segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 59 - Por Luiz Domingues

O Boca do Céu em foto promocional realizada em março ou abril de 1977. À esquerda, com óculos escuros, Laert Sarrumor; atrás, agachado, Fran Sérpico; atrás, ajoelhado, Wilton Rentero; ao lado direito, com a guitarra no colo, Osvaldo Vicino e à frente, com o baixo sobre as pernas, Luiz Domingues. Click : desconhecido, mas há a desconfiança generalizada da parte dessas personas retratadas, em ter sido da parte de Adelaide Giantomaso  

Ah, o Boca do Céu... a minha primeira banda, da qual eu guardo um carinho imenso não apenas por ter representado o impulso inicial para a minha construção de carreira, mas sobretudo, pela lembrança sempre inspiradora a respeito da energia incrível que proporcionou-me para que eu pudesse canalizar a loucura que o Rock acometera-me, paulatinamente, desde o final dos anos sessenta, ainda criança, e em vertiginosa escalada a partir dos anos setenta, em pleno avançar da minha adolescência. Pois é, o Rock não fora apenas um mero gênero musical para catalogar discos em prateleiras de lojas de vinis, mas algo muito maior, a amalgamar-se com questões culturais, certamente muito mais amplas, e sobretudo por unir-se aos valores da contracultura & afins. Embevecido por tal grandiosa magnitude, a minha completa inaptidão para a arte, e a música em específico, fora um empecilho monstruoso para que eu pudesse canalizar tamanha volúpia que consumia-me as entranhas, no entanto, eis que um dia, um colega da minha classe da 8ª série, chamado, Osvaldo Vicino, formulou-me o convite para que formássemos uma banda de Rock e este foi o impulso mágico que deu-me a chance para vencer as minhas barreiras, então intransponíveis, e finalmente vislumbrar a materialização do sonho.
O troféu que o Boca do Céu recebeu, por ter ganho o 2º lugar no Festival Femoc, em agosto de 1977

Bem, caminhamos até onde foi possível, a compreender-se as nossas dificuldades à época, e posso afirmar, fizemos conquistas. A dispersão da banda foi escalonada e ao final, dos membros originais, somente eu, Luiz, cheguei ao final das atividades da banda, juntamente ao Laert, embora ele não tenha sido da primeiríssima formação, por uma questão de poucos meses, apenas. Pelo fato de eu, Luiz, e Laert termos seguido juntos quando da formação do Grupo de Poesia e Música da Faculdade Cásper Líbero, em junho de 1979 (apenas dois meses após o final oficial do Boca do Céu, e nesse instante, com o grupo já bastante desfigurado), e embrião do que veio a tornar-se o Língua de Trapo, significou que a priori, nos anos posteriores ao Boca do Céu, foi com o Laert que eu mais tive convivência e atuação, por conta de eu ter sido membro do Língua de Trapo em duas oportunidades (da fundação do grupo, em 1979, até 1981, e posteriormente, entre 1983 e 1984). Por conta dessa realidade, eu passei anos sem saber notícias sobre os outros ex-companheiros do Boca do Céu.
Osvaldo Vicino e Laert Sarrumor, durante a festa de aniversário do Laert, em São Paulo, no ano de 2015. Acervo e cortesia : Laert Sarrumor. Click : Marcia Oliveira

Por volta de 2012, o Laert reencontrou o Osvaldo Vicino, virtualmente, através da extinta Rede Social Orkut e daí fez a ponte para que eu também restabelecesse o contato. Em 2015, eu fui convidado a participar de mais uma festa de aniversário do Laert e o Osvaldo, também foi convidado. Infelizmente, eu estava a convalescer, após ter submetido-me à duas cirurgias de emergência e não pude estar presente. Todavia, a despeito da minha falta, Osvaldo e Laert reencontraram-se, após trinta e sete anos, o que foi algo extraordinário. Ainda em 2015, o Osvaldo visitou-me em uma apresentação da Magnólia Blues Band, grupo em que toquei entre 2014 e 2016, e foi um reencontro muito feliz entre amigos que não viam-se pessoalmente, desde 1978. 
A histórica filmagem em Super-8, feita com o Boca do Céu a tocar, por obra de Nelson Gravalos, em 12 de junho de 1977. Acervo; digitalização e postagem inicial : Fran Sérpico. Pós-produção e segunda postagem : Jani Santana Morales

