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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 138 - Por Luiz Domingues


Na semana seguinte, o Jornal do Cambuci e Aclimação, publicou uma matéria assinada pelo Dalam Jr., que estabeleceu uma resenha geral sobre o evento. Quando referiu-se a nós, Dalam disse :

"Chave do Sol : Musical perfeito, dentro de um estilo que funde o Rock' n' Roll ao Jazz, e até mesmo ao som progressivo. Uma banda que, com grande técnica musical, consegue superar suas deficiências de comunicação e visual. Um grupo profissional, que conseguiu arrancar aplausos até dos metaleiros mais radicais, que somavam a maior parte do público".


A despeito do Dalam não ser um jornalista profissional, acho que as suas observações foram bem colocadas.


Discordo apenas da questão do nosso visual, em termos de figurino, pelo qual criticou-nos, mas faço um ressalva : na percepção dele, ali no calor de 1984, foi óbvio que ele achasse mais adequado que tivéssemos um visual mais espalhafatoso, e similar a de bandas de Hard e Heavy Metal de tal atualidade ou no mínimo, coadunado com o visual de seguidores das correntes do Pós-Punk, ambas, em grande voga naquele momento.

Lembro-me bem que o Zé Luiz privilegiou o seu conforto pessoal, além de levar em conta o frio em questão daquele dia, ao usar moletom.
 

Talvez isso tivesse impressionado o Dalam negativamente, mas eu e o Rubens estávamos mais adequadamente trajados, como Rockers, ainda que mais a parecer sermos artistas ligados em estéticas setentistas, proibitivas naquela década de oitenta. 

Entretanto, foram apenas detalhes, pois o importante foi que o show revelou-se um sucesso.
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 137 - Por Luiz Domingues


Chegou a nossa vez para subir ao palco, enfim. O frio nesse momento foi para rachar quando começamos a tocar e mesmo com o público visivelmente incomodado por isso, somado à garoa que acentuara-se, a nossa apresentação foi de uma energia incrível, ao arrancar aplausos e gritos acalorados. Percebi até expressões de espanto de algumas pessoas mais próximas à grade de proteção entre público e palco, ao denotar estar positivamente surpreendidas com o nosso som.

Por um segundo, lembrei-me da magistral, Mama Cass a soltar um "Wow", enquanto assistia o Big Brother And the Holding Co., no Festival de Monterey de 1967, mas certamente hipnotizada pela vocalista da banda, uma texana mal ajambrada, mas com uma voz estonteante, chamada : Janis Joplin... guardadas as devidas proporções, senti essa perplexidade no semblante de alguns ali presentes, e claro que tal perspectiva animou-me mais ainda. 

A minha performance pessoal, que era sempre frenética nesses tempos, intensificou-se por um motivo de força maior, emergencial. Isso porque estourou uma corda da guitarra do Rubens, bem na hora em que executávamos o tema : "18 Horas". Não fiz-me de rogado, e enquanto ele providenciou a troca (sim, lamentavelmente não possuía guitarra sobressalente nessa época...), iniciei um improviso com o Zé Luiz e por sorte, foi bastante criativo e inspirado. 

Ao final, quando o Rubens sinalizou que estava pronto para voltar à música, demos a sua deixa e o público, em sua maioria, nem percebeu que a guitarra do Rubens teve problemas, ao julgar ter sido aquele improviso, uma parte do arranjo natural da música. Ao final, já com a noite a avançar, saímos muito aplaudidos do palco, ao lembrar as nossas performances no programa : "A Fábrica do Som". 

Claro, apesar da ótima acolhida, falhamos no quesito comunicação com o público, pois nenhum de nós três tinha esse carisma natural, e não era por menos que estávamos a preparar um vocalista para assumir, pois sentíamos essa carência de comunicação em nossa banda. E ao meu ver, tal falha por termos falado muito pouco ao microfone, e privilegiar assim, tocarmos intermitentemente, sem muitas pausas entre as músicas. As portas abriram-se para nós no evento e novas participações aconteceriam no futuro, inclusive com o crescimento do próprio evento, simultaneamente. 
Tudo isso ocorreu no dia 26 de agosto de 1984 e segundo a estimativa da Polícia Militar, cerca de mil e quinhentas pessoas assistiram os shows, sob frio; vento & garoa. Fico a imaginar se poderia existir a possibilidade de hoje em dia (2013, momento em que escrevi esse trecho), tal número de pessoas pessoas sair de casa nessas condições climáticas elencadas, para assistir quatro bandas de Rock autorais, e completamente desconhecidas da mídia mainstream e grande público... eu tenho inúmeras restrições aos anos oitenta, por diversos motivos, mas nesse quesito, não há como não lamentar que hoje em dia não exista tal predisposição natural da parte do público...
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 136 - Por Luiz Domingues


Após o show realizado na cidade de Vinhedo / SP, as baterias centraram-se no show ao ar livre no Parque da Aclimação, em São Paulo, no evento : "Praça do Rock". Foi no domingo, dia 26 de agosto de 1984, sob uma tarde muito na cidade. Que eu lembre-me, até o fim dos anos oitenta, as estações climáticas em São Paulo eram totalmente definidas e dessa forma, agosto era gelado, tradicionalmente, com maio; junho & julho, muito mais, também. 

