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sexta-feira, 30 de maio de 2025

Autobiografia na música - Boca do Céu - Capítulo 170 - Por Luiz Domingues

Chegamos no horário combinado ao Instituto Cultural Bolívia Rock e logo preparamos o palco para o soundcheck vespertino tradicional. Não foi a primeira vez na minha trajetória, mas novamente eu acumulei a dupla função de participar de um show a atuar e também promover noite de autógrafos de um livro meu. E neste caso, dois livros, pois além de promover mais uma noite em torno do livro "Boca do Céu", a ênfase esteve em torno do lançamento do livro "Língua de Trapo". 

Por dividirmos a noite com a banda "Confraria Fusa", naturalmente que tivemos apoio mútuo garantido entre as bandas pela amizade consolidada há anos e além do mais, o nosso baterista, Carlinhos Machado, também era componente dessa banda. 

As paredes do Instituto Cultural Bolívia Rock não deixavam dúvida que a cultura Rocker ali se fazia proeminente. Na última foto, o guitarrista Fulvio Siciliano e Carlinhos Machado a preparar os seus respectivos equipamentos. Boca do Céu no Instituto Cultural Bolívia Rock (ICBR). 1º de março de 2025. Clicks, acervo e cortesia: Moacir Barbosa de Lima ("Moah")/Produtora Bicho Raro

Feito o trabalho de preparação, o soundcheck foi realizado na ordem inversa e foi tranquilo. A técnica de PA da casa, Talita, havia sofrido um acidente e dessa forma, os guitarristas Deco Wanderley Koyanagui e Adilson Oliveira se responsabilizaram pela operação do PA da casa e sendo músicos muito bons e amigos de todos nós, foi um trabalho coletivo muito prazeroso e eficaz.

Tudo arrumado, eu fui me dedicar à minha noite de autógrafos e neste caso, também tive companhia, pois o guitarrista da banda "Confraria Fusa", Paulo Sá, também estava a lançar o seu mais novo livro (o  romance: "O Plástico Retangular Amarelo"), haja visto ser ele igualmente um escritor. Que prazeroso foi usarmos um ambiente destacado da casa e ali ficamos perfilados mesa a mesa e a atendermos os nossos respectivos leitores! E no caso, muitos leitores meus compraram o livro de Paulo Sá e vice-versa, o que foi muito bom para ambos. 

A aproveitar o ensejo, além dos livros, a loja também vendeu discos da Confraria Fusa, discos d'A Chave do Sol, minha antiga banda, discos do Língua de Trapo, camisetas do Boca do Céu e meus livros anteriores, portanto, nesse ambiente muito camarada da casa para conosco, entre as bandas e entre os autores de livros, foi uma primeira atividade muito exitosa pelo carinho que recebemos. 

As duas primeiras fotos mostram os respectivos "banners" a ilustrar o lançamento dos dois primeiros volumes da minha autobiografia na música. Clicks, acervo e cortesia: Ana Cristina Domingues (1, 2 e 4  e a foto 3 sendo o autor do click, "Weber Japoneis". Nas duas fotos posteriores, eu e o amigo escritor Paulo Sá, lado a lado na missão de lançarmos os nossos respectivos livros! 

Foi quando me avisaram que o show do Boca do Céu precisava começar e eu fui de imediato ao camarim para trocar o figurino de escritor pelo de Rocker e me unir aos meus velhos amigos de 1976 para mais um show da nossa banda revivida nos anos 2020.  

Continua...

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Autobiografia na música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 207 - Por Luiz Domingues

Uma panorâmica da banda em ação. Os Kurandeiros durante show realizado em 23 de outubro de 2021 no Teatro Red Star de São Paulo em meio ao Dellaz Fest e cuja performance gravada resultou no álbum "Pronto pra Festa!" lançado em julho de 2024. Click, acervo e cortesia: Ju Rendeiro

Sobre a canção "Viagem Muito Louca", quando a excutamos nesse show de 2021, a perda do nosso amigo, Ciro Pessoa ainda era bem recente, portanto, essa homenagem criada pelo Kim Kehl nos deixava bem sensíveis pelo que ela representava a celebrar a sua memória, mas ao mesmo tempo a nos gerar o sentimento de saudade do companheiro que partira em 2020. Bem, ante o inevitável, demos o nosso melhor e agora, além da versão de estúdio, temos mais uma forma de nos lembrarmos do amigo, devidamente registrada em disco oficial. E que ele receba essa boa vibração que lhe mandamos.


6) "Viagem muito louca" - Áudio oficial de CD "Pronto pra Festa!"

Eis o link para escutar no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=8skUU6dsObw

Música cheia de referências psicodélicas e detalhes de arranjo muito ricos, tal tema contém na sua letra uma linda inserção do surrealismo e da psicodelia sessentista que o Ciro tanto amou na sua vida e exerceu como artista.

Essa interpretação ficou bastante interessante pela sua assertividade excelente ao vivo, com tudo muito bem engendrado e reforçado pela performance perfeita da banda.

Impressiona muito a voz da Renata "Tata" Martinelli que a interpreta com muito estilo, a esticar as sílabas finais como efeito estilístico e assim estabelecer uma dose de emoção teatral, eu diria. Kim Kehl fornece apoio no refrão a fazer uma junção muito interessante. 

Destaque para os teclados de Nelson Ferraresso que imprime em certos ponto uma sonoridade de arp-strings que lembra bastante o som de John Paul Jones nos discos finais da discografia do Led Zeppelin, ou seja, aquele clima de "Presence" e "In Thouugh the Out Door" se faz presente. Alguns detalhes de piano foram acrescentados no overdubbing e que ficaram muito bons.

