Quando surgiu a ideia do resgate em 2020, é claro que foi uma das primeiras canções a ser lembrada e a partir de 2021, quando a pandemia arrefeceu, passamos a trabalhar efetivamente com ela e a desenvolver novas partes que não existiam no formato dos anos setenta, sofisticando-a bastante.
Nesses termos, é notável como criamos a ideia da parte da introdução ficar mais elástica, com a melodia desenhada pela guitarra do Osvaldo a se destacar, e na gravação, mediante timbre de uma guitarra Fender Stratocaster, isso se realçou pelo presença decisiva do agudo bem proeminente.
O Laert insistiu muito que essa música tivesse ares de Rock Progressivo e particularmente eu não a via dessa forma, isto é, mais a pensar nela como uma balada Folk-Rock e no caso, eu a enxergava no rumo a seguir mais ou menos a cartilha dos Secos & Molhados com bastante jovialidade e balanço pop, quase próximo do R'n'B.
Mas de tanto ele insistir no elemento Prog, eu mesmo me antecipei e criei uma parte B para a introdução, com alguns acordes, um pouco de síncope na divisão rítmica mediante uma linha de baixo tercinada que chamou a feição Prog que ele tanto desejava incorporar e em cima desse trecho, um segundo solo, desta feita da parte de Wilton Rentero foi criado, bem melódico e a evocar o estilo do Space-Rock a la cena de Canterbury e assim, ficou mais Prog-Rock do que o Laert imaginara. E claro, os teclados colocados já com o arranjo definido, pelo nosso convidado especial, Rodrigo Hid (e no caso, a acrescentar o clássico som do órgão Hammond), eis que deu o verniz final para essa parte se parecer demais com o som do Yes.
A parte cantada foi sugerida no sentido de ser feita ao estilo de artistas Folk-Rock. A inspiração foi em torno de artistas sessentistas tais como: The Mamas and the Papas, Peter; Paul and Mary, The Seekers, Simon and Garfunkel e CSNY, a grosso modo, e assim, quando a gravamos, o Laert se completou ao cantar com Cacá Lima e Renata "Tata Martinelli", nossos convidados especiais. Dessa maneira, a música tem essa característica de não conter apenas backing vocals, mas um vocal aberto em três vozes na condução de suas estrofes. O arranjo para a construção dessa melodia harmonicamente aberta em vozes, ficou a cargo do Cacá Lima que mais uma vez construiu tudo no estúdio, com um poder de criatividade e rapidez, estonteante.
Uma parte inteiramente nova foi acrescida para quebrar a sequência inicial e nessa etapa acertamos que o Laert a cantaria sozinho, sem abrir vozes com os convidados e apenas ao final um ligeiro backing vocals faz uma melodia entoada como apoio da saída desse trecho.
Vem a parte da desdobrada rítmica e eu sugeri o uso do mellotron, outro clássico teclado dos anos setenta para o Rodrigo acrescentar. Acho que (modéstia a parte), a minha ideia caiu muito bem nesse trecho, pois o mellotron lembra demais o som do Genesis em "Watcher of the skies" e de David Bowie em "Space Oddity", mas pelo fato da desdobrada rítmica, lembra ainda mais a música: "O Toque" de Rita Lee & Tutti-Frutti, ou seja teve tudo a ver com essa concepção. Nesse trecho, a guitarra do Osvaldo dá os acordes da harmonia, Wilton contribuiu com um contrasolo super melódíco. Eu faço bicordes e no baixo Rickenbacker, o timbre médio-agudo ficou bem bonito, na minha avaliação.
A música volta para a parte A, e logo entra uma percussão bem balançada a conter congas, timbales e diversos instrumentos de apoio rítmico, além da pontual presença do "Temple Block". Foi essa a ótima participação de Marcos Martins, o percussionista do Língua de Trapo.
Em meio à percussão, o vocal onomatopaico que já existia no arranjo dos anos setenta, foi mantido. É um tipo de vocalização que é muito usada em canções pop ao estilo "AOR", para induzir grandes públicos de arenas, estádios de futebol e grandes shows feitos em parques públicos, a cantar junto, ou seja, se trata de um chamariz estratégico para buscar interação com a plateia.
E ao cantar mais uma estrofe logo após essa parte de empolgação coletiva, eis que a música entra em uma última parte, com o rítmo novamente alterado e desta feita, além do baixo bem marcado com a bateria, temos a presença da flauta como um elemento de docilidade a pontuar uma bela melodia. Tal parte foi um achado que o Wilton Rentero criou em um ensaio por volta de 2024, já perto de marcarmos o início da gravação da canção e caiu como uma luva para sofisticar ainda mais a peça. O convidado especial, Arnaldo Geretch, gravou essa flauta para abrilhantar a nossa canção. Esse trecho tem a marca do Prog-Rock, igualmente, e lembra bastante o som do "Renaissance".
A música se encerra na convenção situada na tonalidade de Fá maior, a trazer aquele sabor Folk-Rock que lhe é peculiar desde o seu nascedouro na década de setenta.
Acho que a música extrapolou todas as expectativas que tivemos quando o resgate se iniciou, pois sabíamos que ao determinarmos que faríamos mesmo esse trabalho, era consenso geral que por conta de nossa experiência adquirida, evidentemente que a música soaria muito melhor do que soava amparada pela nossa parca condição musical dos anos setenta. No entanto, a cada nova ideia que acrescentamos, a música cresceu muito além do que projetáramos e que ótimo, chegamos a esse resultado tão bom. Ela tem elementos de Folk-Prog Rock muito salientes, todavia, tem também o aspecto Pop, ou seja, é uma música que teria condições de se tornar radiofônica.
Eis o link para acessá-la:
https://www.youtube.com/watch?v=i7wRArm-s6M
Continua...