Eis o Link para assistir o vídeo no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=LHiL27bRGOs&feature=emb_logo

Ao final de 2016, reencontramos o baterista, Fran Sérpico, na Rede Social Facebook e algum tempo depois, na semana do Natal e Reveillon, ele deu-nos um presente maravilhoso : a digitalização e postagem no Portal You Tube, de uma filmagem que a nossa banda havia feito em junho de 1977. Histórico, emocionante e sem dúvida a mostrar-se como um tesouro de valor incalculável, trata-se do único registro da banda em ação, mesmo que neste vídeo, não haja o áudio original, a contar com o som real que produzíamos na ocasião.

Osvaldo visitou-me posteriormente em outras ocasiões, em shows de Kim Kehl & Os Kurandeiros, em pelo menos três ocasiões e casas diferentes. E sempre que reencontramo-nos, o assunto sobre um possível encontro com todos os membros do Boca do Céu, veio à baila. Já pensou ? Seria algo verdadeiramente sensacional reunir a banda inteira, após tantos anos.
Luiz Domingues e Osvaldo Vicino, em reencontros de 2015 (fotos 1 e 2, no Magnólia Villa Bar) e 2017 (foto 3, no Santa Sede Rock Bar), em São Paulo. Click; acervo e cortesia de Lara Pap (fotos 1 e 2). Foto 3 : acervo e cortesia de Osvaldo Vicino. Click : acompanhante de Osvaldo  

Pois foi ao final de 2019, que a perspectiva de um reencontro a envolver todos os ex-membros da banda, ganhou força, e tanto foi assim que motivou a criação de um grupo a promover a conversa reservada através do inbox da Rede Social Facebook, aliás criado por eu mesmo, Luiz, o qual foi batizado como : "Boca do Céu / Reencontro do Século XXI". 

Pois é, quando ouvíamos a canção : "21st One Century Schizoid Man", do King Crimson, ali no calor dos anos setenta, tínhamos a noção sobre o século XXI, como algo que aproximava-se, mas ainda a estar muito distante, portanto a configurar-se como uma visão do futuro, baseada naquela perspectiva fantasiosa que a nossa imaginação havia sido induzida pelo paradigma em torno dos filmes e seriados ao estilo "Sci-Fi", ou seja, a elucubrar os anos 2000, sob parâmetros espaciais; cibernéticos etc. Mas o século XXI chegou, avançou para a sua segunda década e o Boca do Céu, quem diria, abriu uma bela perspectiva para acrescentar mais histórias em minha autobiografia. Portanto, essa banda estava prestes a ofertar-me um segundo sonho, na verdade...

Continua...

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Crônicas da Autobio - A Pernoitar entre os Cartuns de Caruso - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol, em setembro de 1984. Foto promocional da banda, feita na mesma época, de autoria de Carlos Muniz Ventura

No segundo semestre de 1984, a nossa banda vivia um momento muito bom, sob o impacto de uma forte expansão gerencial e midiática. A crescer no imaginário popular e despertar por conseguinte a possibilidade em abraçar as oportunidades que surgiam, eis que por volta de setembro de 1984, a banda abriu duas frentes importantes para fomentar ainda mais a divulgação do trabalho e também para fechar shows. Nesses termos, os companheiros, Rubens Gióia e o então novo vocalista, Chico Dias (este rapaz na verdade, permaneceu muito pouco na formação da banda), foram à Porto Alegre, onde alguns contatos dentro da mídia gaúcha, foram movimentados, e em paralelo, eu mesmo, Luiz Domingues, fui ao Rio de Janeiro, onde por conta de alguns contatos que eu mantinha na capital fluminense, tratei por incrementar o mesmo esforço. 
A grande produtora musical, Cida Ayres, em foto mais atual, dos anos 2000. Foto : divulgação na Internet