Os efeitos de percussão acrescidos por Carlinhos Machado são muito bons, igualmente, além do trabalho das guitarras.

7) "Noite de sábado" - Áudio oficial de CD "Pronto pra Festa!"

Eis o link para ouvir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=86g7h7SJ44U

Soa muito boa essa interpretação desse Blues-Rock agitado ao estilo do "Texas Blues". As guitarras se apresentam de uma forma incrivelmente bem entrosadas, com a "cozinha" igualmente em perfeita sincronia. E além do mais, impressiona o timbre do bumbo, principalmente, a manter a banda sob um pulso incrível.

Renata "Tata" Martinelli e Kim Kehl em ação. Os Kurandeiros durante show realizado em 23 de outubro de 2021 no Teatro Red Star de São Paulo em meio ao Dellaz Fest e cuja performance gravada resultou no álbum "Pronto pra Festa!" lançado em julho de 2024. Click, acervo e cortesia: Cesar Gavin

Mais uma vez a Renata "Tata" Martinelli brilha, desta feita a produzir um timbre mais grave da sua voz, a lembrar Maggie Bell em seus melhores momentos com o grupo Stone the Crows nos anos setenta. 

E o piano de Nelson Ferraresso passeia de uma forma magistral, com pontuais intervenções da guitarra do Kim a desenhar em paralelo. Parece que estamos a ouvir um disco do Johnny Winter dos anos setenta tamanha a vibração que conseguimos imprimir.

8) "Cocada preta" - Áudio oficial de CD "Pronto pra Festa!"

Eis o link para escutar no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=HwvrB2BQP6Q

Versão muito boa dessa canção contida nos primeiros trabalhos d'Os Kurandeiros. Inspirada em "Brown Sugar" dos Rolling Stones, tem uma letra muito divertida a se evocar o mesmo tema proposto pelos "Glimmer Twins" na versão original.

Nessa interpretação, mais uma vez as guitarras se mostram muito bem colocadas nos espaços, a la Rolling Stones. O solo de Phil Rendeiro é muito bom e com aquele timbre agudo de uma Fender Stratocaster, ficou magnífico. 

É espetacular a atuação de Carlinhos Machado, a evocar o espírito de Charlie Watts e novamente o piano comandado pelo Nelson Ferraresso ficou super Rock'n' Roll na sua essência.

9) "A galera quer Rock" - Áudio oficial de CD "Pronto pra Festa!"

Eis o link para escutar no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=pH1sdWc6iSw

Impressionante o som do baixo nessa faixa, a soar com o clássico timbre do Fender Jazz Bass, mais para a timbragem "aveludada" do seu grave proeminente. Lembrou-me o som de Dee Murray nos seus melhores momentos a atuar nos discos do Elton John nos anos setenta. 

A voz de Renata "Tata" Martinelli lembra bastante a voz da grande Silvinha na década de sessenta. A interpretação solo de Kim Kehl é muito boa e quando as vozes de Carlinhos Machado e Phil Rendeiro aparecem, o fato de ficarem livres na criação, sem se ater à sincronia, as deixou muito interessantes. Isso não foi planejado nos ensaios, portanto, foi um improviso que se provou como uma criação espontânea e feliz na sua resolução.

Gostei demais da performance do Carlinhos Machado e o som da campana do seu prato "ride" ficou espetacular. Gostei muito do trêmulo da guitarra do Kim Kehl na pausa estratégica que a banda faz na metade para o fim da música. Nelson Ferraresso pontua com o piano elétrico e ficou ótima a intervenção. 

10) "São Paulo" (Vai sobreviver) - Áudio oficial de CD "Pronto pra Festa!"

Eis o link para ouvir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=lTxDTBvSeNM

Canção concebida para soar como Pop-Rock ao estilo "AOR", nesta versão ao vivo, tal qual a oficial do disco "Cidade Fantasma", ela cumpre o seu objetivo ao ser interpretada como se a banda estivesse a se apresentar em um estádio de futebol lotado.

Eu (Luiz Domingues), com Carlinhos Machado ao fundo na bateria e Renata "Tata" Martinelli na linha de frente. Os Kurandeiros durante show realizado em 23 de outubro de 2021 no Teatro Red Star de São Paulo em meio ao Dellaz Fest e cuja performance gravada resultou no álbum "Pronto pra Festa!" lançado em julho de 2024. Click, acervo e cortesia: Ju Rendeiro

O meu baixo está com um timbre muito bom, a pulsar de forma empolgante, pois quando criei essa linha, eu queria que o baixo imprimisse a euforia de uma banda do estilo "AOR" a tocar para multidões e acho que consegui passar esse sentimento tanto na gravação de estúdio, quanto nessa versão ao vivo. Quando a toco ao vivo, sinto-me como se eu tocasse em bandas como o Boston, Reo Speedwagon ou Foreigner.

E a bateria vai junto, a garantir essa euforia Pop que a música sugere aos ouvintes. As guitarras estão excelentes, ambas. Os efeitos de "delay" da guitarra do Kim ficaram muito bons, perfeitamente sincronizados no tempo da canção.

E os teclados também soam muito bem, a garantir o colorido que essa canção contém. Os backings foram ajustados no overdubbing porque ao vivo as vozes não ficaram perfeitamente sincronizadas em termos de volume mixado ao vivo, daí a correção da pós-produção.

11) "Sonhos & Rosquinhas Suíte" + Grand finale - Áudio oficial de CD "Pronto pra Festa!"

