terça-feira, 5 de março de 2019

Ele Exigiu um Presente e o Recebeu - Por Luiz Domingues


Possuir sabedoria é uma grande qualidade. Deter muita informação, é outro feito notável e acumular muita instrução, por ter estudado muito, algo louvável. 
 
Quando um Ser Humano consegue reunir todos esses atributos juntos, pode ser considerado um gênio, praticamente. No entanto, trata-se de algo raro. 
 
Infelizmente, o que na contrapartida é algo mais comum, é que quando uma pessoa alcança a notoriedade por um desses tópicos tão somente, e por ter tal reconhecimento ante a sua condição intelectual proeminente, pode ser impelida pela vaidade e assim, ao permitir crescer tal convencimento por acreditar tratar-se de alguém superior em relação às demais. 
 
Dessa soberba adquirida, a moldar a sua personalidade para aproveitar-se da humildade alheia e sobretudo, agrava-se a situação se o fizer com um grau de desdém ante os demais, a revelar-se algo vergonhoso.
Foi um caso ocorrido na Cidade do México, em torno de um professor universitário chamado: Dr. Elton Montezuma. Proeminente professor universitário, em sua especialidade ele era muito bem preparado. 
 
O seu embasamento para com a sua matéria era bem grande e chegava a impressionar o seu domínio, ao saber na ponta da língua, muitos dados que outros mestres só conseguiam citar mediante uma pesquisa prévia, a efetuar muitas anotações, para poder preparar um aula. Montezuma, no entanto, mostrava tal domínio natural sobre o assunto e não apenas durante a exposição de suas aulas, mas a todo momento, pois se interpelado pelos corredores do campus universitário, ele respondia questões formuladas a queima roupa pelos seus alunos, com uma riqueza de detalhes impressionante ao demonstrar ter de fato, tudo decorado em sua mente, nos mínimos detalhes, como dizia aquele velho personagem do humor televisivo brasileiro.
Entretanto, tal fama interferiu em sua personalidade de uma forma bem negativa, ao ponto de motivar que ele adquirisse uma indisfarçável arrogância. Mais que isso, Montezuma criou o hábito deselegante de expressar tal soberba com requintes de crueldade, ao usar a admiração que lhe era devotada pelos seus alunos mais ingênuos, no sentido de promover atos abomináveis em torno da sua vontade recôndita para desdenhar das pessoas. 
 
Um exemplo desse tipo de atitude, dava-se sempre quando da aproximação da sua data natalícia, quando ele costumava promover uma festa comemorativa e ao elaborar a sua lista de convidados, exigia deles, presentes específicos por ele mesmo escolhidos. Ele exercia tal atitude em completo disparate, ao enviar no próprio convite para cada pessoa, o que desejava receber de sua parte e com instruções precisas sobre em que loja fazer a aquisição, e a acrescentar que o respectivo lojista já estava avisado e que este já reservara a peça por ele desejada. Ou seja, no convite, explicitamente fazia-se entender com a mensagem velada e deselegante a dar conta:
 
 -“vá buscar o que eu desejo, imediatamente, insignificante vassalo”...

Pois foi em uma das suas festas, que um aluno resolveu quebrar esse protocolo marcado pela subserviência descabida e chegou ao recinto, munido de um presente diferente e especial, destinado ao mestre Montezuma. Tal presente não foi notado em princípio, pois a verificação dos objetos recebidos não foi realizada no mesmo instante, a cada convidado que chegara, mas algumas horas depois. 
 
