Neste meu segundo Blog, convido amigos para escrever; publico material alternativo de minha autoria, e não publicado em meu Blog 1, além de estar a publicar sob um formato em micro capítulos, o texto de minha autobiografia na música, inclusive com atualizações que não constam no livro oficial. E também anuncio as minhas atividades musicais mais recentes.
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domingo, 8 de março de 2015
Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 39 - Por Luiz Domingues
Um aluno que chegou em minhas aulas, mais ou menos em março de 1992, e cujo nome não revelarei para preservá-lo, chamou-me a atenção desde a sua primeira aula. Ele era bem jovem, vinha da cidade de São Bernardo do Campo / SP, e o que achei curioso logo no início das suas aulas, foi que ele revelou-se sincero logo na primeira aula, quando disse-me que detinha um déficit de aprendizagem, por apresentar um problema de ordem psicológica em sua vida. Mostrou-me então um receituário prescrito por um psiquiatra, com a intenção em comprovar que estava sob um tratamento formal, e que a despeito dessa condição, queria estudar o baixo elétrico, comigo.
Certo, em meu caso, sem nenhum preconceito, eu o aceitei como aluno e apenas fiquei atento à sua necessidade especial. De fato, rapidamente percebi que na parte teórica das aulas, ele desenvolvia-se bem devagar, e nesses termos, imbui-me de uma dose de paciência ainda maior do que eu já tinha em relação a qualquer aluno novato. Esse rapaz contudo, mantinha um comportamento estranho e que ia além da sua dificuldade em entender e reproduzir o que eu passava-lhe como informação e exercícios.
Ele detinha uma ingenuidade tremenda, que deixava-me em dúvida se fora fruto de seus problemas psicológicos, ou se forçava a barra por algum motivo obscuro, e que até hoje eu não descobri. Falo isso por que em muitos momentos assim a deparar-me com as suas intervenções, eu achava que ele forçava certas situações fora do comum, não por deficiência em decorrência de seus problemas mentais, mas a aproveitar-se de tal fato deliberadamente para provocar situações bizarras, talvez para divertir-se, simplesmente. Por exemplo, uma vez ele teve um ataque de riso, sem motivo algum, a interromper a aula de uma forma inesperada.
Em outras ocasiões, ele expressara caretas faciais despropositadas, e também sem relação alguma com as aulas, certamente. Por incrível que pareça, ele não ia mal nas aulas e mesmo que sob um ritmo mais lento do que os demais, estava a desenvolver, e eu notava que esse progresso animava-lhe, portanto fazia bem à sua autoestima. Ele tinha uma boa aparência e despertava a atenção das garotas. Uma vez, chegou em minha casa para a cumprir a sua aula, e um grupo de garotas de uma escola próxima de minha residência, estava naquele mesmo instante a abordar os moradores da vizinhança, a tocando as campainhas das casas, com o objetivo em vender convites para a festa junina da escola onde estudavam. Quando eu fui atender, notei que ele ficou muito perturbado na sala de aula, e a desobedecer a minha orientação para que continuasse a estudar enquanto eu ausentei-me. Quando percebi, ele já estava perto de mim e a incluir-se na conversa, ofereceu-se para comprar os tais convites oferecidos por essas meninas. A reação inicial das meninas, foi em tom de encantamento para com ele, e então ele ficou transtornado, a enrubescer de uma forma absurda e não obstante, a apresentar espasmos musculares nítidos. As garotas, que eram muito novinhas, naturalmente passaram da paquera à pilhéria sem escalas, e começaram a debochar dele.
Então, de forma tresloucada, ele sacou a sua carteira do bolso da calça e propôs-se a comprar todos os ingressos que elas tinham em mãos. Eu tentei impedir tal ação impensada de sua parte, mas aí começou uma algazarra com as garotas a berrar, excitadas pela euforia em ter vendido toda a carga de uma só vez, e ele ali, sem incomodar-se em ter cometido essa loucura sem pestanejar. Tudo bem que foi uma quantia irrisória, mas o que ele faria com mais de cinquenta convites para uma festa junina a promovida por uma escola estadual que era distante em mais de trinta 30 km da sua casa ?
Em uma outra vez, ele chegou em minha casa a fumar, e leve-se em consideração que ele não fumava, normalmente. Disse-me, como a justificar, que fizera aquilo para parecer ser mais "adulto" no trato com as garotas. No mínimo, esse era um conceito antiquado, do tempo em que o tabaco era justamente glamorizado por supostamente ofertar tal tipo de "'status" às pessoas, ou seja, uma tremenda balela.
E em certa ocasião, chegou a afirmar que estaria "apaixonado", pois acabara de fornecer uma informação na rua, à uma garota, e ao final, dissera-lhe que queria namorá-la. Ficou a dúvida : ele fez isso mesmo, isso era apenas uma epifania que ele guardava recôndidamente em sua mente ou apenas inventou tal história absurda para eu ficar impressionado ?
Ao final de 1992, ele saiu das minhas aulas, por alegar estar comprometido com outras obrigações para o ano posterior. Mas de uma forma inusitada, eis que apareceu na minha porta, no sábado de carnaval de 1993, ao justificar a sua presença ali, por supostamente estar a passear pelo Parque da Aclimação, muito próximo da minha residência, e assim, resolvera visitar-me. O recebi, naturalmente, apesar de estar em pleno feriado, mas a sua visita foi caótica a seguir, por que ele não falava nada coerente para exemplificar uma conversação coloquial normal.
E durante o período em que foi aluno, vivia a repetir que o seu ídolo maior seria o ator/ diretor e produtor cinematográfico, Amácio Mazzaropi. Eu não tinha / tenho nada contra o Mazzaropi, e pelo contrário, como cinéfilo que sou, admiro-o, também. Mas sempre achei estranha essa afirmação da parte dele, pois pareceu-me uma colocação despropositada e anacrônica, para um garoto da idade dele, na ocasião. Eu tive vários alunos exóticos em meu quadro, mas esse foi um dos maiores, sem dúvida...
Continua...
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