É bem verdade, que além dos contatos que eu já possuía, houve a providencial ajuda que eu / nós, recebi (emos) da produtora do Língua de Trapo, chamada, Cida Ayres, que afeiçoara-se também ao trabalho da nossa banda, "A Chave do Sol" e assim, de uma forma muito generosa, ela movimentou os seus contatos pessoais e posso dizer, foi um esforço decisivo para que uma das abordagens que eu fui fazer no Rio, para vender um show da nossa banda no badalado espaço do "Circo Voador", lograsse êxito, logo a seguir, graças a esse esforço despendido em setembro de 1984, e com o apoio de Cida Ayres.
Bem, ainda a falar sobre a minha ida ao Rio, para estabelecer os contatos, houve um fato a mais e que fora também uma intervenção direta da minha amiga, Cida Ayres. Eis que assim que eu elaborei a minha agenda para cumprir na cidade, percebi que seria difícil cumprir todos os compromissos em um dia apenas, mesmo se eu viajasse pela madrugada e chegasse bem cedo ao solo carioca. Por conta dessa logística apertada, a Cida interveio e sugeriu uma solução gratuita para eu pernoitar na cidade e assim contar com mais um dia para que eu pudesse trabalhar no Rio. Ela conversara com o grande cartunista, Chico Caruso, muito famoso já naquela época, por ser o chargista oficial do jornal, "O Globo" e naturalmente a colaborar com os outros veículos da mesma empresa, incluso a Rede Globo de Televisão.
O grande cartunista, Chico Caruso, muito amigo do Língua de Trapo e que ajudou a minha outra banda, A Chave do Sol, em 1984. Foto : divulgação na Internet

Ocorre que ele, Chico Caruso, assim como o seu irmão gêmeo e igualmente um cartunista genial, Paulo Caruso, eram entusiastas do trabalho do Língua de Trapo, e em minha recente segunda passagem pela banda, entre 1983 e 1984, eu pude conviver com ambos. Aliás, bem recentemente naquela ocasião, ainda mais com o Chico, por conta de duas temporadas que essa banda cumprira pelos palcos cariocas. Portanto, ele conhecia-me por conta de minha atuação com tal grupo e quando a Cida Ayres o procurou para que ele abrisse-nos algum contato midiático, a proposta de ajuda foi providencial e inesperada ao mesmo tempo, pois ele ofereceu-me o seu atelier para que eu lá pernoitasse. Ora, que honra, aceitei de pronto e mais que a gentileza por si só, a mostrar-se muito grande, eu animei-me com a ideia de que ficaria algumas horas em seu gabinete de trabalho, solitariamente a verificar in loco, o seu material de criação. 
         Chico Caruso em foto montagem extraída da Internet

E foi assim, Chico recebeu-me com muita galhardia, além de disponibilizar a sua biblioteca para que eu pudesse examinar o que eu desejasse durante as horas em que ali permaneceria e sobretudo, com a liberdade para eu ver os seus novos trabalhos em construção sobre a prancheta, a vontade. Privilegiado, eu pude ver diversos cartuns em que ele estava a trabalhar, inclusive alguns já em fase de acabamento final em seu lay-out, para ser encaminhados à redação do jornal, "O Globo". Sensacional, eu fiquei muito feliz por ter tido liberdade para examinar o trabalho de um artista consagrado, em fase de elaboração, dentro do seu atelier de trabalho, localizado em uma travessa da Avenida Ataulfo de Paiva, no elegante bairro do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro.
A Chave do Sol : ao vivo no Circo Voador do Rio de Janeiro, em outubro de 1984. Foto : Claudio T. de Carvalho

E sim, os esforços lograram êxito, e entre outras conquistas, a nossa banda participou de um festival muito concorrido, entre as grandes bandas midiáticas do dito movimento "Br Rock 80's", no Circo Voador, logo a seguir, com um show completo que ali cumprimos ao final de outubro do mesmo ano. Portanto, A Chave do Sol agradece mais uma vez o apoio da solícita produtora, Cida Ayres e do grande cartunista, Chico Caruso.
 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Impessoalidade - Por Telma Jábali Barretto