Portanto, a festa transcorreu de uma forma normal, sem nenhuma demonstração de desagravo do professor afetado, que pelo contrário, estava mais altivo do que nunca, principalmente ao regozijar-se com aquela quantidade de jovens alunas a adulá-lo.
Mas no dia seguinte, Montezuma mostrou-se possesso na sala de aula. Em seu discurso inicial, ameaçou todo o corpo discente da escola, ao explicitar que pensava em aplicar uma punição coletiva exemplar, caso o autor de um ato ocorrido sob profundo mau gosto em sua festa, que o ofendera na noite anterior, não apresentasse-se voluntariamente ou que fosse denunciado por algum colega. Aos berros, ele clamava por uma reparação da parte do seu ofensor. Foi quando um aluno, pediu a palavra e disse:
 
-“Mestre Montezuma: não estamos a compreender. Se alguém ofendeu-lhe, certamente não fui eu e ninguém do meu rol de amizades. Aliás, desconheço alguém nesta sala, que o tenha mal e vou além, o senhor é admirado por todos. Por favor, esclareça-nos o ocorrido, pois além de ser algo surpreendente para todos nós, é com muito respeito que eu vos digo que não parece justo que estejamos a ser ameaçados por uma punição coletiva, por conta de algum malfeito perpetrado por um único aluno e cujo ato, é uma completa surpresa para todos”.

Falou algo impróprio, tal aluno? No entanto, foi a oportunidade para que o mestre Montezuma mostrasse a sua verdadeira face, ao explodir em impropérios e acusações injustas à todos, inclusive ao aluno que interferira tão polidamente, apenas a expressar a sua justificável estupefação. 
 
Aos gritos, permeados por palavras de baixo calão, finalmente o antes admirado mestre, revelou o objeto da sua profunda indignação. Eis o que ele revelou aos seus alunos:
-“O bestinha que não trouxe o presente que eu solicitei previamente, teve a ousadia de ofertar-me algo muito ofensivo. Dentro de um saco de supermercado, eis que deparei-me com uma edição velha de uma revista masculina, toda amarrotada e com as páginas centrais do pôster da “gata do mês”, totalmente grudadas por um líquido viscoso, cuja propriedade de aderência, eu não ouso discorrer sobre do que se trata, em respeito às mocinhas presentes nesta sala”.

Após proferir tal discurso patético em torno de sua indignação pessoal, não preocupado em piorar ainda mais a sua reputação, Montezuma prosseguiu:

-“quem esse estudantezinho pensa que é, para aprontar-me tal afronta? O que quis insinuar com tal revista erótica? Que a minha esposa não é suficientemente atraente para eu ter uma vida sexual normal, e assim precisar de tal recurso audiovisual para poder estimular um alívio manual auto-induzido?

Nesse instante, a atmosfera na sala de aula, que ao início do monólogo fora marcada pela estupefação e nervosismo generalizado pelo tom de ameaça, mudara. Todos entreolhavam-se e muitos riam, ainda que a tentar disfarçar. Todavia, algo ainda mais inesperado ocorreu. 
 
Eis que Montezuma avistou um rapaz em silêncio, a sinalizar-lhe com o braço erguido, no típico sinal escolar com o intuito de expressar o desejo de pedir a palavra. Montezuma, gaguejou ao dizer-lhe
 
: -“Foi você? Estás a confessar?
E o rapaz, com expressão séria a destoar dos outros que seguravam o riso a todo custo, retrucou-lhe: 
 
-“Não, mestre Montezuma, não fui eu o autor dessa proeza. Entretanto, quero fazer-lhe uma pergunta. Fiquei intrigado, mestre: o senhor, ao citar a revista em questão, mencionou que ela lhe foi ofertada pois conteria um estímulo sexual artificial em termos audiovisuais. Pois a minha pergunta é a seguinte: aonde estaria o elemento “áudio” em uma revista impressa?"

Então, não deu tempo do professor esboçar agravar a sua crise de ira, pois a gargalhada coletiva que adveio, tratou por desmoralizar o mito construído em torno do grande sabichão, mestre Montezuma...

sábado, 2 de março de 2019

Crônicas da Autobiografia - O Palerma Sabe Indicar Caminhos - Por Luiz Domingues

           Aconteceu no tempo da Patrulha do Espaço, em 2002

Viajamos muito com a Patrulha do Espaço. Foram turnês longas a serem cumpridas, o que naturalmente representa em tese, a meta de qualquer artista que sonha em possuir uma agenda lotada. Tanto foi assim, que motivou que nós comprássemos um ônibus próprio para o nosso conforto e minimização de custos, algo incomum para uma banda de Rock, a atuar sem nenhum esquema de produção mais avantajado, a bordo das mordomias inerentes de quem frequentava o mainstream da música e portanto, a contar com empresário, gravadora, algum mecenas a bancar a produção ou tudo isso ao mesmo tempo, sorte adquirida por alguns poucos artistas.