Eis o link para escutar no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=MOgecpTE5z4

Nesta versão concebida para ser tocada apenas o refrão da música "Sonhos & Rosquinhas Suíte" e com a finalidade de encerrar o show, soamos como o Mott the Hoople em seus dias de glória nos anos setenta, ou seja, a gerar um Rock'n' Roll mesclado com o Hard-Rock sob uma aura Glam-Rock espetacular. 

O peso do órgão Hammond, aliado a um solo excelente da parte do Kim Kehl, e o refrão em sentido "looping" ancorado pelos backings vocals a la Uriah Heep, dá margem à interpretação espetacular da Renata "Tata" Martinelli, que lembra Janis Joplin.

Eu e Carlinhos Machado vamos juntos sob um efeito crescente que dá o sentido da empolgação, para levar a banda às alturas e assim, dar margem para que Renata "Tata" Martinelli possa soltar a voz e Kim solar com emoção no final. 

Kim Kehl e Nelson Ferraresso em ação! Os Kurandeiros durante show realizado em 23 de outubro de 2021 no Teatro Red Star de São Paulo em meio ao Dellaz Fest e cuja performance gravada resultou no álbum "Pronto pra Festa!" lançado em julho de 2024. Click, acervo e cortesia: Cesar Gavin

É muito bom o efeito final da guitarra a evocar Jimi Hendrix com apoio de efeitos de percussão e o órgão Hammond no apoio.

Ao final, Kim Kehl agradece a plateia, que na verdade estava do outro lado das telas de monitores de computadores, tablets e telefones celulares, pois esse show foi uma "live" concebida em meio aos cuidados que vivemos para não gerar contaminação, bem no meio da pandemia da Covid-19. Portanto, foi a esse público numeroso, porém distante que ele se dirigiu, haja vista que por conta das medidas sanitárias de segurança, tocamos para um teatro vazio, somente com a presença dos técnicos do equipamento de som e iluminação e os responsáveis pela transmissão, além dos produtores do evento criado por Gigi Jardim e com apoio da Webradio Stay Rock Brazil.

Phill Rendeiro no destaque, com a minha presença, Luiz Domingues, encoberto no enquadramento. Os Kurandeiros durante show realizado em 23 de outubro de 2021 no Teatro Red Star de São Paulo em meio ao Dellaz Fest e cuja performance gravada resultou no álbum "Pronto pra Festa!" lançado em julho de 2024. Click, acervo e cortesia: Ju Rendeiro

Em suma, esse disco teve nessa captura de áudio excelente e na feliz performance da banda, dois trunfos, que ao se juntar à caprichada mixagem e masterização feita pelo nosso guitarrista, Phil Rendeiro, nos proporcionou um excelente disco ao vivo. 

Para encerrar esta análise, este disco se tornou uma peça muito importante para a discografia d'Os Kurandeiros por dois motivos: 

1) Veio a preencher uma lacuna boa após o lançamento do álbum "Cidade Fantasma" em 2021, e assim, estrategicamente ocupar o espaço até a banda voltar a produzir um novo álbum de estúdio com material inédito. 

2) Coroar uma etapa da carreira, o que sempre um disco ao vivo cumpre para demarcar o fim de um ciclo para o início de um outro para qualquer banda de Rock e a nossa segue tal liturgia, naturalmente.

E no meu caso em particular, também representou um marco muito interessante, no sentido de que veio a se tornar um dos melhores discos ao vivo que eu já gravei, a pensar na carreira toda e isso me alegrou muito. Disco ao vivo tem essa característica de gerar essa boa impressão de como o trabalho soava no palco, portanto, fiquei muito feliz por verificar que ficou tão bom sob o ponto de vista do áudio, mas sobretudo pela ótima performance que tivemos.

Como eu já salientei, os planos para lançar esse disco na versão tradicional de CD, estavam na ordem do dia, mas em setembro, as boas novas da agenda em movimento, nos levaram a pensar em ensaio e esforços de divulgação e produção.

E além do mais, uma boa nova no meu campo pessoal serviu também como alavanca para tornar um desses shows que mencionei, em uma noite especial e no caso, a manter uma estreita relação com a minha própria carreia musical e por conseguinte, a motivar a banda! 

Continua...

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Crônicas da autobiografia - Resquícios oitentistas - Por Luiz Domingues

               Aconteceu no tempo do Pitbulls on Crack em 1993

A nossa banda havia se apresentado em uma casa noturna localizada na cidade de Santo André-SP em maio de 1992, e conforme eu narrei no decorrer do texto autobiográfico contido no volume VIII da minha autobiografia, a descrever a minha história com esse grupo (também presente nos meus blogs 2 e 3), ali tivemos uma experiência de apreensão com um desfecho surpreendente.

Ocorre que uma região pertencente à área metropolitana de São Paulo, conhecida como "ABC", formada por sete cidades coladas umas nas outras e todas em São Paulo, teve um histórico forte de cumplicidade com o movimento Punk e com uma tribo rival, como os Skinheads e ambas, hostis a uma infinidade de outras tribos, entre elas aos ditos "headbangers", estes seguidores das estéticas do Heavy-Metal e nesse caso, eu não fazia parte de nenhuma delas e pelo contrário, era hostilizado por ser um 'hippie" anacrônico nos anos oitenta e sob perigo constante, pois os punks e skinheads odiavam velhos hippies dos anos sessenta ali perdidos no tempo e no espaço, cabeludos pacifistas como eu. 

Bem, nos anos oitenta, foram muitas as ocorrências desagradáveis vividas em meio às emboscadas que tais grupos promoviam pelas ruas de São Paulo, também pelas cidades do ABC e todos sabiam que as "gangs" mais violentas vinham do ABC, principalmente da cidade de Santo André.