As antigas folhinhas, calendários, traziam o dia Primeiro do ano como Confraternização Universal, algo como se nesse dia recém-vivido, nos víssemos como irmãos, fraternos...quem sabe trégua em meio às nossas contendas. Bem verdade que, sem elas, impossível chegar a essa laureada paz entre os povos... Que diferenças existem é evidente e claro, mas o saber fraternizar em meio a elas é quando, verdadeiramente, exercemos a capacidade de respeito e, mais que respeito, amor! Que tipo de empenho seria se fôssemos todos iguais?!... Já somos, naturalmente, propensos a admirar aquilo que nos parece confortável, conhecido, parecido e seguro, por inércia e puro comodismo e são os diferentes que cobram de nós pensar, buscar entender ou... numa mais delicada hipótese, achar caminhos em nossa reserva de memória como contrapor, rebater... pronta e rapidamente! 
Bem mais além desse nosso funcionar, praticamente automático, subexiste um grandioso empenho que é primeiro necessário conhecer, vindo depois o valorizar?!...e aí e sim!!! buscar vivenciar o que é a impessoalidade, equanimidade, onde, de início, contato com a barreira de vencer, de fato, quanto somos separativistas, seletivos e pelos mais diversos trajetos, com as mais incríveis formas de criar empecilhos a tudo e a todos rotulando e saindo daí, simples e puramente, catalogando de quem somos, seremos, ‘amiguinhos’, próximos, solidários, compreensivos, capazes de encobrir deslizes e enaltecendo diante de quem afiaremos nossas garras, ainda de prontidão, deixando aflorar a pouco bondosa natureza instintiva, da condição animal não tão vencida em nós, naqueles mecanismos reativos de agressão/defesa como se a mais eminente batalha de vida ou morte a nos espreitar, trazendo a chama que trai qualquer aprendizado, ainda racional, pouco apoiado num sentimento de real irmandade. 
Que nossa humanização continue sendo almejada, buscada e estimulada, trazendo cada vez mais, consciência àquilo devemos iluminar, para transpor fantasiosas e pouco verdadeiras noções de confraternizar numa perseverante conquista de nós mesmos, desenvolvendo olhar compassivo diante de pequenas ambivalências que nos habitam para, com veracidade, honestidade madura, fazermos a conquista de uma nova percepção de convivência pacífica que passa bastante longe da passividade ou conivência com o engano, mas que, a todo instante, incansável e perene, vigoroso investimento na clareza, transparência, daquele tipo de justiça impessoal, imparcial, nem promotor e nem defensor, que só mesmo o Amor, em seu estágio mais pleno, oferece! E que a Unidade aconteça em nós, com qualquer e outro próximo... por nós e pelo outro!!!

 
Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga; consultora para a harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga. Nesta reflexão, a colunista aborda a questão da impessoalidade nas relações humanas.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Autobiografia na Música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 122 - Por Luiz Domingues


O próximo compromisso para Kim Kehl & Os Kurandeiros, foi novamente através de uma participação em um festival ao ar livre, em meio às belas ruas da Vila Pompeia, na zona oeste de São Paulo. Como já mencionei em outras oportunidades, tais ruas desse bairro sempre provocam-me nostalgia pelas boas lembranças pessoais que ali mantenho com carinho. Tratou-se de um evento que recebeu o pomposo nome : 1º Festival de Rock da Vila Pompeia. Ora, ao tratar-se de um bairro cuja tradição em conter uma histórica relação com o Rock brasileiro, foi algo até surpreendente que somente ao final do ano de 2019, com o século XXI prestes a adentrar a casa da sua terceira década, que um festival nesse molde fosse realizado em suas ruas, visto que naquelas tantas vias tão íngremes, o Rock pulsara desde a década de cinquenta do século passado, com uma explosão mais acentuada durante o curso das décadas de sessenta e setenta. Entretanto, foi o que ocorreu, e dessa forma, assim fechamos o evento como "headliners" do palco "Caraíbas", instalado bem no cruzamento das Ruas Caraíbas e Ministro Ferreira Alves, ao final da tarde do dia 22 de dezembro de 2019.
Na primeira foto, Kim Kehl em destaque, com Carlinhos Machado ao fundo, na bateria. Na segunda foto, Phill Rendeiro; Carlinhos Machado; Kim Kehl e Luiz Domingues. Kim Kehl & Os Kurandeiros no 1º Festival de Rock da Vila Pompeia, em São Paulo. 22 de dezembro de 2019. Acervo e cortesia : Kim Kehl. Clicks : Lara Pap

