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sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Leitura de Ariela - Por Marcelino Rodriguez

Ariela já faz mais de mês que está internada, teve síndrome do pânico quando percebeu que a imensa população do país nunca leu
uma dúzia de livros. Foi como uma ficha que caiu.

E com a ficha caída, ela ficou em estado lamentável.

Triste ver uma moça bonita e culta como ela, com o braço
esticado tomando soro. Ao me ver chegar, sorriu como se fosse a primavera.
Com a mão direita, estava lendo A Águia e a Galinha,
do Leonardo Boff.

--- Como tá, minha linda?
--- Melhor, mas o médico me aconselhou sair do país - disse, abaixando a mão e o livro.
--- Por quê?
--- Ele disse, depois que conversamos quase duas horas, que as pessoas cultas e inteligentes devem fugir,
porque os patetas vão tomar conta de tudo em pouco tempo. Segundo ele me falou, são poucos cérebros no país que ainda se pode aproveitar. Ele disse que as mentes da atualidade não dariam meio filósofo grego. Que o modelo atual de sociedade são de safados governando burros.
Tudo previsível, pão e circo numa civilização sem estudo. Já leu esse livro do Boff?

--- Já li, sim.

--- Ele é quase uma iniciação, né?

--- Bem, na verdade, a maioria humana serve mesmo ao lado negro da força. Você já decidiu qual país você vai?

--- Eu tenho uma amiga na Suiça. Vou para os Alpes descansar. Eu ontem lembrei um fato isolado muito interessante, que pode ter causado meu estresse. Um dia antes eu fui no mercado comprar dois absorventes e uma garrafa de espumante, me dirigindo ao caixa rápido onde estava escrito "Máximo Vinte Volumes", em letras do tamanho do Relógio da Central do Brasil, sabe? E o que vejo, um sujeito com um carrinho lotado, parecia compra de mês. O caixa e a empacotadora não estavam nem aí, conversavam sobre
a sexualidade de alguém e sobre cultos religiosos, rindo ambos como se o mundo fosse uma piada.
Eu me senti impotente. Uma inútil. A civilização acabou, amor, só os livros poderiam salvar essa gente.

--- Você já tem previsão de alta?
--- Não, querido, ainda não. Como tá a venda do Tigre?

--- Graças a Deus, esgotou mais uma edição.

--- Nossa, nem tudo está perdido, então. Você vai me visitar na Suíça?

--- Vou sim, querida. Pode deixar.

Falamos ainda algumas amenidades, fui embora e fiquei triste. Não são muitas as mulheres capazes de citar filósofos gregos e falar de mistérios por aqui. Todo país deveria, em primeiro lugar,
desenvolver a mente das pessoas e só a literatura faz isso.

O mundo só precisa de leitores para ser salvo.

Um dia escrevo sobre isso. 


 
Marcelino Rodriguez é colunista ocasional do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma continuação de uma crônica anterior, onde através da metáfora sobre a doença da personagem Ariela, revela o absurdo da falta de afinidade do povo brasileiro com a leitura.