Eis que em um dia de março de 1993, uma reunião foi marcada com um dirigente de uma pequena gravadora que havia se interessado em contratar a nossa banda para lançar um disco. O seu escritório ficava localizado em uma movimentada rua do centro de Santo André e curiosamente bem perto da casa noturna na qual havíamos passado por uma situação temerosa no ano anterior. 

Inocentemente, a julgar que o pior já havia passado com o avançar dos tempos, fui tranquilo ao local para representar a nossa banda, sem imaginar que nessa cidade ainda houvesse esse clima de animosidade, com "gangs" a estabelecer rondas veladas pelas ruas a fim de hostilizar grupos rivais.

Assim que estacionei o carro perto do local que procurava, vi que um grupo passava pela calçada, e fiquei preocupado, porque notei que esses sujeitos detinham correntes de ferro e bastões de beisebol em mãos. Pois é, eu estava errado, o fato da década de oitenta ter acabado não significou exatamente que essa mentalidade belicosa também estivesse extinta e assim, percebi que precisava tomar cuidado com o meu deslocamento dali ao escritório e de volta ao carro, quando do término da reunião.

Quando passaram pela calçada, os sujeitos não perceberam a minha presença dentro do carro e minha longa cabeleira hippie teria sido um alvo fácil para o seu ódio irracional inerente para lhes impelir a me hostilizar, e eu eu sabia como agiam esses sujeitos nos anos oitenta.

Esperei que se afastassem e quando desci do carro, verifiquei que havia estacionado pelo menos um metro dentro de um local proibido e isso geraria uma multa. Voltei ao carro para corrigir a posição do automóvel e ele simplesmente não deu sinal de ignição. Após algumas tentativas, desisti pois esgotaria a carga da bateria e talvez não fosse esse o problema, sendo que provavelmente poderia ter sido uma falha do motor de arranque (isso se confirmou horas depois).

Desci do carro e a empurrá-lo com as próprias mãos, coloquei o veículo em um local seguro e permitido, todavia me preocupei, pois a despeito do aborrecimento de ter que pedir socorro mecânico, havia o risco da hostilidade a me rondar. Dito e feito, eu pensava justamente nisso quando o grupo de pessoas hostis apontou na esquina, a voltar pela mesma calçada. Fui rápido, voltei para o carro para esperar que eles passassem de novo e ainda bem, novamente não notaram a minha presença ali dentro. 

Esperei que passassem de novo para poder sair com segurança com a intenção de ir ao escritório onde ocorreria a minha reunião, mas quando olhei para trás, vi que dois deles esboçaram se virar para trás para olhar e isso me deu a certeza que realmente estavam a fazer rondas, a caçar opositores de sua ideologia para arrumar confusão. Não dava para voltar ao carro sem ser notado e assim, refugiei-me em uma galeria que havia exatamente naquele ponto, cheia de lojas e ali aguardei por alguns minutos. De fato, dois desses mal-intencionados passaram, mas felizmente eles não tiveram a ideia de entrar na galeria e logo passaram de volta na direção oposta. Saí dali com cuidado, e ambos haviam sumido.

Fui à reunião, a proposta da pequena gravadora não era ruim, mas não fechamos negócio, pois o boato que ouvimos sobre uma proposta melhor logo se concretizou em termos de um contrato de gravação. 

E ali na rua, quando cheguei ao carro, a noite já se pronunciara e o comércio estava a fechar as portas, com o movimento da rua a diminuir bastante e assim, não havia mais vestígio dos gangsters briguentos.

Sofri um pouco para consertar o carro, pois o socorro mecânico demorou para aparecer, mas no final das contas, com um motor de arranque novo em folha, a ignição funcionou de imediato e eu parti, enfim, de volta a São Paulo. E uma certeza ficou: mesmo bem arrefecido, esse clima de hostilidade da parte de pessoas impregnadas desse tipo de baixo astral ainda existia e não era a hora para deixar de ser cauteloso.

sábado, 16 de novembro de 2024

Crônicas da autobiografia - O retrocesso medieval proposto - Por Luiz Domingues

O pré-Língua de Trapo em ação no ano de 1979. Click de Rivaldo Novaes

Aconteceu entre o tempo final do Boca do Céu, e início do Língua de Trapo, durante o ano de 1979

Em meio aos esforços para engrandecer a minha primeira banda, o Boca do Céu, a minha rotina do cotidiano durante o ano de 1979 se dividira entre as atividades da banda, a minha determinação pessoal para melhorar como músico e sim, cursar e passar pelo dito "terceiro ano colegial", que eu cumpria em termos de estudo formal.

Dentro do ambiente escolar, havia uma série de alunos que como eu, ainda estávamos ligados com os ideais contraculturais, e como Rockers com identificação hippie, mantínhamos uma aparência coadunada com os valores do Rock sessenta-setentista e assim, ainda que em fase de franca diminuição nessa ocasião, os usuários de longas cabeleiras estavam devidamente distribuídos pelas salas de aulas da escola.

                Eu (Luiz Domingues), em 1979. Acervo próprio

Nesse nesse específico ano, apesar de sempre ter tido uma postura "zen" e respeitosa no ambiente escolar, aliás, desde que ingressei no sistema educacional no ano de 1968, infelizmente eu tive um problema e de novo ressalto que na verdade, o problema não foi gerado por alguma ação minha, de forma alguma.

Explico: eis que um novo professor entrou em cena, a ministrar a discutível matéria de "OSPB" (organização social e política brasileira) para o ano letivo de 1979. Nos anos anteriores, nenhum professor houvera me hostilizado por eu manter aparência de "hippie", mas esse profissional em específico passou o ano inteiro a me hostilizar de uma forma gratuita e claro, estimulado por uma série de preconceitos que continha no seu âmago.

