a simpática, Alice), em direção ao seu carro, que estava estacionado na rua lateral (rua José do Patrocínio), lhe contei sobre a minha lembrança pessoal sobre o bairro, o novo parque em si e também sobre o estúdio que ali existia e no qual a Patrulha do Espaço sob a minha formação deu os seus primeiros passos em 1999.

Na primeira foto ainda no palco, a banda agradece os aplausos e abaixo, já de saída do ambiente do festival, posamos novamente. Uncle & Friends no Big Food Festival de São Paulo. 10 de dezembro de 2022. Clicks, acervo e cortesia: Vanderlei Bavaro 

Ficou implícito nessa ocasião que o grupo Uncle & Friends teria uma data a mais para o início de 2023, e a ser cumprido no palco de um novo e sensacional Centro Cultural então recém inaugurado na cidade de São Paulo, portanto, essa minha participação com o agradável grupo liderado pelo artista multi-mídia, Lincoln Baraccat, o grande "Uncle" e nós os músicos convidados como os seus "friends", teria mais uma página a ser acrescentada.

Portanto, possivelmente continua no futuro...

domingo, 25 de dezembro de 2022

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Uncle & Friends) - As Lembranças de uma Garagem de Bairro - Capítulo 120 - Por Luiz Domingues

Foi então que o segundo compromisso da "Uncle & Friends" surgiu poucos dias depois da apresentação ocorrida na Casa de Cultura Chico Science (e devidamente relatado em capítulo anterior), a se tratar de uma participação dentro de uma festival gastronômico ao ar livre.

Tal empreendimento foi organizado por uma empresa especializada na realização de festas dessa característica, e geralmente produzidas em ambientes fechados tais como pavilhões de exposições e salões de uma maneira geral, mas desta feita, foi mobilizada no ambiente de uma enorme praça pública, com ares de parque, na verdade, localizada teoricamente no bairro da Vila Mariana, e neste caso cabe uma pequena reflexão da minha parte antes de avançar sobre a nossa participação musical em si.

O primeiro ponto é justamente essa percepção do local, pois se de fato, pela demarcação da prefeitura de São Paulo, ali naquele local é território pertencente ao bairro da Vila Mariana, na prática, essa referida praça se encontra mesmo é no bairro vizinho, Aclimação. 

Ainda sobre tal local em específico, há de se ressaltar que tal espaço havia se transformado em uma enorme praça pública há cerca de vinte e poucos anos antes (escrevi este trecho em 2022 e a aludir então ao final dos anos noventa), depois que deixou de ser uma garagem da antiga "CMTC", a companhia municipal de transporte coletivo, ou seja, se tratava de uma garagem gigante, encravada em uma parte do bairro extremamente residencial e aliás, com residências de alto padrão em sua maioria, portanto, por décadas, foi considerada como um estorvo pelos moradores do entorno desse quadrante do bairro. Em suma, a tal "Praça Rosa Alves da Silva", na verdade se tornara um parque bem grande e nos dias de 2022, já com arborização avantajada, brinquedos para a criançada, quadras esportivas, equipamento de ginástica e até com um campo de futebol americano/rugbi, ou seja, se mostrou completamente sedimentado como um espaço de lazer e esportes para atender os moradores do bairro.

E finalmente, eu devo acrescentar a minha experiência pessoal ao relatar que na condição de ex-morador desse bairro, me lembro sim da garagem da "CMTC" ainda em funcionamento regular, do ponto inicial do famoso trólebus da linha "Machado de Assis" (a se tratar da rua onde fica a entrada principal do parque e no caso da antiga garagem) até o ponto final: "Cardoso de Almeida", isto é, a ligação bem longa entre os bairros da Aclimação na zona sul e Perdizes na zona oeste e no caso, a ser considerado histórico por ser a linha de ônibus elétrico mais velha da cidade, a remontar a sua inauguração para o longínquo ano de 1949. 

E também me recordei que na face lateral do parque, onde se encontra a rua José do Patrocínio, ficava localizado o estúdio "Alquimia", pertencente ao popular guitarrista conhecido como "Formiga" no bairro, local no qual os primeiros ensaios da nossa formação da Patrulha do Espaço foram ocorridos em março de 1999, portanto, a se tratar de uma outra lembrança importante de minha parte com aquele ambiente.

Bem, para encerrar esse longo prólogo, eu preciso observar que se por um lado a organização de tal feira gastronômica se mostrava experiente em seu nicho, a inclusão de bandas de Rock como atração musical, destoou certamente da ambientação regular com a qual esse tipo de produção estava habituada, pois ficou nítido na minha avaliação de que tudo ali remetera a um tipo de orientação burguesa em sua essência e que nesses moldes, o Rock ali se mostrara como um elemento estranho para o tipo de público que a feira buscava atender. Portanto, eu preciso realçar a boa manobra pela qual a Associação Cultural do Rock, a valorosa "ACR", empreendeu para vender um pacote composto por várias bandas de Rock em um ambiente que não era exatamente adequado para tal. Eu que sempre fui crítico de "associações", "cooperativas" e similares dessa monta, dada a frustração com tais tipos de estruturas com as quais lidei décadas atrás, devo salientar que neste caso em específico, estava bastante feliz com as ações que a "ACR" estava a implementar nessa época de 2022, com êxito inquestionável.

Continua...