Entretanto, mesmo os artistas mais celebrados com alcance mundial, sofrem em turnês exaustivas, sendo assim, sob condições muito mais modestas, é claro que cansávamo-nos e tínhamos que enfrentar dificuldades no cotidiano vivido na estrada. 
 
Na contrapartida, além da obviedade de ficarmos gratificados com os resultados artísticos obtidos e o carinho dos fãs em cada cidade (isso parece discurso piegas, geralmente proferido por atores de novelas da TV, mas é um fato, tal suporte popular e espontâneo traz prazer e ânimo para qualquer artista), nós também colecionamos muitas histórias agradáveis e outras tantas, engraçadas.
Por exemplo, sempre algo pitoresco acontecia quando entrávamos ou saíamos de alguma cidade e nesta crônica eu vou contar sobre algo inusitado que ocorreu e que nos dias atuais poderia ser classificado como algo “politicamente incorreto”, por insinuar ser objeto de uma piada de mau gosto. 
 
Particularmente, eu tendo a não gostar de humor sarcástico que possa ofender, humilhar ou suscitar o desdém como modus operandi, todavia, neste caso, sei que o autor da colocação, não o cometeu com má intenção deliberada de debochar de ninguém, mas simplesmente deu vazão ao que pensou sem nenhum freio moral naquele instante e neste caso, a sua fala tão espontânea resultou em uma gargalhada coletiva que custou a cessar dentro do nosso ônibus. Isso ocorreu em novembro de 2002, na cidade de Ribeirão Preto-SP. 
 
Pois então ocorreu que nós entramos no perímetro urbano dessa localidade e ao seguirmos as placas, chegamos rapidamente ao centro da cidade. Estávamos a procurar um endereço em específico, onde ficava localizado o hotel no qual hospedar-nos-íamos. Sem GPS e com os poucos telefones celulares disponíveis entre nós, ainda com tecnologia arcaica, sem acessar a internet, a solução foi recorrermos aos transeuntes pelas ruas ou parar em estabelecimentos comerciais, para efetuarmos perguntas sobre como chegaríamos à rua que procurávamos. 
 
Após duas ou três consultas infrutíferas, eis que o clima passou a ficar tenso dentro do nosso carro, com alguns membros da nossa comitiva a não demonstrarem levar na brincadeira a falta de perspectiva imediata para chegarmos ao nosso destino. 
Foi quando uma voz levantou-se e ao dirigir-se diretamente ao nosso motorista, afirmou, categoricamente a apontar para um rapaz com aparência simplória, que caminhava pela calçada: 

-“pergunta para esse sujeito aí. Ele tem cara de idiota, pois assim deve saber”...

A reação imediata serviu não apenas para apontar uma possível solução para o nosso problema premente, mas como acréscimo, provocou a substancial descontração do ambiente, visto que a gargalhada gerada foi total. 
 
Mesmo em meio àquela balburdia, o nosso motorista acatou a sugestão e parou, abriu a porta e abordou o rapaz para fazer-lhe a pergunta. Porém, ele teve que esforçar-se para não rir, também, enquanto formulava o questionamento ao rapaz. 
 
Nunca esqueço-me da feição do sujeito abordado, atônito ao deparar-se com aquele ônibus repleto por cabeludos a gargalharem e ele ali no arroubo de seu bom mocismo a explicar ao nosso motorista o caminho mediante uma gesticulação manual concomitante. 
Bem, não sei se o rapaz foi de fato um incauto, contudo, talvez o membro da nossa comitiva que indicou-lhe, teve razão em um aspecto: ele sinalizou-nos o caminho, absolutamente correto...