Não houve nenhuma surpresa de minha parte que esse sujeito a ministrar tal matéria, fosse um reacionário por natureza, como geralmente eram os entusiastas desse conteúdo com alta dose de doutrinação embutida em suas entranhas. No entanto, eu já havia enfrentado anteriormente professores da matéria semelhante, ou sejam, a indefectível "educação moral e cívica" durante a conclusão do ensino fundamental e não havia tido grandes problemas além do óbvio que essa matéria inseria em si, mas esse senhor se incomodou ao me ver no fundo a sala a usar uma longa cabeleira e não escondeu isso de ninguém, apesar de eu jamais ter me insubordinado à sua autoridade.

Com certa frequência, comentários sobre a "decadência social" promovida pelos "hippies cabeludos" vinham em voz alta, a mirar-me e completamente desconectados do contexto da matéria que nos passava, como um tipo de ataque covarde da parte desse pulha preconceituoso. Contudo, eu nunca retruquei a sua grosseria gratuita.

Certa vez ele citou o filósofo, Arthur Schopenhauer, ao pedir para que eu me levantasse e respondesse uma pergunta da matéria, mas a sua intenção foi apenas que eu ficasse de pé e em evidência para me atingir com um ataque frontal e gratuito ao citar o famoso aforismo cunhado por tal pensador: "cabelos longos, ideias curtas".

Ora, essa colocação misógina da parte do filósofo, foi abominável por natureza, embora esteja no contexto da época na qual viveu entre os séculos dezoito e dezenove e ao ir além, o preconceituoso incomodado com a minha aparência a distorceu, pois certamente interpretou a minha longa cabeleira como um sinal de homossexualidade, ou seja, o ataque foi duplo, no sentido de que primeiro: compactuava com a lógica abominável do filósofo que citou, ao considerar a mulher como um ser intelectualmente inferior ao homem e reforçou o preconceito ao julgar-me como um homem que desejava ser mulher, portanto, alguém que quisesse abdicar da minha "natural" superioridade no conceito dele, para se tornar inferior, isto é, a me chamar de desprovido de inteligência sob dois aspectos. Em suma, que raciocínio tacanho e carcomido de preconceitos dos mais abomináveis.

Certa vez, quando da administração da primeira prova formal bimestral, esse senhor já a se colocar como uma pessoa na terceira idade na ocasião, ao distribuir os papéis de prova aos alunos, fez uma explanação absolutamente lamentável e eu diria, criminosa, pois certamente que ele não tinha esse direito sob o ponto de vista pedagógico, quando disse aos berros: "eu não dou nota dez para ninguém, devo deixar claro. Mesmo que o aluno acerte todas as questões, mesmo que use de argumentação brilhante para defender a sua tese e esteja inteiramente correto no seu raciocínio, a nota dez eu só dou para Deus. Portanto, partindo dessa premissa, nenhum ser humano jamais poderá ter a mesma quantificação".

Bem, foi inacreditável ouvir essa afirmativa de um fanático religioso a usar do seu poder como professor para inventar um critério irracional para avaliar o desempenho dos seus alunos. E se o aluno dependesse da nota dez para fechar a média e passar de ano? Seria reprovado pelo beato? Inadmissível!.

Lá pela metade do ano, ele teve uma crise de nervosismo, quando fez um ataque às religiões orientais e ao citar o hinduísmo, centrou as suas baterias de ódio explícito ao criticar duramente as imagens de Deuses com a anatomia híbrida e/ou com a presença de muitos braços na representação visual de suas supostas imagens. E para demolir essas crenças, citou passagens da Bíblia a referendar a ideia de que o Deus único no qual acreditava criou a humanidade à sua semelhança e que era inconcebível haver gente ignorante que acreditava na multiplicidade de Deuses e sobretudo sobre as divindades que eram híbridas, a apresentar características humanas e animais em um mesmo corpo.

Aos berros, falava ser intolerável adorar um Deus com "cara de macaco ou elefante". Ora, o beócio nunca foi buscar entender as metáforas, alegorias e analogias de outras crenças e portanto, como um fanático monolítico que se revelara, jamais levou em consideração que nessa mitologia em específico, criaturas com vários braços tem como metáfora a ideia de que cada braço representa uma característica do referido Deus e no caso das feições animais, o raciocínio é o mesmo ao usar a analogia com os animais para realçar aspectos inerentes tais como força, destemor, argúcia, agilidade e outros, como algo meramente alegórico. E claro, a denotar que interpretava a Bíblia de uma forma literal e deveras infantil, sem entender as metáforas e simbologias ali descritas, e que à luz da razão, também são exóticas em muitas passagens, convenhamos.    

E para encerrar esta crônica, narro o ápice dessa atuação da parte desse professor e que ao mesmo tempo revelou a personalidade desse sujeito tão detestável pela sua verve autoritária e ignorante. Eis que ele propôs um estudo sobre o comportamento humano a se provar como algo altamente controverso.


Hipócrates, na antiguidade, formulou uma teoria a explicar a saúde do ser humano e que ao mesmo tempo tentava propor a mesma tese em relação ao seu comportamento, quando estabeleceu a questão sanguínea como tal parâmetro. Alguns séculos depois, o romano, Galeno, partiu desse estudo e avançou a estabelecer as bases do que veio a ser conhecido como "teoria humoral".

Esse texto serviu de base na Idade Média, séculos depois, para ser considerado como um parâmetro, como a teoria mais avançada aos padrões da época e claro, sob as bênçãos das forças religiosas que dominaram tal fase da história da humanidade a ferro e fogo, literalmente.