Cheguei ao local do show, acompanhado do meu amigo, Kim Kehl, e ambos verificamos que a feira estava a transcorrer em pleno vapor, com uma multidão a usufruir dos shows, distribuídos em dois palcos e certamente a aproveitar as inúmeras barracas e Food Trucks à disposição dos moradores do bairro. Apesar do dia estar nublado, a possibilidade da chuva não esmoreceu o ímpeto das pessoas presentes e assim, famílias inteiras passeavam entre as barracas e aglomeravam-se ante os dois palcos, para apreciar as apresentações. O som estava bom em uma primeira análise como ouvinte (mas eu sei bem que tudo muda, quando sobe-se ao palco para tocar, ou seja a percepção é bem diferente); a multidão mostrava-se enorme e deveras animada com os shows, portanto, a primeira impressão foi ótima. Bem, problema recorrente em feiras ao ar livre, a produção não pensou mais uma vez em facilitar a vida dos expositores; artistas e técnicos que ali compareceram para trabalhar, portanto, a inexistência de um estacionamento conveniado e próximo, a pensar que todos que vão trabalhar, naturalmente carregam utensílios os mais diversos, foi como sempre em tais circunstâncias, um martírio. Em meu caso, a carregar apenas um instrumento, nem foi assim tão preocupante, no entanto, há quem carregue uma bateria em meio às suas inúmeras peças; teclados e / ou amplificadores, portanto, essa necessidade para descarregar o material de trabalho e a obrigar-se em procurar uma vaga posteriormente para o seu automóvel, é algo bastante desagradável. Paciência, eu estacionei na Rua Tucuna, quase na esquina com a Rua Venâncio Aires, ou seja, relativamente perto e a caminhada não foi severa, mas se houvesse um estacionamento gratuito e próximo, é óbvio que teria sido o ideal.
Na foto 1, Luiz Domingues em destaque, com Carlinhos Machado ao fundo na bateria. Foto 2 : Carlinhos Machado em destaque. Foto 3 : Kim Kehl em ação ! Kim Kehl & Os Kurandeiros no 1º Festival de Rock da Vila Pompeia, em São Paulo. 22 de dezembro de 2019. Clicks, acervo e cortesia : Marcos Kishi          

Eis que chegou a nossa hora para subirmos ao palco e enquanto preparávamos o nosso "set up", o nosso tecladista, Nelson Ferraresso, foi traído pela pressa e sem notar, "plugou" o seu instrumento em uma rede elétrica com voltagem em 220 volts. Ao perceber que queimara instantaneamente o seu teclado, chateou-se, naturalmente e ficou sem meios para atuar conosco. Uma ocorrência desagradável, e certamente que tal situação tratou por abalar a confiança de todos, mas fazer o quê ? O show precisava continuar, com o perdão pelo clichê e de fato, várias pessoas em meio ao público, gritavam, bem em torno daquela expectativa típica de início de show. Claro, em shows assim, produzidos em feiras ao ar livre, por melhor que seja a equipe técnica que forneça o suporte aos artistas, a troca de "set up" entre uma banda e outra, é sempre muito complicada. Então, aliado ao fato de que o público nem percebeu o nosso drama em relação ao ocorrido com o Nelson, ficou claro que aquela adrenalina pré-show estava instaurada, e mesmo por que, por sermos a última banda do festival, a euforia já estava sedimentada, com o público absolutamente "aquecido", como fala-se no jargão da música.
Mais flagrantes da banda em ação ! Kim Kehl & Os Kurandeiros no 1º Festival de Rock da Vila Pompeia, em São Paulo. 22 de dezembro de 2019. Acervo e cortesia : Kim Kehl. Clicks : Lara Pap

