domingo, 1 de fevereiro de 2026

Autobiografia na música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 224 - Por Luiz Domingues

Quando chegou o final de 2025, eu tive uma boa reflexão sobre a minha condição pessoal ante a música como um todo e a usar a minha condição de componente d'Os Kurandeiros como uma bom parâmetro de comparação. O fato de paralelamente estar a gravar o disco do Boca do Céu nessa época, a se tratar da minha primeira banda de carreira e reagrupada desde 2020 para cumprir a tarefa não realizada nos anos setenta, quando de sua primeira fase de atuação, não caberia nessa análise minha pessoal, dada a constatação de que esse trabalho em si era carregado de particularidades muito sui generis. 

Dessa forma, sem diminuir de forma alguma a importância dessa nobre missão do Boca do Céu, eu percebi, outrossim que a análise de carreira e de vida conteria amparo muito maior a bordo d'Os Kurandeiros, por uma série de razões. Em primeiro lugar, pelo fato da banda ser a continuidade regular e natural da minha carreira, ininterrupta desde abril de 1976, por intermédio do já citado Boca do Céu, ainda que essa outra banda citada a viver os seus anos juvenis. 

Por outro aspecto, eu pude constatar nesse ponto final de 2025, que quando entrei na formação d'Os Kurandeiros em agosto de 2011, eu já me considerava bastante experiente há muito tempo. Aliás, certos setores da mídia já me qualificavam como um artista veterano desde que eu fora membro do Pitbulls on Crack nos anos 1990, ou seja, eu lia em jornais e revistas e escutava na rádio e TV, muitas vezes jornalistas a citar-me como um músico de carreira já avançada nessa fase na qual atuei nessa citada banda noventista, ou seja, entre 1992 e 1997, quando ali atuei, eu tive entre trinta e dois e trinta e sete anos de idade e para certas pessoas da mídia, eu era considerado "velho" para estar na formação de uma banda de Rock.

Foto estilizada a me retratar a atuar ao vivo com Os Kurandeiros em 2024. Foi usada para compor a contracapa do CD "Pronto pra Festa!". Click original de Moacir Barbosa de Lima ("Moah")/Produtora Bicho Raro. Pós-produção: Kim Kehl 

Ora, é claro que eu nunca me impressionei com isso e aliás, nesses termos, o meu raciocínio pessoal sempre foi em torno da percepção dos velhos "bluesmen", ou seja, sempre me enxerguei como alguém que levaria a carreira até a decrepitude final, sem nenhuma crise pessoal de identidade ou coisa que o valha e nesses termos, de pronto relevava a opinião contrária de alguém que pensa que exista limite cronológico para ser "Rocker", músico, artista ou qualquer outra condição intrínseca à atuação no campo da arte. 

Então, entre essa dicotomia da opinião preconceituosa alheia e a minha percepção pessoal sobre o avançar da idade cronológica, eu jamais tive algum problema que gerasse trauma, tampouco preocupação. 

Foi então que pensei mais detidamente sobre os anos nos quais eu já fazia parte da formação d'Os Kurandeiros e o quanto me orgulhava, de que não obstante não ter sido membro fundador e pelo contrário, já haver ingressado em uma banda que mantinha uma longa tradição pregressa, o meu encaixe foi tão bom que gerou admiração e respeito pela banda e mais do que isso, a história conjunta que construímos se tornou a mais longeva da minha carreira. Ou seja, ao completar quatorze anos de permanência na formação dessa banda, ela de longe se tornou a minha maior estada em um grupo de Rock, entre tantas pelas quais atuei desde 1976.

Nesse aspecto da longevidade, a natural percepção de ter sido criado um vínculo histórico bem grande se fez notável, portanto, foi possível estabelecer fartamente dentro desses quatorze anos de atuação, um cabedal de lembranças incríveis e é exatamente nesse ponto que me deparei a analisar a minha idade avançada ao final de 2025, com a minha própria história com Os Kurandeiros.

Em suma, a decadência corpórea inevitável, me levou a constatar que o vigor físico para fazer shows de Rock em constância, já não era o mesmo e nem adianta o leitor argumentar que astros do Rock da década de sessenta como Paul McCartney, Mick Jagger, Roger Daltrey e outros, ainda faziam turnês mundiais exaustivas em pleno decorrer da metade da década de vinte do século vinte e um, pois a realidade é diametralmente oposta, haja vista que esses astros citados tem equipes de apoio de centenas de pessoas a cuidar absolutamente de tudo nas suas produções e no caso de artistas do underground como eu e meus colegas, temos que dirigir os nossos próprios carros, descarregar o equipamento, montar o palco, fazer o show e depois, no calor da madrugada, refazer o percurso inverso para chegar em casa a amanhecer e precisar de dois dias de repouso para se recuperar de uma maratona desse porte. E nem vou comparar a defasagem abissal de valor de cachet que os Rock Stars citados recebem em detrimento dos modestíssimos valores com os quais nós lidamos. 

Alerto ao leitor que não estou a me queixar, e nem mesmo a contemporizar as agruras dos ditos "pobre stars" em relação aos "Rock stars" consagrados, no entanto, a discorrer sobre a realidade, e nesse caso, sobre o avançar da idade no meu caso e dos colegas próximos, como representou exatamente tal fator inexorável na prática.

Não exatamente neste relato específico sobre Os Kurandeiros, mas em outros capítulos da minha autobiografia, a descrever fatos ocorridos de 2022 em diante, eu já descrevia as limitações da idade, como por exemplo, o decréscimo da visão e o cansaço em cima do palco, com sinais de tontura, quando de shows maios longos. Nada disso é algo fora do natural curso da vida, nem me abalei quando comecei a notar tais sinais, no entanto, apenas constato que eles chegaram e a tendência era de agravamento gradual.

Contudo, e de novo a pensar exclusivamente na minha condição de membro d'Os Kurandeiros, digo que a sensação de orgulho pela história construída, em detrimento da minha decadência como ser humano, teve um elemento a mais nesse momento de final de 2025, ou seja, percebi que dificuldades da terceira idade a parte, a vontade de alongar essa minha carreira com a banda ao máximo das potencialidades físicas e mentais que eu pudesse atingir, sobressaiu. Esse fator extraordinário muito me alegrou, pois tal sensação de querer prolongar esse prazer de subir ao palco e tocar "a noite inteira", ainda que de forma bem mais comedida, para não sentir tonturas, fraqueza nas pernas e braços e demais limitações corpóreas de um senhor de sessenta e cinco anos de idade.

Em síntese: ainda dava para "ser feliz, já que a galera queria Rock!"

Eu (Luiz Domingues), e o amigo e colega d'Os Kurandeiros, Kim Kehl, a promovermos o lançamento do CD "Pronto pra Festa", diretamente do estúdio Mandioka de São Paulo, em maio de 2025. Click (selfie), acervo e cortesia: Kim Kehl

Continua...