Bem, o tempo passou, o estudo de Galeno ficou totalmente ultrapassado e usado apenas como fato histórico a envolver a medicina, a antropologia e a psicologia sob uma análise geral e claro, circunscrito ao fato de que sob o ponto de vista filosófico, é tratado nos dias atuais apenas como algo registrado nos anais da história, sendo descartado como estudo sério, faz tempo.

Entretanto, a proposta desse "mestre", se pelo ponto de vista curricular foi um engodo, ao menos serviu para tornar patente de onde vinham as suas ideias reacionárias. Como um religioso extremista e fanatizado, é claro que isso explicou bem a sua linha detestável de aula e claro, coadunado com a repressão, o autoritarismo, o reacionarismo em alta voga nas décadas de sessenta e setenta e tudo isso amalgamado com um cabedal de preconceitos despropositados sob o ponto de vista pessoal da parte desse energúmeno.

Fiz as provas bimestrais, a obter notas boas que me garantiram a aprovação, e a responder o que ele queria ler, sem nunca contestá-lo. Alguns colegas da sala de aula chegaram a se solidarizar comigo pela perseguição que sofri e se admiraram por eu nunca haver respondido a altura ou a formular uma queixa na direção da escola. Bem, eu poderia ter feito isso e não seria descabido pelo ultraje que sofri, no entanto, acho que agi bem ao aguentar o vilipêndio, justamente porque foi exatamente o que ele queria, isto é, provocar-me para gerar a minha reação.

Para quem não sabe qual é a base dessa formulação teórica que adveio da antiguidade e foi tida como a última palavra durante a Idade Média e boa parte da Renascença, veja abaixo o resumo do que o tal professor de "cabelos curtos e ideias medievais" me impingiu durante o ano de 1979, ou seja, segundo Hipócrates e Galeno, os seres humanos seriam divididos em quatro tipos:

Sangue (sanguíneo): O sangue era considerado o humor principal e era associado às características de calor e umidade. Uma pessoa com predominância do sangue era vista como otimista, extrovertida, sociável e cheia de energia. Eles eram vistos como pessoas alegres, comunicativas e entusiasmadas.

Fleuma (fleumático): A fleuma era associada ao frio e à umidade. Uma pessoa com predominância da fleuma era vista como calma, tranquila, paciente e reservada. Eles tendiam a ser observadores, racionais e não expressavam muita emoção.

Bile Amarela (colérico): A bile amarela estava associada ao calor e à secura. Uma pessoa com predominância da bile amarela era vista como enérgica, determinada, assertiva e competitiva. Eles eram considerados líderes naturais, com uma tendência a serem dominantes e focados em objetivos.

Bile Negra (melancólico): A bile negra era associada ao frio e à secura. Uma pessoa com predominância da bile negra era vista como introspectiva, pensativa, analítica e sensível. Eles tendiam a ter um temperamento melancólico, com uma tendência a serem perfeccionistas e preocupados com detalhes*.

De minha parte, eu passei de ano a concluir o curso médio, cheguei ao final do ano a comemorar o fato de que estava a participar do meu primeiro trabalho profissional como músico (na banda de apoio do compositor, cantor e músico, Tato Fischer), e também em meio à formação de uma banda cover que tocaria muito na noite paulistana e a ganhar dinheiro (o "Terra no Asfalto"), e igualmente envolvido com os primeiros tempos na formação do "Língua de Trapo".  

Portanto, o aborrecimento saiu da minha mente bem rapidamente ao ponto de que eu nem me lembrar do nome desse senhor. A pensar nas ideias de Galeno, creio que muito provavelmente esse senhor tão reacionário se considerava como um típico "sanguíneo", mas na verdade, era apenas um escolástico medieval a viver o século vinte com uma mentalidade ultrapassada, a se portar como um sujeito anacrônico, parado em um tempo obscuro e ocorrido há séculos.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Golpe de Estado + Baixistas convidados - Sesc Paulista - Sexta-Feira, 18/10/2024 - 19:30 horas

Golpe de Estado + Baixistas convidados

Homenagem a Nelson Brito



Sexta-feira - 18 de outubro de 2024 - 19:30

Sesc Paulista

Avenida Paulista, 119

Bela Vista

São Paulo - SP

Estação Brigadeiro do Metrô



Golpe de Estado:

Roby Pontes: Bateria

Marcello Schevano: Guitarra e voz

João Luiz: Voz



Baixistas convidados:

Ricardo Schevano

Pepe Bueno

Fabio Cesar

Daniel Kid

Luiz Domingues


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Show: Os Kurandeiros & Boca do Céu - Teatro Jardim Sul Experience - Shopping Jardim Sul - Vila Andrade-SP - Sexta, 20/9/2024 - 18:30 horas

Os Kurandeiros & Boca do Céu no Teatro Jardim Sul Experience! 
 
20 de setembro, sexta-feira. Lançamento do livro "Boca do Céu", autobiografia do baixista Luiz Domingues e lançamento do disco ao vivo, "Pronto pra festa", d'Os Kurandeiros.
Noite de autógrafos do livro "Boca do Céu" de autoria de Luiz Domingues - 18:30 hs.
Shows do Boca do Céu e d'Os Kurandeiros: 20:30 horas
 
Teatro Jardim Sul Experience
Shopping Jardim Sul
Rua Itacaíuna, 61
Vila Andrade
São Paulo - SP
Estação Giovanni Gronchi do metrô
 

sábado, 7 de setembro de 2024

Livro: Boca do Céu (a autobiografia de Luiz Domingues na música - Volume I) - Matilda Produções/Clube de Autores - Lançado em Julho de 2024

Foi na plataforma da antiga rede social Orkut que eu dei início ao primeiro esboço do que viria a ser a construção da minha autobiografia na música, ação que começou em meados de 2011. 