Dessa forma, lá fomos nós e mesmo com algumas dificuldades técnicas, sentidas desde a primeira música executada, superamos todas as adversidades, pois o público estava muito receptivo e o show foi, música após música, a verificar um ímpeto em crescer, de uma forma impressionante em termos de euforia. Nesses termos, é claro que a sincronicidade observada tende a suplantar qualquer intempérie, e por essa troca efetuada entre público e artista, há o efeito retroalimentador, ou seja, foi esse o nosso combustível para provocarmos dois pedidos de "bis" e sairmos do palco absolutamente extenuados, porém felizes pelo prazer que tivemos em termos cumprido uma apresentação tão boa e sobretudo, prazerosa. Tivemos dois convidados, a apresentar-se o guitarrista da banda, "Power Blues", Daniel Gerber e também o vocalista, Marquês, que estiveram conosco na jornada, para tocar e cantar em músicas diferentes, ambos.
Nas duas primeiras fotos, o convidado especial, Daniel Gerber a tocar próximo de Kim Kehl e com Carlinhos Machado ao fundo, na bateria. Nas fotos 3 e 4, o convidado especial, Marquês, a interagir com a banda. Ele é o penúltimo na linha de frente, da esquerda para a direita. Kim Kehl & Os Kurandeiros no 1º Festival de Rock da Vila Pompeia, em São Paulo. 22 de dezembro de 2019. Acervo e cortesia : Kim Kehl. Clicks : Lara Pap

Como de praxe, a quantidade de amigos encontrados nos bastidores, foi enorme, o que potencializou em muito a tarde / noite muito boa que tivemos, mesmo com o problema muito desagradável que o nosso tecladista sofrera. Algumas horas depois, em conversação travada através do grupo particular da banda em uma rede social, notamos que o Nelson estava mais conformado com o ocorrido, pois todos relataram passagens semelhantes, com acidentes iguais em outras ocasiões e outros fatos correlatos a relatar casos sobre danos ocorridos com instrumentos e equipamentos, e claro que isso estraga o dia de um músico, mas o sentimento ruim passa logo, ainda bem e mesmo com o inevitável vilipêndio ao bolso, que tais acidentes geram. 
"Cocada Preta" ao Vivo - Kim Kehl & Os Kurandeiros no 1º Festival de Rock da Vila Pompeia em São Paulo, no dia 22 de dezembro de 2019. Filmagem : Ju Rendeiro

Eis o Link para assistir no You Tube : 
https://www.youtube.com/watch?v=2VFUSjyarog

"Maria Maluca" (Kim Kehl) - Kim Kehl & Os Kurandeiros no 1º Festival de Rock da Vila Pompeia, em São Paulo, no dia 22 de dezembro de 2019. Filmagem : Fatima Stoppelli

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=vFUUjBk1DRw

"O Filho do Vodu" (Kim Kehl) (apenas a introdução) - Kim Kehl & Os Kurandeiros no 1º Festival de Rock da Vila Pompeia, em São Paulo, no dia 22 de dezembro de 2019. Filmagem : Fatima Stoppelli

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=AFpV5v7_eMg

Notícia boa, no dia seguinte ao show, 23 de dezembro, eu soube que o site "Rockbrasileiro.net", em parceria com o canal de You Tube, "Vitrola Verde", elegeu-me pelo segundo ano consecutivo, o melhor baixista do ano. Opinião cravada em editorial assinado pelo empreendedor cultural e editor dos dois veículos, Cesar Gavin, é evidente que provocou-me o sentimento bom da lisonja e honraria.

http://www.rockbrasileiro.net/?fbclid=IwAR3lbnaizK58xFHF2oQ_xjwBT14M844HHb39ca3oaSV1nKbGBiOqABahWNk
Mais uma panorâmica da banda ! Kim Kehl & Os Kurandeiros no 1º Festival de Rock da Vila Pompeia, em São Paulo. 22 de dezembro de 2019. Acervo e cortesia : Kim Kehl. Click : Lara Pap

Em 2019, não tocamos tanto quanto em 2017 e 2018, mas foram shows intensos em meio a muitos em festivais ao ar livre, perante multidões. Creio que lembrarei-me do ano de 2019, por tal característica, principalmente em seu segundo semestre. Fechamos as atividades da banda para as festas de final de ano, mas a prenunciar um ano de 2020, alvissareiro, estávamos com a perspectiva em participarmos de um ensaio gravado ao vivo, em um estúdio, para o mês inicial do novo ano.