E assim, lembro-me muito bem, quando subimos ao palco da famosa concha acústica, que fica em frente ao lago, e o termômetro eletrônico que ali ficava, marcava 7° graus. Naquela tarde, apresentou-se também outras bandas, naturalmente. Além d'A Chave do Sol, passaram pelo palco do evento, : "Cygnus"; "Ano Luz", e "Abutre". O "Cygnus", era uma banda muito interessante, que praticava um som instrumental voltado ao Jazz-Rock setentista, o que dava-lhe similaridade conosco, apesar de que estávamos a mudar a orientação nesse momento, conformo venho a relatar. O show deles foi bom, e eu gostei da proposta e do trabalho, com bons músicos em sua formação, sem dúvida. Muitos anos depois, fiquei amigo do baterista, por outro motivo. Tratava-se de um rapaz chamado : Paulinho, que tornou-se técnico de P.A. do Centro Cultural São Paulo e operaria muitos shows da Patrulha do Espaço, onde eu atuaria, e também do Pedra, a seguir, no decorrer dos anos 2000. 

Show do "Ano Luz", com Fran Alves em destaque, no mesmo dia na Praça do Rock. Fotos do poeta, Julio Revoredo

A segunda banda, foi o "Ano Luz", uma banda centrada no Hard-Rock, a beirar o Heavy-Metal, mas com boas influências setentistas, ainda que obscurecidas pelo caráter então atual daquele momento. Era uma boa banda, com bons instrumentistas, mas o destaque era o seu vocalista, chamado : Fran Alves, um frontman dono de uma presença dramática no palco, e com uma voz potente, que chegava a ser impressionante. Mundo muito curioso e que dá muitas voltas, mesmo. Vimos a performance do "Ano Luz" a admirar a força interpretativa do Fran Alves, ao cantar a canção,  "Aurora Boreal", tema de destaque do repertório dessa banda, mas nem passara pela nossa imaginação, algumas circunstâncias que  envolver-nos-iam e tudo sob um curto espaço de tempo. Por exemplo :

1) Admiramos o Fran Alves, mas estávamos convictos de que havíamos achado o vocalista ideal para nós, na presença do gaúcho, Chico Dias; 


2) O Chico Dias ainda nem havia estreado conosco, fato que só aconteceria alguns dias depois, através de um show no interior de São Paulo, que relatarei logo mais. Portanto, nem de longe vimos o Fran, com alguma intenção de que ele viesse e incorporar-se à Chave do Sol, em momento algum;

3) Não sabíamos, mas naquele instante, o "Ano Luz" estava a atravessar um início de crise interna, e pouco tempo depois, encerraria as suas atividades;

4) Mais que tudo isso, teria sido inacreditável imaginar que o Chico Dias não daria certo conosco; sairia logo e o Fran Dias tornar-se-ia o nosso vocalista oficial nos últimos dias de dezembro de 1984, para estrear em janeiro de 1985, e entrar em estúdio, em março, para gravar um álbum que o perpetuaria.

Pois é..."um minuto além", e tudo muda...

Mas, devo registrar que se nós três (eu, Luiz Domingues; Rubens Gióia e Zé Luiz Dinola), não cogitávamos isso, um membro honorário da banda estava presente no evento e sim, vislumbrou a possibilidade com muita sensibilidade e antevisão. O poeta, Julio Revoredo revelou-nos à época, que estava muito impressionado com a performance do Fran Alves e que o considerava um vocalista ideal para A Chave do Sol. 

Fran Alves no palco do Parque da Aclimação. Foto do poeta, Julio Revoredo


De fato, meses depois, o Julio foi decisivo nesse processo, quando perdemos o Chico Dias e ficamos novamente sem perspectivas. Graças ao poeta, a ponte foi feita, para rapidamente estabelecemos contato e assim, Fran tornar-se-ia o novo vocalista da nossa banda para o ano de 1985. Todo esse relato está ricamente elucidado pelo próprio poeta, Julio Revoredo, em recente entrevista que concedeu ao Blog d'A Chave do Sol, conduzido por Wilson "Will Dissidente" (refiro-me ao ano de 2013). De volta a falar sobre a nossa participação no evento, "Praça do Rock", a terceira banda foi formada por garotos muito jovens, mas com um potencial, e uma garra impressionante. Chamava-se "Abutre" e essa sim, era uma banda bem calcada no som da época, ao mesclar o Hard-Rock californiano oitentista, com o Heavy-Metal, e a apresentar uma brutal influência do "Van Halen", ícone oitentista, sem dúvida. Mais que garotos de potencial e força de vontade, o "Abutre" era composto por seres humanos excepcionais. Ficamos muito amigos dos quatro componentes, inclusive ao frequentar ensaios, uns dos outros, e compartilhar a companhia mútua, em atividades sociais. Nessa banda, a sua formação apresentava dois irmãos (guitarrista e vocalista), Wagner e Ricardo "Cabeção", os irmãos Giudice. O baterista, Adalberto, popular "Dalbinha", e o baixista, Tomas. Outro elo que uniu-nos foi pelo irmão mais novo dos Giudice, Adriano, que também era guitarrista e conhecia a irmã caçula do Rubens, Rosana Gióia. Adriano Giudice era um garoto prodígio na guitarra, e mesmo muito novo, entraria no "Centúrias", a seguir, graças ao seu alto nível instrumental, apesar de imberbe, ainda. Tocamos muitas vezes juntos, doravante, e pelo menos até meados de 1987, o nosso convívio fraternal foi constante. A banda era muito jovem naquele agosto de 1984, portanto ainda a carecer de mais experiência naquela ocasião, mas a sua performance naquele dia, foi acima da média, ao não deixar cair o entusiasmo da plateia. E por fim, chegou a nossa vez...
 Foto do nosso show na Praça do Rock, em 26 de agosto de 1984

Continua...