Em 2012, eu comecei a enfim organizar melhor esse texto aqui mesmo nesta plataforma de meu Blog número dois e nesses termos, ordenado desta feita em torno de mini capítulos numerados e separados por cada banda pela qual eu atuei e atuava naquele momento. A aproveitar o ensejo, naturalmente recheei o texto com ilustrações a conter fotos, vídeos, material de portfólio e muitos documentos existentes no meu acervo pessoal de carreira. 

Em 2015, eu dei um outro passo importante no sentido da organização prévia desse texto, ao criar o meu Blog número três e este concebido para ser inteiramente dedicado à minha carreira musical, portanto, ali eu concentrei todo o meu acervo e também o texto da autobiografia, porém reformatado como capítulos mais robustos, já a pensar no formato de um livro impresso.

Entre 2016 e 2018, dois abnegados amigos militantes do mundo editorial, Cesar Benatti e Sérgio Rocha, iniciaram um processo de diagramação da minha autobiografia, e alertaram-me que eu havia escrito uma quantidade altíssima de texto, a somar mais de um bilhão e trezentas mil palavras e dessa forma, esse livro haveria de contabilizar quase três mil páginas, ao torná-lo impossível de ser publicado em um único tomo.

Não deu certo o esforço de ambos na ocasião e claro que os agradeço muito pelo empenho que tiveram, mas eu tive que repensar não somente sobre como lançar a autobiografia, mas também sobre os meus planos de inserção no mundo literário. 

Posteriormente já em contato com um grande amigo, Cristiano Rocha Affonso da Costa (escritor, músico e dono de uma produtora cultural chamada "Matilda"), fui por ele aconselhado a fazer uso dos serviços do "Clube de Autores" para publicar com maior facilidade e em 2019, mudei a minha estratégia e decidi lançar outros trabalhos antes de lançar a autobiografia, exatamente para me apresentar como um escritor propriamente dito e não apenas como um músico que escreveu as suas memórias. Dessa maneira, em 2020, com pandemia e tudo mais, lancei a trilogia: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", três volumes recheados com 131 resenhas de filmes relacionados ao universo do Rock.

Em 2023, avancei mais um pouco e lancei um livro de contos chamado: "Humanos Pitorescos", como mais um pilar dessa minha autoafirmação como escritor.

E finalmente em 2024, lancei o primeiro volume da minha autobiografia na música, a abordar a história mais remota da minha carreira, a bordo da primeira banda de Rock na qual fui componente: Boca do Céu. A obra completa está prevista para conter 14 volumes, um para cada banda pela qual atuei ou ainda atuo, além de um volume dedicado aos muitos trabalhos avulsos que realizei fora do ambiente de minhas bandas autorais e um volume a narrar a minha experiência como professor de música, atividade que mantive em paralelo por 12 anos, entre 1987 e 1999.
  
A se considerar que a organização dessa obra teve neste blog um de seus pilares (e ainda tem, pois o uso regularmente para atualizar a minha trajetória em capítulos que vão compor mais livros no futuro), é com muito prazer que lhes apresento o primeiro volume impresso da minha autobiografia na música, a se tratar da minha história com o "Boca do Céu", a primeira banda da qual fui componente, que durou entre 1976 e 1979.
Falo sobre a sua fundação, o ambiente cultural que nos envolvia, as dificuldades inerentes à nossa falta de melhores recursos, técnica musical, conhecimento sobre os meandros da música profissional e claro, a ingenuidade com a qual enxergávamos o mundo. Mas também é uma história a narrar a força de vontade, o sonho lúdico que instigou e a tenacidade que nos moveu nesse período. E no meu caso em particular, foi o impulso primordial que me tirou de uma aspiração meramente imaginária para a realidade da música e do Rock.

O Boca do Céu se reuniu em 2020 com o objetivo de gravar o disco que sonhamos produzir em 1976 e não conseguimos. O grupo lançou um single em 2023 (a canção "1969"), e está em trabalho de estúdio, preparando mais músicas, mas essa continuidade de história não consta neste livro, que cobre apenas a minha história com a banda nos anos setenta. Essa sobrevida estará em um livro posterior, que se encontra em estado de elaboração.
Este volume I da minha autobiografia, está à venda através do site do Clube de Autores e também pela Amazon. Em setembro de 2024, promoverei uma tarde/noite de autógrafos com direito a show e em breve, anunciarei oficialmente tal evento, mediante o serviço inerente.

O Volume II desta autobiografia já está em fase de editoração e posso lhes antecipar a informação de que será a vez de eu contar a minha história com o Língua de Trapo.
Boca do Céu (a autobiografia de Luiz Domingues na música - Volume I)
Autor: Luiz Domingues
Editor: Cristiano Rocha Affonso da Costa
Revisão gramatical, diagramação e carta catalográfica: Alynne Cavalcante
Arte e lay-out final da capa/contracapa e material promocional: Victoria Costa
Foto do autor: Lincoln Baraccat
Almofada com foto do Boca do Céu em 1977: Amanda Fuccia
Fotos e material impresso que ilustram a capa: acervo particular de Luiz Domingues
Foto do Boca do Céu em 1977: Adelaide Giantomaso
Uma obra proporcionada pela Matilda Produções
Apoio gráfico: Clube de Autores
Julho de 2024

Vendas pelos sites do Clube de Autores e Amazon:


sexta-feira, 21 de junho de 2024

Crônicas da autobiografia - Avant-garde ou avacalhado? - Por Luiz Domingues

Aconteceu entre o tempo final do Boca do Céu e início do Língua de Trapo, em algum momento de 1979

Foi através do meu amigo, Laert Sarrumor, que eu tomei conhecimento que ele estava a interagir com um grupo de poetas jovens e muitos deles a despontar em uma cena artística que se pronunciava, aparentemente, ao menos através da nossa visão da movimentação cultural naquele instante, como relevante, mesmo que alojada no patamar underground. 