Continua...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Autobiografia na Música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 121 - Por Luiz Domingues

Em um domingo com previsão para o tempo bom, dia 1º de dezembro de 2019, a nossa banda mais uma vez estava escalada para atuar em uma apresentação ao ar livre, decorrente de uma feira de artes. Desta feita, tal apresentação fora marcada para fazer parte da 2ª Feira de Artes da Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo. Eu nunca tive uma grande proximidade com tal bairro, mas houve época em minha vida em que eu ali passei com uma certa constância, pelo fato em ter morado na Vila Pompeia, por dois anos (1966 / 1967), e por este ser um bairro da zona oeste, naturalmente que muitas pessoas deste e de outros bairros vizinhos, costumavam frequentar com regularidade o então chamado, "Ceasa" (anos depois mais conhecido como "Ceagesp"), que vem a ser a maior central de abastecimento de produtos agrícolas de São Paulo, localizado em tal bairro, portanto, a oferta por frutas; legumes; hortaliças e laticínios, vindos diretamente dos produtores rurais interioranos com qualidade e preços baixos, sempre foi um chamariz natural, visto que tal central não vendia apenas pelo atacado, mas também sob o regime de varejo. Portanto, eu fui algumas vezes com o meu pai nesse entreposto gigantesco, isso sem contar que uma tradição ali forjara-se nesse ambiente rústico, em torno da sua famosa "sopa de cebola", que de tão famosa, tornou-se uma atração improvável, mas que solidificara-se, principalmente no período noturno e assim, tornou-se um programa exótico ir ao Ceasa, para degustar tal prato, principalmente no período da madrugada, enquanto caminhões carregavam e descarregavam a carga de produtos, de uma maneira frenética em suas dependências.

Tal fama perpetuou-se e eu lembro-me bem, nos anos oitenta, já adulto e a atuar com A Chave do Sol, eu fui com os companheiros da banda e amigos, muitas vezes ao Ceasa para degustar a famosa sopa da madrugada, após a realização de shows. Porém, nessa fase oitentista, apesar do ambiente insalubre do complexo, a parte do restaurante havia sofisticado-se, justamente por ter tornado-se uma atração turística / gastronômica na cidade e por conta disso, apesar da sua famosa "sopa de cebola" ainda ser um chamariz, a diversificação de pratos já mostra-se enorme, inclusive com o incremento de festivais da sopa, principalmente no período do inverno, com uma infinidade de outros sabores disponíveis, inclusive. Já no avançar dos anos noventa e também nos anos dois mil, eu cheguei a ler matérias em jornais de grande circulação, a dar conta que o bairro da Vila Leopoldina havia passado por transformações urbanísticas radicais e que vários galpões que ficavam nas cercanias do Ceagesp (ex-Ceasa), haviam sido demolidos e que prédios residenciais de alto padrão estavam a erguer-se em profusão. E também que outros tantos, foram transformados em modernas agências de publicidade e tecnologia, além de estúdios de cinema / produção audiovisual em geral.
Eis que eu cheguei ao bairro na tarde de 1º de dezembro de 2019, e de fato constatei que aquele bairro longínquo; repleto por galpões e caminhões carregados por frutas e legumes que lotavam as ruas em dias de outrora, estava muito mudado. Fiquei bastante impressionado com a transformação radical ali efetuada e além dos prédios residenciais sob alto padrão; o comércio sofisticado e a presença de restaurantes e cafés charmosos, não deixou-me dúvida de que estava tudo muito modificado ali. Portanto, a ideia de uma Feira de Artes ao ar livre, caiu como uma luva para a Vila Leopoldina, nessa fase em que estávamos às vésperas dos anos vinte do novo século, com todo esse progresso ali observado.
A banda em ação ! Kim Kehl & Os Kurandeiros na 2ª Feira de Artes da Vila Leopoldina, em São Paulo, no dia 1º de dezembro de 2019. Clicks; acervo e cortesia : Léo Cabrera

