Dorinha
é uma meio basset de uma amiga e tão educada, que se fosse gente, seria
uma erudita de delicadezas, moça de ter lido , ao menos, mais de dez poetas.
Recebe os convidados sem rosnar, como convém aqueles que ainda tem a hospitalidade entranhada na educação. Uma dama e como tal, eu, um cavaleiro dos velhos tempos, se derrete em jardim.
Foi a primeira a me receber e assim ficamos brincando por minutos que me fizeram esquecer, nesse minutos sem conta, todas as repúblicas de patetas que existem na galáxia.
Repúblicas
de verdade existiriam se os homens fossem governados por sábios
filósofos e hoje em dia não se lê nem Pablo Neruda nas escolas de base.
Paulo Francis dizia conhecer um leitor de Platão só pela risada.
Dorinha é culta.
Enquanto a amiga vai ver umas coisas no escritório, até
que iniciássemos nossa prosa, a pequena Basset fica aninhada em meu
colo confortavelmente, olhando o universo como se eu e ela fôssemos os
grandes personagens de toda essa engrenagem entre nuvens e estrelas.
Conquistou meu coração para sempre, saber que ela não rejeita um
intelectual quase honesto, nesse país de gente esquisita. Gente que não
sabe ficar com prazer ao lado de seu próximo.
Gente que rosna.
Gente
para quem não somos nada, quando não temos capangas nem
marketing.
Dorinha me provou, naquela tarde, que nos cachorros letrados a
sensibilidade de excelência e a sabedoria do Tao ainda existem em
algumas poucas criaturas, as que sobrarão quando Jesus voltar.
E como demora a voltar, não ?
Nossa.
Nossa.
Dorinha é o que há. Para ela, sou um Nobel.
Enquanto houver cachorros, terei esperanças.
Enquanto houver cachorros, terei esperanças.
Marcelino Rodriguez é colunista esporádico do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz a história de Dorinha, uma cadelinha Basset muito culta.