Alguns desses poetas, inclusive, se colocavam a apresentar fama crescente dentro desse meio e assim a despertar a atenção de certos críticos que os consideravam (a falar da turma toda), como avant-garde pela sua arte considerada revolucionária para o espectro da época, final dos anos setenta.  

Entretanto, apesar dessa aura positiva construída em torno desses rapazes e moças, com quase todos a gravitar na cidade de Brasília e arredores, eu li alguns trabalhos feitos por tais emergentes criadores e não me impressionei, embora não pudesse afirmar que fosse ruim tal produção, porém, certamente ficara claro na minha percepção que eles eram superestimados e com a devida ressalva de que eu era muito jovem na ocasião e sem uma grande substância intelectual para tecer tal juízo estético com absoluta precisão.

Eis que o Laert se aproximou de um deles com maior regularidade, este por sinal que era o mais incensado dessa turminha e estabeleceu correspondência com tal poeta, no padrão literal da época, ou seja, a trocar missivas com ele e a seguir, sugeriu que eu também me aproximasse desse poeta para que se criasse assim um elo mais firme entre nós que éramos músicos e companheiros de banda, com um núcleo de poetas emergentes, e daí, a se precipitar em tese uma série de ações em conjunto que poderiam ser benéficas para todos.

Bem, o rapaz me respondeu com atenção e respeito e logo passou a me mandar seus poemas mimeografados para a minha apreciação. É claro que eu nunca fui um especialista nesse quesito e naquela época, mal a sair da adolescência, muito menos. 

Todavia, eu lia os poemas desse rapaz e identificava uma espécie de inconformismo destrutivo, pessimista e deveras depressivo na sua obra, a denotar que a sua influência primordial devia ser o existencialismo de Jean Paul Sartre, ou pensamento de Friedrich Nietzsche e talvez a visão de Thomas Hobbes como base de pensamento filosófico, e além disso, a escatologia da qual fazia uso para construir seus versos, devia ter vindo de Augusto dos Anjos que o impressionara nos bancos escolares, com ecos dos poetas franceses ditos "malditos" do século dezenove e muito possivelmente descobertos depois dele ter ouvido os discos do grupo de Rock sessentista, "The Doors", ou dos emergentes artistas que se alavancavam pela via do Pós-Punk, então em altíssima voga nessa específica ocasião. 

Bem, fica a ressalva que foram meras conjecturas livres, sem base alguma de minha parte, mas para sintetizar, aqueles poemas carregados de uma visão desalentadora da existência humana, não me agradavam e sobretudo, eu não me conformava com o fato de que ele (e seus pares, também), eram superestimados por muitos.

Foi então que esse rapaz me perguntou se eu escrevia igualmente e em caso afirmativo, se poderia lhe enviar algum trabalho de minha criação para ele tomar conhecimento. Eu de pronto lhe expliquei que sim, gostava de escrever, mas não gostava de escrever poesias, a preferir outras modalidades de literatura. No entanto, ele insistiu e sim, eu tinha alguns poemas escritos em folhas de caderno e que considerava bem fracos, portanto jamais tencionei exibi-los de forma pública. 

Ele insistiu e eu nunca entendi a sua real intenção com tal pedido, haja vista que eu lhe afirmei categoricamente não ser poeta e ele sabia muito bem que eu era apenas um recém ingresso na vida adulta, mas adolescente ainda em vários aspectos e reles aspirante a músico nessa ocasião.

Então, desconfiado de sua real intenção e ao mesmo tempo incomodado com a fama que ele tinha e que na minha ótica era indevida pela superestimação da sua arte que não continha nada de "revolucionária" na minha opinião, eu criei alguns poemas com teor absurdo na escolha de metáforas e alegorias, e acintosamente a lhe imitar, como uma forma velada de escárnio implícito de minha parte, exatamente para confrontar a sua fama que eu achava indevida.
Muitos deles foram formados por frases mais apropriadas como aforismos, mas usados em forma de versos, com a deliberada intenção de contestar o próprio estilo do decantado poeta.

Lembro-me de um em específico, que talvez tenha sido a gota d'água para desmascará-lo, pois ele adorava usar imagens fortes com teor deveras desagradável para se expressar e neste caso, eu fiz o mesmo, mas acredito que ele não tenha gostado de se ver refletido no espelho quando leu o meu "poema":

"Não uso analgésico. Curo a minha dor de cabeça com uma boa martelada certeira, mesmo que seja, talvez, definitiva"...   

Enfim, o poeta celebrado pela "intelligentsia" não me respondeu mais. Acho que deve ter me julgado um perfeito idiota por ter escrito tal bobagem. De fato, isso que eu lhe enviei era (é) um lixo como poesia e a ideia propalada, abominável e desprezível até ao se considerar que se trata de uma metáfora, contudo, não era nada diferente como ideia, em comparação ao que o rapaz costumava escrever e encantar os seus admiradores, principalmente certos jornalistas culturais da época e assim, na prática, ele provavelmente se irritou mesmo foi com a constatação de que ele impressionava muita gente, mas definitivamente eu não me incluía nesse mesmo rol.