Havia dois palcos, um mais sofisticado e o outro mais simples, onde atuamos, e apesar da sua simplicidade e tamanho diminuto (vide as fotos onde estamos retratados a tocar), o importante foi que o som estava bem conduzido pelo responsável pelo áudio e a resposta do público foi excelente. Feira animada, nem mesmo o repentino surgimento de nuvens carregadas e que precipitou alguns pingos de chuva ameaçadores, tratou por estragar a festa e muito pelo contrário, simplesmente a chuva não prosperou e assim, o povo permaneceu in loco.
O palco foi diminuto, mas a apresentação foi bastante animada ! Kim Kehl & Os Kurandeiros na 2ª Feira de Artes da Vila Leopoldina, em São Paulo, no dia 1º de dezembro de 2019. Clicks; acervo e cortesia : Léo Cabrera

Dessa forma, ficamos muito contentes com a apresentação, e eu ainda tive uma boa surpresa quando reencontrei um velho amigo, com o qual não encontrava-me desde os anos oitenta, na figura de Claudio T. de Carvalho, mais conhecido como "Capetóide", e que fora um amigo; colaborador e testemunha ocular da carreira d'A Chave do Sol, a minha banda nos anos oitenta. Fiel amigo da banda, assíduo em nossos shows desde o primeiro, realizado no longínquo ano de 1982. Agora baixista de uma banda ("Alô Ayala"), onde atuava com o bom baterista, Léo Cabrera, foi um prazer conversar com ele nos bastidores e poder assistir boa parte da sua apresentação. Missão cumprida na Vila Leopoldina e não por caso, Claudio "Capetóide" foi conosco ao Ceasa em algumas madrugadas dos anos oitenta, em momentos pós-show que A Chave do Sol cumprira, portanto, que coincidência agradável.

"A Noite Inteira", ao vivo (apenas um trecho), durante a apresentação de Kim Kehl & Os Kurandeiros na 2ª Feira de Artes da Vila Leopoldina em São Paulo, no dia 1º de dezembro de 2019. Filmagem : Akemi Akishi. Apoio : Marcos Kishi

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=IIN9gjxGs60

"Eu Sou Duro", ao vivo, durante a apresentação de Kim Kehl & Os Kurandeiros na 2ª Feira de Artes da Vila Leopoldina em São Paulo, no dia 1º de dezembro de 2019. Filmagem : Akemi Akishi. Apoio : Marcos Kishi 

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=2CoyF-da_CE

Outro fato digno de nota, foi que esse show dos Kurandeiros realizado na Feira de Artes da Vila Leopoldina, marcou um significado extra para a minha carreira musical, pois representou o meu milésimo show ! No cômputo geral, desde que eu fizera a minha primeira apresentação oficial, em 12 de fevereiro de 1977, eis que por muitas bandas atuei e cheguei enfim a uma marca emblemática na carreira. Fiquei feliz, e mesmo ao ter plena consciência que artistas populares detém uma agenda infinitamente mais cheia do que eu jamais tive e portanto, justifica-se o fato de que demorei quarenta e três anos para chegar em um número que tais artistas alcançam em tempo muito menor, sei bem que na inversa proporção, a minha trajetória foi construída sob outros termos diametralmente diferentes e assim, na devida realidade em que sempre atuei e ainda atuo, esse número é grandioso, sem falsa modéstia de minha parte. Fiquei feliz também pela prorrogação que obtive, após sobreviver aos graves problemas de saúde que sofri em 2015, e que ameaçou fortemente a possibilidade de que eu avançasse a trabalhar, portanto, eu comemorei internamente o meu feito pessoal sem no entanto comentar com os colegas, para que isso não fosse alardeado ao microfone durante o show, e eu sei que eles teriam feito isso com muita alegria, certamente, mas eu optei por manter o sigilo da informação e apenas deixar para registrar a marca, aqui, neste texto autobiográfico. E aproveito para agradecer à todos, literalmente, que auxiliaram-me ao longo desses anos todos, para que eu pudesse atingir tal marca !

De volta a focar nos Kurandeiros, a nossa próxima missão seria em mais uma feira ao ar livre, e dessa forma a provar que 2019, foi um ano pródigo em shows dessas características para Kim Kehl & Os Kurandeiros.

Continua...